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Os especialistas apontam que a cirurgia é um procedimento de alto risco em pacientes com cirrose MADRID 20 fev. (EUROPA PRESS) - Uma equipe de pesquisadores espanhóis desenvolveu um novo modelo, denominado “S-RISC” (Surgical Risk Score for Patients with Cirrhosis), que melhora a previsão da mortalidade pós-operatória em pacientes com cirrose.
Os especialistas alertam que a cirrose hepática é uma doença que aumenta significativamente o risco de complicações graves e mortalidade após uma cirurgia de grande porte. Até agora, o modelo de referência internacional era o “VOCAL-Penn”, desenvolvido nos Estados Unidos. No entanto, ele tem certas limitações, pois estudos recentes mostraram que sua capacidade diagnóstica diminui em pacientes europeus, o que impulsionou a criação de um modelo adaptado a essa população.
Assim, uma equipe multicêntrica de hepatologistas, cirurgiões, anestesistas e bioestatísticos de vários hospitais de referência na Espanha apresentou no 51º Congresso Anual da Associação Espanhola para o Estudo do Fígado (AEEH) em Madri este novo modelo preditivo de risco cirúrgico para pacientes com cirrose. Além disso, a comunicação é uma das candidatas ao prêmio de Melhor Comunicação Oral do congresso. O trabalho, liderado por especialistas do Hospital del Mar e em colaboração com o Hospital Clínic, o Hospital de Bellvitge e o Hospital Parc Taulí, analisou 1.818 pacientes com cirrose submetidos a cirurgia extra-hepática de grande porte. O estudo foi desenvolvido em duas coortes independentes, uma para projetar o modelo e outra para validá-lo. A mortalidade em 90 dias foi semelhante em ambas as coortes: 10% na coorte de projeto do modelo e 9,4% na coorte de validação.
O 'S-RISC' incorpora variáveis clínicas fundamentais, tais como: idade, ASA, bilirrubina, INR, creatinina, sódio, plaquetas, presença de ascite, urgência da cirurgia e complexidade do procedimento. Na análise estatística, estas variáveis mostraram uma associação independente com a mortalidade pós-operatória em quase 100 tipos diferentes de cirurgia extra-hepática de grande porte.
O estatístico C (ou AUC) mede a capacidade discriminatória do modelo, ou seja, sua habilidade de classificar os pacientes de acordo com o risco de morte. O estatístico C de mortalidade em 90 dias foi de 0,89 na coorte de projeto e de 0,84 na coorte de validação. Os autores destacam que valores entre 0,84 e 0,89 indicam uma capacidade discriminatória muito boa: ou seja, ao selecionar dois pacientes aleatoriamente, existe aproximadamente 84-89% de probabilidade de que o modelo atribua um risco maior ao paciente que pode acabar falecendo.
Além disso, o 'S-RISC' superou o modelo americano 'VOCAL-Penn', cuja capacidade discriminatória foi significativamente menor. Os pesquisadores concluem, portanto, que “o modelo 'S-RISC' tem uma excelente capacidade de prever a mortalidade pós-operatória em pacientes com cirrose submetidos a cirurgia extra-hepática de grande porte e sua capacidade discriminatória é melhor do que a do 'VOCAL-Penn' em nosso meio”.
CONTRIBUIÇÃO RELEVANTE PARA A PRÁTICA CLÍNICA Os autores destacam que esses avanços são importantes, pois melhoram a segurança cirúrgica, permitindo identificar com maior precisão quais pacientes apresentam alto risco, facilitando decisões mais informadas. Além disso, fornecem um modelo adaptado à população espanhola e europeia, onde a referência atual tem mostrado limitações. Da mesma forma, garantem que se trata de uma ferramenta útil para hepatologistas, cirurgiões e anestesistas, especialmente em cirurgias urgentes ou de alta complexidade. Também destacam seu potencial impacto no planejamento sanitário, ao otimizar recursos e reduzir complicações, especialmente em cirurgias eletivas não oncológicas, ao poder considerar alternativas à cirurgia. Por tudo isso, consideram que este novo modelo poderia se tornar a ferramenta de referência na Espanha para avaliar o risco cirúrgico em pacientes com cirrose, um grupo de pacientes com mortalidade pós-operatória especial. “Sua validação em uma coorte independente e sua superioridade em relação ao padrão atual reforçam sua aplicabilidade imediata na prática clínica”, acrescentam os autores. “Os pacientes com cirrose hepática apresentam alto risco cirúrgico e, normalmente, quando precisam ser operados, os cirurgiões e anestesistas enfrentam a intervenção com certo receio de complicações. Este modelo é capaz de prever o risco de mortalidade após a cirurgia, o que tem uma grande aplicabilidade clínica para consensualizar decisões por parte da equipe multidisciplinar responsável pelo tratamento e para o paciente”, esclarece José Antonio Carrión, pesquisador do Hospital del Mar que liderou e coordenou o trabalho. RISCO ELEVADO EM UMA INTERVENÇÃO DE CIRROSE
Segundo os especialistas, a cirrose afeta a coagulação, a imunidade, a cicatrização e a resposta aos medicamentos. Por isso, uma cirurgia que seria rotineira em outra pessoa pode se tornar um procedimento de alto risco em um paciente com cirrose. O fígado produz a maioria dos fatores de coagulação. Quando ele está danificado, esses fatores diminuem e o paciente sangra mais durante a cirurgia, tem mais risco de hemorragias pós-operatórias e pode precisar de transfusões ou reintervenções. Além disso, a cirrose altera o sistema imunológico, o que faz com que os doentes tenham mais risco de infecções graves, respondam pior aos antibióticos ou possam desenvolver infecções sistêmicas com mais facilidade. A hipertensão portal e a ascite também dificultam as cirurgias, especialmente as abdominais. No estudo, de fato, a presença de ascite duplicou o risco de mortalidade pós-cirúrgica. Da mesma forma, muitos pacientes com cirrose têm hiponatremia (baixo nível de sódio) e insuficiência renal, duas condições que aumentam a mortalidade após a cirurgia.
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