CÁDIZ 22 abr. (EUROPA PRESS) -
Uma pesquisa descobriu, no Golfo de Cádiz, a existência de um ecossistema formado por sete microrganismos que consomem o metano antes que ele suba para o subsolo marinho, reduzindo assim suas emissões. Esse biofilme foi descoberto a quase dez metros de profundidade no mar, no vulcão de lama Ginsburg, um dos maiores do Golfo de Cádiz.
A descoberta, publicada pela ISME Communications, demonstra que “estava sendo subestimado” o papel que os ecossistemas microbianos organizados, os biofilmes, desempenham na retenção do metano, informou em um comunicado o Museu Nacional de Ciências Naturais (MNCN-CSIC).
A relevância dessa descoberta, na qual participam o Museu Nacional de Ciências Naturais e o Instituto de Ciências do Mar (ICM), ambos do CSIC, juntamente com o Instituto Max Planck de Microbiologia Marinha e a Universidade de Bremen, é “crucial”, já que o efeito estufa produzido pelo metano é quase 30 vezes maior do que o do CO2.
Na área de estudo, a 9,6 metros de profundidade, há uma fratura no sedimento preenchida por uma biofilme marrom escuro formada por apenas sete tipos distintos de microrganismos. Mais de 60% da comunidade microbiana é composta por uma arquea que se alimenta de metano.
Nesse sentido, o pesquisador do MNCN, Rafael Laso-Pérez, explica que “normalmente os ecossistemas microbianos são extremamente diversos e complexos” e que, por isso, é “surpreendente encontrar um tão pequeno e, ao mesmo tempo, tão ativo no subsolo marinho”.
“Nossas descobertas indicam que essa biofilme funciona como uma trincheira microbiana que intercepta o metano antes que ele chegue ao oceano”, confirmou.
As análises genômicas e geoquímicas identificaram a arquea como pertencente à linhagem ANME-1b. Conforme observado, essas arqueas costumam aparecer no sedimento, vivendo em simbiose com bactérias sulfato-redutoras. Assim, a bactéria associada pertence ao grupo Seep-SRB1c, que até agora só era associado à redução de sulfato de forma isolada.
“O extraordinário neste caso é que elas formam uma biofilme visível a olho nu, algo que foi descoberto em poucas ocasiões”, afirmou Laso-Pérez, que acrescentou que foi possível descrever uma nova bactéria, a Seep-SRB1c, que “provavelmente” atua como parceira metabólica da ANME-1b.
A arquea oxida o metano antes que ele emerja para o subsolo marinho, produzindo uma troca metabólica com a bactéria que utiliza o sulfato para respirar. Essa pequena comunidade inclui organismos heterotróficos que se alimentam dos resíduos produzidos pela associação entre a arquea e a bactéria.
Para Cleopatra Collado, do MNCN, essas biofilmes são “autênticas fábricas de reciclagem”, explicando que cada composto liberado na decomposição do metano “é aproveitado por outros microrganismos, criando uma rede ecológica muito eficiente a partir de poucos membros”.
A proximidade entre os organismos pode dar origem a processos evolutivos, como o intercâmbio horizontal de genes, abrindo assim um novo caminho para compreender como essas comunidades se organizam e quais são seus processos evolutivos.
Os participantes desta pesquisa apontaram que essa descoberta altera a ideia que se tinha sobre a liberação de metano nos vulcões de lama.
Até agora, supunha-se que a maior atividade microbiana ocorresse em seus cumes, mas o estudo demonstra que as fraturas periféricas, onde confluem fluidos ricos em metano e águas carregadas de sulfato, abrigam comunidades “muito ativas”. Isso obriga a ampliar as áreas de busca da atividade microbiana que regula a fuga de metano do subsolo.
Para Gunter Wegner, do Instituto Max Planck, o trabalho evidencia “o potencial” da investigação das margens dos vulcões de lama como “zonas de especial interesse para o estudo de ecossistemas microbianos” e seu papel nos ciclos do metano, “um gás com um potencial de aquecimento global 28 vezes superior ao do CO2”.
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