ZARAGOZA 6 nov. (EUROPA PRESS) -
Um conjunto de minúsculos fósseis encontrados há quase três décadas na localidade de Arén, na província de Huesca, permitiu identificar uma nova espécie de anfíbio que habitou a Península Ibérica há aproximadamente 66 milhões de anos, pouco antes do impacto do asteróide que provocou a extinção dos dinossauros não aviários.
A nova espécie, denominada ‘Synorerpeton ribagorzana’, foi descrita por uma equipe internacional da qual faz parte o pesquisador do grupo Aragosaurus-IUCA da Universidade de Zaragoza, Miguel Moreno-Azanza; juntamente com especialistas da Universidade NOVA de Lisboa (Portugal), do Instituto Geológico e Mineiro da Espanha (IGME-CSIC) e do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (IPHES-CERCA).
O trabalho, publicado na revista científica *Cretaceous Research*, foi liderado por Alexandre R. D. Guillaume, da Universidade NOVA de Lisboa, sob a supervisão de Miguel Moreno-Azanza e Eduardo Puértolas-Pascual, e contou com a colaboração de Hugues-Alexandre Blain, do IPHES-CERCA.
UMA DESCOBERTA QUE ESPERAVA HÁ QUASE TRINTA ANOS
Os fósseis provêm do sítio arqueológico de Blasi, localizado próximo a Arén, na região de Ribagorza, na província de Huesca. Eles foram recuperados durante uma campanha paleontológica realizada em 1997 e compreendem mais de 80 restos ósseos, entre os quais fragmentos cranianos, vértebras e outros elementos do esqueleto.
Parte desse material já havia sido estudada anteriormente, mas até agora não havia evidências suficientes para identificá-lo como uma espécie diferente das já conhecidas.
A análise dos fósseis conservados no Museu de Ciências Naturais da Universidade de Saragoça foi decisiva. “A ideia original era que Alex revisasse o material no Museu de Ciências Naturais da Universidade de Saragoça, já que sabíamos que havia espécimes ainda não descritos e não identificados”, explicou o pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisa em Ciências Ambientais de Aragão (IUCA) da Universidade de Saragoça, Miguel Moreno-Azanza.
“Ele já estava trabalhando com fósseis semelhantes do Jurássico Superior de Portugal, então era o melhor candidato para encontrar algo novo”, acrescentou.
UM PEQUENO ANFÍBIO COM CARACTERÍSTICAS SURPREENDENTES
O ‘Synorerpeton ribagorzana’ pertence aos ‘albanerpetontídeos’, um grupo de anfíbios extintos que, embora se assemelhassem a pequenas salamandras em sua aparência, apresentavam características anatômicas muito particulares.
Esses animais, com menos de cinco centímetros de comprimento, tinham pele seca e escamosa, garras queratinosas, pálpebras e um sistema de captura de presas por meio de uma língua que se projetava rapidamente, semelhante ao dos camaleões atuais. Eles fizeram parte dos ecossistemas terrestres durante boa parte do Mesozóico — período que se estende de aproximadamente 245 a cerca de 65 milhões de anos atrás —, mas seu tamanho reduzido e a fragilidade de seus ossos dificultaram seu estudo.
A nova pesquisa permitiu identificar características do crânio e das vértebras cervicais que fornecem informações sobre a evolução desse grupo. Os resultados sugerem que os “albanerpetontídeos” passaram por importantes mudanças anatômicas ao longo do tempo.
“Ainda não temos certeza das razões, mas isso se traduziria em uma mudança ecológica entre as espécies do Jurássico e do Cretáceo Inferior, que eram mais esguias e tinham um crânio alongado, e as espécies do Cretáceo Superior e do Cenozóico, que eram mais robustas e possuíam um crânio volumoso”, explicou Alexandre R. D. Guillaume.
O nome da nova espécie também constitui uma homenagem ao território em que foi descoberta. “Synorerpeton” provém do grego antigo e pode ser traduzido como “o animal que rasteja na fronteira”, em referência tanto à sua proximidade com o limite geológico entre o Cretáceo e o Paleógeno quanto à localização do sítio arqueológico, próximo à fronteira entre Aragão e Catalunha.
Por sua vez, o epíteto “ribagorzana” reconhece a região da Ribagorza e o rio Noguera Ribagorzana, que delimita parte da fronteira entre ambas as comunidades autônomas.
A RIBAGORZA, UMA JANELA PARA O FIM DA ERA DOS DINOSSAUROS
O sítio arqueológico de Blasi apresenta especial interesse científico devido à sua antiguidade e localização. Os sedimentos que contêm os fósseis foram depositados aproximadamente meio milhão de anos antes do impacto do asteróide que marcou o fim do Cretáceo, há cerca de 66 milhões de anos, o que permite estudar os ecossistemas que existiam na Europa imediatamente antes de uma das maiores extinções em massa da história da Terra.
“Esta área tem sido muito produtiva na descoberta de fósseis de vertebrados, com duas novas espécies de dinossauros e duas de crocodilos descritas nos últimos anos. Mas o que a torna tão interessante é que ela se encontra logo abaixo do limite Cretáceo/Paleógeno, que marca a grande extinção em massa causada pelo impacto do meteorito”, destacou o pesquisador do IGME-CSIC, Eduardo Puértolas-Pascual.
Além de descrever uma nova espécie, a equipe de pesquisa encontrou indícios de que duas linhagens diferentes de ‘albanerpetontídeos’ podem ter coexistido na Europa durante o final do Cretáceo.
Os resultados apontam para possíveis conexões entre as populações da Europa Ocidental e da América do Norte, enquanto as da Europa Oriental poderiam ter mantido laços com a Ásia ou com populações europeias mais antigas, abrindo assim novas linhas de pesquisa sobre a evolução, dispersão e distribuição geográfica dos pequenos vertebrados que habitaram o planeta durante a era dos dinossauros.
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