Europa Press/Contacto/Troy R. Bennett - Arquivo
MADRID, 10 jul. (EUROPA PRESS) -
A boa fase que vinha acompanhando há meses os candidatos do progressismo norte-americano, a ala mais de esquerda do Partido Democrata, foi interrompida abruptamente pela renúncia forçada, devido a uma acusação de agressão sexual, do candidato ao Senado pelo Maine, Graham Platner, cujas políticas social-democratas e condenação do genocídio em Gaza haviam ganhado tanto apoio popular a ponto de ameaçar a cadeira da histórica senadora republicana Susan Collins, com o controle da Câmara em jogo nas eleições de novembro.
Em um vídeo de 11 minutos, Platner, uma figura considerada até mesmo radical dentro do progressismo por seu forte componente antisistema, anunciou a suspensão de sua campanha eleitoral após a denúncia apresentada por Jenny Racicot, de 41 anos, que afirmou ao site de notícias Politico que Platner, em estado de embriaguez, a violou em 2021. Esta é a última e definitiva de uma série de acusações que Platner teve de enfrentar desde que anunciou sua candidatura. Anteriormente, ele havia sido acusado de publicar mensagens racistas nas redes sociais e de ter no peito uma tatuagem associada à Alemanha nazista.
Na quinta-feira, Platner rejeitou totalmente a acusação e alegou que sua desistência se deveu, na verdade, à deserção de aliados desde que Racicot decidiu se manifestar, entre eles o deputado Ro Khanna, o senador Rubén Gallego, a senadora por Massachusetts Elizabeth Warren e, acima de tudo, aquele que fora seu grande apoiador, o senador por Vermont e ícone da ala de esquerda, Bernie Sanders. Quando o braço eleitoral do Partido Democrata anunciou que não investiria na disputa pelo Senado se Platner continuasse na cédula, o candidato decidiu se retirar.
O efeito definitivo da desistência de Platner ainda está para ser visto, mas, neste momento, ela abalou a tendência de ascensão da ala progressista do Partido Democrata, que decolou de vez no início do ano com a vitória de Zohran Mamdani nas eleições para prefeito de Nova York, após uma campanha baseada, assim como a de Platner, na defesa incondicional do Estado de bem-estar social e na condenação sem meias palavras do genocídio em Gaza.
Tão forte foi a inércia que a suposta favorita nas primárias do Maine para o Senado — e escolhida pelo núcleo duro do Partido Democrata —, a governadora Janet Mills, anunciou em maio sua desistência da disputa após ficar sem recursos para financiar a campanha devido ao seu fraco desempenho nas pesquisas.
MASCULINIDADE ANTISSISTÊMA
Há um aspecto específico do caso que acabou por destruir as chances de Platner: as acusações de abuso sexual recaíram sobre um candidato que se apresentou durante toda a campanha como um defensor, em suas próprias palavras, da “masculinidade saudável”; um modelo de comportamento que combina virilidade com empatia e respeito.
Platner, um veterano de guerra de 41 anos, usou as sequelas de sua experiência em combate para quebrar o tabu do homem calado que sofre seus problemas em silêncio, e, apesar de suas origens de classe média-alta, preferiu hastear a bandeira do herói da classe trabalhadora e se apresentar como um humilde criador de ostras — o produto por excelência do Maine —, em confronto com as elites do país; a mesma mensagem antisistema defendida pelo movimento MAGA, a ideologia ultraconservadora liderada por Donald Trump, a partir do polo oposto.
Essa faceta veio à tona em seu vídeo de renúncia na quinta-feira, no qual Platner atacou o “sistema midiático corporativo e a classe política” como culpados, em parte, por sua queda em desgraça. “Quando ambos atuam como juiz, júri e executor, não há tempo para investigar nada”, lamentou.
Embora sua desistência seja definitiva, Platner manterá sua candidatura até o prazo final na próxima segunda-feira, enquanto o Partido Democrata do Maine começa a trabalhar a todo vapor para preencher o enorme vazio que ele deixou.
NOVOS CANDIDATOS EM UMA DISPUTA DIFÍCIL
O primeiro a entrar em cena foi um antigo aliado de Platner, Troy Jackson, que anunciou sua candidatura na quarta-feira, quando começaram a circular as informações sobre a iminente desistência. “Estou dentro, e vamos derrotar Susan Collins”, escreveu ele nas redes sociais. Jackson já havia manifestado seu interesse em se candidatar perante a Comissão Eleitoral Federal antes da quarta-feira.
O empresário Dan Kleban também se candidatou. O fundador da Maine Beer Company, de 49 anos, havia se retirado das primárias democratas para o Senado no início deste ano e dado seu apoio a Mills. Junto com eles, anunciaram suas candidaturas o ex-funcionário da saúde pública Nirav Shah, o ex-candidato Jordan Wood (que decidiu voltar à disputa) e a secretária de Estado do Maine, Shenna Bellows.
Todos concordaram em se apresentar como candidatos da classe trabalhadora, mas o restante de suas plataformas ainda precisa ser definido, assim como sua futura relação com o movimento progressista que, atualmente, parece ser o único caminho para tirar Collins de uma cadeira que ela defendeu com sucesso por 30 anos. A veterana senadora, por sua vez, tem se movimentado com facilidade ao se apresentar, durante a era Trump, como uma moderada que criticou duramente muitas políticas do presidente, apenas para acabar declarando, na grande maioria dos casos, seu apoio, ainda que com relutância.
Uma hipotética vitória sobre Collins não garantiria, de forma alguma, a tão esperada reviravolta no poder no Senado, mas ajudaria, já que se trata de uma das cadeiras consideradas decisivas. Em novembro, os democratas precisam manter seus atuais 47 assentos, vencer no Maine e em mais três estados, mas os republicanos já consideram praticamente perdida a Câmara dos Deputados. ** Passar para a minoria no Senado seria devastador para o governo de Trump, pois representaria a paralisação imediata, no Legislativo, de qualquer iniciativa sua, o que obrigaria o presidente a governar por meio de decretos executivos passíveis de contestação nos tribunais.
Em sua despedida, Platner recomendou ao Partido Democrata que, independentemente de quem venha a assumir o poder, continue com seu programa político que tem dado tão bons resultados até agora, sempre colocando os interesses do povo acima de qualquer outra consideração. “O que vier a seguir precisa surgir do povo do Maine, daqueles que votaram por uma política que realmente os represente contra o sistema político, contra os financiadores, contra as forças que se entrincheiraram neste país”, comentou.
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