Publicado 12/01/2026 07:04

Detectada uma onda de choque em torno de uma estrela morta

Imagem obtida com o VLT de uma estrela morta criando uma onda de proa enquanto se desloca pelo espaço
ESO/K. ILKIEWICZ AND S. SCARINGI ET AL. BACKGROUND

MADRID 12 jan. (EUROPA PRESS) - O gás e o pó que fluem das estrelas podem, em condições adequadas, colidir com o ambiente de uma estrela e criar uma onda de choque. Agora, astrônomos, utilizando o telescópio VLT da ESO (Very Large Telescope do Observatório Europeu Austral), captaram uma bela onda de choque ao redor de uma estrela morta, uma descoberta que causou perplexidade. De acordo com todos os mecanismos conhecidos, a pequena estrela morta RXJ0528+2838 não deveria ter tal estrutura ao seu redor. Esta descoberta, tão enigmática quanto impressionante, desafia nossa compreensão de como as estrelas mortas interagem com seu ambiente. “Encontramos algo nunca visto antes e, mais importante ainda, totalmente inesperado”, afirma Simone Scaringi, professora associada da Universidade de Durham (Reino Unido) e coautora principal do estudo publicado hoje na Nature Astronomy.

“Nossas observações revelam uma emissão potente (outflow) que, de acordo com nosso entendimento atual, não deveria estar lá”, indica Krystian Ilkiewicz, pesquisador de pós-doutorado no Centro Astronômico Nicolau Copérnico em Varsóvia (Polônia) e coautor do estudo. Outflow é o termo em inglês usado pela comunidade astronômica para descrever o material expelido de objetos celestes. A estrela RXJ0528+2838 está localizada a 730 anos-luz e, assim como o Sol e outras estrelas, gira em torno do centro da nossa galáxia. Enquanto se move, ela interage com o gás que permeia o espaço entre as estrelas, criando um tipo de onda de choque chamada onda de proa, “um arco curvo de material, semelhante à onda que se forma na frente de um barco”, explica Noel Castro Segura, pesquisador da Universidade de Warwick, no Reino Unido, e colaborador neste estudo.

Essas ondas de proa geralmente surgem a partir do material que sai da estrela central, mas no caso do RXJ0528+2838, nenhum dos mecanismos conhecidos pode explicar completamente o que foi observado. O RXJ0528+2838 é uma anã branca — o núcleo residual de uma estrela moribunda de baixa massa — e tem uma companheira semelhante ao Sol orbitando-a. Nesses sistemas binários, o material da estrela companheira é transferido para a anã branca, formando frequentemente um disco ao seu redor. Enquanto o disco alimenta a estrela morta, parte do material também é ejetado para o espaço, criando emissões potentes. Mas RXJ0528+2838 não mostra sinais de um disco, o que torna tanto a origem do fluxo quanto a nebulosa resultante ao redor da estrela um mistério. “A surpresa de que um sistema supostamente tranquilo e sem discos pudesse desencadear uma nebulosa tão espetacular foi um daqueles raros momentos de ‘uau’”, declara Scaringi.

A equipe detectou pela primeira vez uma estranha nebulosidade ao redor de RXJ0528+2838 em imagens obtidas com o Telescópio Isaac Newton, na Espanha. Ao notar sua forma incomum, eles a observaram com mais detalhes com o instrumento MUSE, instalado no VLT da ESO.

“As observações com o instrumento MUSE da ESO nos permitiram mapear a onda de proa em detalhes e analisar sua composição. Isso foi crucial para confirmar que a estrutura realmente se origina no sistema binário e não em uma nebulosa ou nuvem interestelar não relacionada”, explica Ilkiewicz.

A forma e o tamanho da onda de proa implicam que a anã branca tem expelido um potente fluxo de saída há pelo menos 1000 anos. A comunidade científica não sabe exatamente como uma estrela morta sem disco pode impulsionar uma emissão tão duradoura, mas tem uma suposição. Sabe-se que esta anã branca tem um forte campo magnético, o que foi confirmado pelos dados do MUSE. Este campo canaliza o material roubado da estrela companheira diretamente para a anã branca, sem formar um disco à sua volta. “A nossa descoberta mostra que, mesmo sem um disco, estes sistemas podem gerar emissões potentes, revelando um mecanismo que ainda não compreendemos. Esta descoberta desafia a imagem padrão de como a matéria se move e interage nesses sistemas binários extremos”, indica Ilkiewicz. Os resultados sugerem uma fonte oculta de energia, provavelmente o forte campo magnético, mas ainda é preciso aprofundar o estudo desse “motor misterioso”, como o descreve Scaringi. Os dados mostram que o campo magnético atual só poderia alimentar uma onda de proa por algumas centenas de anos, o que explica apenas parcialmente o que a equipe está observando. Para compreender melhor a natureza desses fluxos sem disco, é necessário estudar muitos mais sistemas binários. O próximo telescópio ELT (Extremely Large Telescope) da ESO ajudará a comunidade astronômica “a mapear mais desses sistemas, bem como outros mais tênues, e a detectar sistemas semelhantes com maior detalhe, ajudando finalmente a compreender a misteriosa fonte de energia que continua sem explicação”, como prevê Scaringi.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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