OVIEDO 19 jun. (EUROPA PRESS) -
Uma equipe de pesquisa formada por cientistas da empresa Light Bridges e da Universidade de Oviedo revelou que os asteróides classificados como metálicos giram, em média, mais rapidamente do que os demais corpos de tamanho equivalente no cinturão principal de asteróides, a grande região do Sistema Solar situada entre as órbitas de Marte e Júpiter, onde se concentra a maioria desses objetos.
O estudo, publicado na revista científica Icarus, apresenta um resultado compatível com algumas hipóteses clássicas sobre os asteróides metálicos, como a de que sua estrutura tende a ser mais compacta ou monolítica — ou seja, formada por grandes blocos relativamente homogêneos — ou que alguns deles sejam fragmentos de antigos núcleos planetários que ficaram expostos após violentas colisões ocorridas durante os primeiros estágios de formação do Sistema Solar.
Os autores ressaltam, no entanto, que ainda existem inúmeras incógnitas e que os asteróides metálicos poderiam constituir uma família muito mais diversificada do que se pensava. Os pesquisadores chegaram a essa conclusão após realizar uma análise estatística de mais de mil desses corpos celestes.
Os asteróides metálicos, conhecidos tecnicamente como asteróides do tipo M, apresentam assinaturas espectrais ricas em ferro e níquel. Essas assinaturas são padrões de luz que permitem aos cientistas identificar a composição de um objeto sem a necessidade de coletar amostras diretamente.
Graças a elas, os astrônomos podem distinguir esses asteróides do restante da população, formada principalmente por corpos rochosos ou ricos em materiais carbonáceos.
Seu estudo oferece uma via indireta para compreender como são os interiores dos planetas rochosos, como a Terra, Marte ou Vênus, regiões às quais nunca poderemos acessar diretamente. Além disso, sua composição os torna objetos de grande interesse para futuras pesquisas sobre mineração espacial, ou seja, a possível obtenção de recursos minerais fora do nosso planeta para apoiar atividades científicas e industriais no espaço.
A descoberta ganha especial relevância no contexto da missão Psyche da NASA, lançada em 2023 e que alcançará, em 2029, o asteróide de mesmo nome, considerado o maior corpo metálico conhecido do Sistema Solar. “A sonda Psyche fornecerá dados de extrema relevância; isso já aconteceu anteriormente com outras missões que coletaram dados in situ, ou seja, diretamente sobre o objeto estudado e não por meio de observações realizadas a partir da Terra, como foi o caso da missão Rosetta”, explica Fernando Abárzuza, autor principal do trabalho.
“Nesse contexto, a constatação de que o conjunto dos corpos metálicos gira mais rápido é relevante, pois sugere ou um padrão comum em sua composição ou estrutura interna, ou uma história dinâmica ou colisional compartilhada”, acrescenta esse pesquisador da Light Bridges.
Essa história de colisões refere-se ao conjunto de impactos e processos físicos pelos quais esses corpos passaram ao longo de bilhões de anos. A velocidade de rotação de um asteróide está intimamente relacionada à sua estrutura interna e à sua coesão mecânica, ou seja, à capacidade do material que o compõe de se manter unido.
Um corpo que gira muito rápido precisa ser internamente consistente para não se fragmentar devido às forças geradas por sua própria rotação. Detectar um excesso rotacional sistemático na população metálica constitui, portanto, uma observação relevante para compreender melhor a natureza desses objetos, embora ainda não se saiba com certeza se essa característica se deve a uma maior resistência interna, à sua história de colisões ou a uma combinação de vários fatores.
Essa linha de pesquisa é uma das que a pesquisadora de destaque Noemí Pinilla Alonso trouxe para a Universidade de Oviedo após sua contratação no ano de 2024 “A colaboração com a Light Bridges para estudar os asteróides metálicos em apoio à missão Psyche teve início em 2022, nos Estados Unidos. Os telescópios robóticos da classe de 2 metros, como os TTT do Observatório do Teide, são ideais para o estudo de grandes populações de asteróides”.
Essa linha de trabalho terá continuidade no Ictea por meio do projeto R2: Do Risco ao Recurso, promovido pela Universidade de Oviedo e pela agência Sekuens em colaboração com a empresa asturiana The Next Pangea S. L., para o estudo de asteróides próximos da Terra e sua caracterização física e mineralógica, ou seja, a análise de seu tamanho, forma, propriedades e composição mineral.
A iniciativa conecta questões ligadas à defesa planetária — a detecção e o rastreamento de objetos que poderiam se aproximar perigosamente da Terra — com o crescente interesse internacional pelos recursos espaciais e pelo conhecimento dos corpos metálicos do Sistema Solar.
O projeto contará com um mínimo de 45 horas de observação nos telescópios TTT e TST, instalações robóticas de última geração localizadas no Observatório do Teide (Tenerife) e operadas pela Light Bridges. Essas observações permitirão ampliar significativamente a amostra disponível e aprofundar as questões levantadas por este trabalho.
A Universidade de Oviedo já dispõe de acesso a tempo de observação nos telescópios TTT graças à colaboração com a Light Bridges e à doação prévia de horas de observação realizada pela empresa Vector Horizonte. Essa parceria público-privada permitirá ampliar o estudo dos asteróides do tipo M e continuar investigando as propriedades que distinguem essa população do restante dos corpos do cinturão principal.
“Os asteróides metálicos representam hoje um dos grandes enigmas da exploração espacial contemporânea. Compreender sua composição, estrutura e evolução não só é fundamental para reconstruir a história inicial dos planetas rochosos, mas também para avaliar o potencial futuro dos recursos minerais fora da Terra”, afirma Noemí Pinilla-Alonso, coautora do estudo e pesquisadora principal do projeto R2.
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