Publicado 27/07/2026 08:57

Descobrem na Cova Dones de Millares (Valência) cerca de 120 inscrições latinas do Império Romano

Archivo - Arquivo - Membros da equipe de pesquisa durante os trabalhos de documentação e análise
UA - Arquivo

ZARAGOZA/ALICANTE 27 jul. (EUROPA PRESS) -

A última campanha arqueológica realizada na Cova Dones, em Millares (Valência), pode posicioná-la como a caverna-santuário com o maior número de inscrições latinas conhecido tanto na Hispânia quanto em todo o Império Romano. Os trabalhos, realizados em maio e junho deste ano, permitiram documentar pelo menos 120 inscrições latinas. A maioria delas seria datada dos séculos I-II d.C., em comparação com as cerca de quinze conhecidas até agora.

As inscrições revelam o papel das mulheres na vida ritual do santuário. “Os resultados preliminares indicam que a Cova Dones era uma caverna-santuário frequentada por mulheres, já que entre as inscrições documentadas até o momento aparecem vários nomes femininos”, detalhou a equipe de pesquisa liderada por Aitor Ruiz-Redondo, do Instituto Universitário de Pesquisa em Ciências Ambientais de Aragão da Universidade de Saragoça (Unizar), e Virginia Barciela, do Instituto Universitário de Arqueologia e Patrimônio Histórico da Universidade de Alicante (UA).

As análises epigráficas realizadas nesta campanha pela especialista Silvia Alfayé, professora de História Antiga da Unizar, e por Sergio García-Dils, professor da UNED de Sevilha e diretor da Escola Espanhola de Espeleologia, fornecem informações sobre a presença feminina no santuário subterrâneo de Dones, explicou a UA em um comunicado.

“Graças a um conjunto de cinco inscrições votivas, sabemos com certeza que, na época romana, era venerada na caverna uma deusa a quem chamavam reverentemente de Domina, ‘a Senhora’, e que as mulheres tinham uma participação ativa em seu culto. Em três delas, pode-se ler ‘MALACI’, uma invocação inédita para se referir a uma deusa até então desconhecida. Essa deusa tinha uma invocação específica, talvez relacionada à água, cuja interpretação definitiva estamos trabalhando atualmente”, indica Alfayé.

Por enquanto, a equipe considera várias possibilidades sobre a interpretação precisa dessas invocações dedicadas à ‘domina’ de Dones. De qualquer forma, “a existência de pelo menos cinco inscrições dedicadas a essa mesma divindade demonstra que não se trata de visitas esporádicas com um propósito religioso genérico, mas sim de um culto específico a uma divindade concreta”.

“Além disso, o fato de os textos se concentrarem em uma área precisa e delimitada da caverna, distante da entrada, confirma que se trata de um culto organizado”, explicou o especialista García-Dils.

Por sua vez, Barciela observou: “Além disso, no santuário encontramos numerosas fusayolas, o que provavelmente indicaria a oferenda de fusos, um instrumento de trabalho têxtil que, na Antiguidade, era associado ao âmbito feminino. Esse fato se encaixaria com as evidências epigráficas que apontam para uma participação ativa das mulheres no santuário”.

“A esse respeito, vale refletir sobre o primeiro nome escrito que faz referência ao sítio: Cova de les Dones. É possível que se trate da fossilização de um topônimo que alude à presença de mulheres ou de entidades femininas no local”, esclarece a pesquisadora.

Esses textos estão localizados em uma sala específica da cavidade que os pesquisadores denominaram de “santuário romano”, a mais de 200 metros de profundidade e descoberta pela primeira vez em 2024. As inscrições encontram-se nas paredes e no teto da sala. O piso apresenta pequenas poças naturais (“gours”) que retêm a água das galerias subterrâneas, nas quais os visitantes do santuário depositavam oferendas materiais de diversos tipos.

OUTRAS DESCOBERTAS

Na campanha de 2026, a equipe também documentou na superfície alguns objetos, como dois anéis, uma pulseira, vasos em forma de cálice, fuselas, fragmentos cerâmicos, restos de fauna e outros materiais arqueológicos, que se somam à moeda romana encontrada em 2024.

“Essa associação ‘in situ’ de materiais arqueológicos e inscrições rupestres em um santuário subterrâneo romano é excepcional, e torna Dones um sítio arqueológico único para o estudo integral e interdisciplinar das dinâmicas rituais realizadas na caverna ao longo do tempo”, destaca Ruiz-Redondo.

SÍTIO ARQUEOLÓGICO

Desde o início do projeto DONARQ em 2023, financiado pela Generalitat Valenciana e pela British Academy, cada campanha arqueológica na Cova Dones revelou uma nova parte da história do sítio e incorporou progressivamente disciplinas, especialistas e estudantes provenientes de diferentes universidades.

Esse trabalho “colaborativo e multidisciplinar”, liderado pelo grupo ArchaeoSymbol, transformou essa cavidade “em um sítio em constante evolução, onde cada intervenção amplia a interpretação científica alcançada até o momento”, destacou a UA.

Em 2023, a publicação dos primeiros resultados na revista “Antiquity” confirmou que a caverna abrigava o maior conjunto de arte rupestre paleolítica do leste da Península Ibérica, com mais de uma centena de pinturas e gravuras com mais de 24.000 anos de idade, sendo um dos maiores conjuntos descobertos na Europa nas últimas décadas.

Da mesma forma, em 2024, a nova campanha ampliou essa visão, já que “o que até então era conhecido principalmente por seu extraordinário conjunto paleolítico revelou, além disso, a existência de um santuário romano situado a mais de 200 metros de profundidade, onde foram documentadas cerca de quinze inscrições latinas e uma moeda do imperador Cláudio depositada como oferenda”.

Em 2025, os trabalhos arqueológicos identificaram mais de uma centena de espeleofatos — formações estalagmíticas modificadas intencionalmente pela ação humana —, que evidenciaram a transformação planejada do ambiente subterrâneo por comunidades pré-históricas. Com essa descoberta, a Cova Dones passou a ser considerada o segundo sítio “mais importante do mundo” nessa categoria, ficando atrás apenas da caverna francesa de Saint-Marcel.

A campanha de 2026 volta agora a ampliar essa “dimensão excepcional”. “O que era conhecido como um santuário romano com cerca de quinze inscrições passou a contar com 120, posicionando-se como o conjunto de inscrições latinas mais numeroso conhecido em uma caverna-santuário de todo o Império Romano. O estudo conjunto dessas inscrições e dos materiais arqueológicos preservados permitirá reconstruir com maior precisão as práticas rituais realizadas nesse espaço ao longo dos séculos”, explicam os coordenadores do projeto.

E acrescentam que “cada nova descoberta aponta para que a Cova Dones tenha sido um local de referência para os grupos humanos que habitaram esse território durante milênios, talvez devido à presença permanente de água, às características da paisagem subterrânea ou ao seu fácil acesso”.

PRÓXIMAS CAMPANHAS E PROJETOS

Com boa parte da cavidade ainda pendente de estudo detalhado e numerosas inscrições ainda em processo de leitura, os trabalhos continuarão sendo desenvolvidos na Cova Dones durante as próximas campanhas.

Por outro lado, este ano serão concretizados os trabalhos de conservação e divulgação com a adaptação do acesso e da entrada da cavidade, a instalação de medidas de segurança, a criação de um gemelo digital e a catalogação do conjunto gráfico paleolítico.

O projeto é financiado pelo Pla Restaura da Secretaria de Educação, Cultura e Universidades para a conservação e proteção de bens imóveis do patrimônio cultural e conta com o cofinanciamento da Prefeitura de Millares.

Os trabalhos, coordenados pela Arquivolta Patrimoni i Societat, permitirão “não apenas ter um melhor conhecimento do sítio arqueológico, mas também constituir uma ferramenta de conservação digital e de divulgação do patrimônio, já que será possível realizar visitas virtuais ao local”, concluiu a UA.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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