Publicado 06/10/2026 11:26

O desgaste do governo Lula e a falta de uma sucessão clara enfraquecem a esquerda no Brasil

5 de outubro de 2026, São Paulo, São Paulo, Brasil: São Paulo (SP), 04/10/2026 — Política/Eleições 2026/Resultados — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe apoiadores e a imprensa nacional e internacional e discursa após a confirmação do segundo tu
Leandro Chemalle / Zuma Press / Europa Press

Lula vence em apenas cerca de trinta cidades e perde apoio em regiões que dependem de programas sociais emblemáticos

O presidente brasileiro se mostra otimista em relação ao segundo turno, apesar dos resultados, e acredita que “não há motivo” para não acreditar na vitória

MADRID, 6 out. (EUROPA PRESS) -

A derrota, neste domingo, do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, no primeiro turno das eleições contra Flávio Bolsonaro, confirmou não apenas uma certa vantagem da direita para o segundo turno, marcado para 25 de outubro, mas também pode ter significado o fim de um modelo, marcado agora pela falta de renovação geracional e pelo autoisolamento em tempos melhores.

O balanço desses quatro anos na área econômica não foi desastroso, mas foi insuficiente para fortalecer a base social do governo, que viu seu apoio cair até mesmo no Nordeste, reduto do Partido dos Trabalhadores (PT), com mais de 250 mil votos a menos em relação às eleições de 2022.

É nessa região, da qual o pernambucano Lula é originário, que se encontram alguns dos municípios com maior dependência dos programas sociais do governo, entre eles o aclamado Bolsa Família, criado em seu primeiro mandato, em 2003, e com alcance de cerca de 50 milhões de pessoas.

No entanto, nessas cidades, o apoio a Lula caiu de 71,5% em 2022 para 68,8% nessas eleições, ao contrário de seu adversário, Flávio, que conseguiu um aumento de até quatro pontos percentuais nessa região do país, apesar das advertências do PT sobre as políticas de austeridade da direita.

Com um crescimento projetado abaixo de 2% ao ano e uma inflação contida à custa da manutenção das taxas de juros em níveis elevados, a conta é paga pelas classes média e trabalhadora, para as quais o aumento dos salários não é suficiente para fazer face à alta dos preços e às dívidas que vêm arrastando desde a pandemia.

“O problema está no endividamento das famílias, que já se arrasta desde a COVID e cujos juros são muito altos (...) Lula tem reclamado muito com os bancos por não reduzirem as taxas de juros (...) e isso agrava muito a situação das famílias endividadas com esses juros altos”, explicou à Europa Press Anna Ayuso, pesquisadora sênior para a América Latina do CIDOB.

“No fim das contas, a população não tem muita margem de manobra entre pagar a dívida e o aumento dos preços, principalmente dos alimentos; portanto, isso também influenciou muito no mal-estar da classe média”, observou ela.

Ayuso sustenta que a fórmula que rendeu tão bons resultados a Lula em seu primeiro mandato — programas públicos de auxílio para incentivar o consumo e, assim, reativar a economia — “talvez já esteja esgotada”, já que a inflação supera um crescimento que estagnou.

Da mesma forma, Lula teve que enfrentar, nestes quatro anos, um Congresso muito conservador e cada vez mais poderoso para levar adiante suas propostas, e prevê-se que esse Congresso seja mais favorável a Flávio Bolsonaro caso sua vitória seja confirmada.

FALTA DE RENOVAÇÃO GERACIONAL

Uma das falhas de Lula na campanha, sobre a qual Ayuso fez ênfase, foi ter dado mais destaque às conquistas do passado do que às propostas para o futuro. “Ele se dedicou a dizer o quanto as coisas foram bem feitas nas legislaturas anteriores, mas não está propondo nada de novo, nem tem rostos novos”, observou.

Lula da Silva, um octogenário, embora dinâmico, continua concentrando a maior parte do capital político da esquerda brasileira, que carece de alternativas de peso para, na melhor das hipóteses, o período após a reeleição do presidente.

Ayuso destacou que, embora seja verdade que a esquerda não tivesse um candidato alternativo ao presidente brasileiro, também não se dedicou a buscar um novo. “Lula foi incapaz de fazer uma transição para outros candidatos mais jovens”, nem parece ter acertado com aqueles que, a princípio, foram cogitados para isso.

É o caso do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que, após essas eleições, “também está fora de cena” após ter perdido “de forma retumbante” nas eleições para governador de São Paulo contra outra figura de destaque da direita, Tarcísio de Freitas, que chegou a ser cogitado como sucessor de Jair Bolsonaro.

“Além disso, ele é visto como um continuista, está desgastado como ministro da Fazenda, que é uma pasta que desgasta muito. Lula sempre disse que ele seria seu sucessor, mas é que ele não tem carisma, nem força, nem o resto”, opinou Ayuso.

A pesquisadora acredita que, desde a candidatura de Lula, “eles têm agido de forma conservadora” e que apenas a defesa da soberania se destacou por meio do confronto com o governo de Donald Trump. “O resto não mudou nada, está exatamente igual. Ele não promete grandes coisas, apenas continuar com o mesmo”, afirmou.

LULA, OTIMISTA PERANTE A VOTAÇÃO DECISIVA

Por outro lado, o presidente brasileiro agradeceu à sua equipe pela “boa campanha” realizada e mostrou-se otimista em relação ao pleito decisivo nas urnas no próximo dia 25 de outubro. “Não há motivo algum para acreditar que não seremos eleitos no segundo turno”, afirmou.

“Não há nenhuma razão econômica, social, política, nenhuma razão”, enfatizou o líder brasileiro, para quem uma derrota pode “deixar uma marca profunda” que sirva para recuperar o espaço perdido.

No primeiro turno das eleições deste último domingo, Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, saiu vitorioso com 47% dos votos, dois pontos a mais que Lula da Silva, que partia como favorito nesta rodada.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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