MADRID, 30 jul. (EUROPA PRESS) -
Pesquisadores descobriram um fragmento de crânio com mais de 200.000 anos de idade no sítio arqueológico de Ruidera (Ciudad Real), uma descoberta que o torna um local paleoantropológico promissor para a investigação da evolução humana durante o Pleistoceno Médio (entre 126.000 e 780.000 anos atrás).
O fóssil, denominado RVH-1, corresponde a um fragmento de osso parietal com características arcaicas diferentes dos restos datados do mesmo período.
Segundo o pesquisador da UCM, Daniel García Martínez: “Essa descoberta fornece informações sobre as populações que habitaram o interior da Península Ibérica nesse período e coloca Ruidera em uma posição privilegiada no mapa europeu para o estudo da evolução humana durante o Pleistoceno Médio”.
A descoberta, publicada na revista “Journal of Human Evolution”, é um trabalho liderado por pesquisadores da Universidade Complutense de Madri (UCM) e do Museu Nacional de Ciências Naturais (MNCN-CSIC), no qual participaram o Centro Nacional de Pesquisa sobre a Evolução Humana (CENIEH), o Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (IPHES-CERCA), a Universidade Autônoma de Madri (UAM), o grupo PATRICIA da Universidade de Córdoba e outras instituições nacionais e internacionais.
O RVH-1 é o primeiro vestígio craniano proveniente desse sítio arqueológico e foi descoberto durante a primeira das escavações arqueológicas do projeto “Primeiros Povoadores do Alto Guadiana” (PPAG), que visa reconstruir a história biológica, cultural e ambiental das populações humanas que ocuparam a bacia alta do Guadiana durante o Pleistoceno.
Determinar a idade do fóssil foi um dos principais desafios do estudo. Para isso, a equipe aplicou, com a colaboração científica de especialistas do CENIEH, uma estratégia de datação que combinou técnicas de séries de urânio e luminescência opticamente estimulada (OSL), analisando tanto o próprio fóssil quanto os sedimentos em que ele foi encontrado. Os resultados indicam que o RVH-1 tem pelo menos 200 mil anos, o que o situa em um momento decisivo da evolução humana na Europa.
A análise anatômica mostra que o osso parietal de Ruidera apresenta uma combinação de traços pouco comum entre os fósseis europeus dessa época. Sua morfologia e espessura são especialmente interessantes, pois conservam características consideradas arcaicas, também denominadas plesiomórficas.
“Trata-se de uma estrutura craniana espessa, semelhante às morfologias associadas a outros crânios também considerados arcaicos, como o de Ceprano, na Itália, ou o de Caune de l’Arago, nos Pirineus franceses”, explica García-Martínez.
Essa singularidade mostra que, naquela época, ainda existiam na Península Ibérica populações de hominídeos (o grupo de primatas ao qual pertencem os humanos atuais e seus parentes fósseis mais próximos) com características pouco esperadas, herdadas de linhagens ancestrais até há relativamente poucas centenas de milhares de anos.
“Essa descoberta reforça a ideia de que a evolução humana na Europa não foi um processo linear, mas um cenário complexo no qual coexistiram diferentes populações com histórias evolutivas distintas”, destaca o pesquisador do MNCN Carlos Palancar.
A descoberta tem valor especial devido à escassez de fósseis humanos do Pleistoceno Médio provenientes do interior da Península Ibérica, uma região tradicionalmente pouco representada no registro paleoantropológico. “Essa descoberta demonstra que Ruidera tem um enorme potencial para nos ajudar a compreender quem eram e como evoluíram as populações humanas que habitaram o sul da Europa há centenas de milhares de anos”, explica García-Martínez.
Embora o sítio tenha sido localizado há mais de uma década, as escavações sistemáticas começaram em 2023. Até o momento, foram recuperados fósseis de animais, uma abundante indústria lítica e numerosos restos humanos, o que pode transformar Ruidera em um sítio arqueológico capaz de mudar nossa maneira de entender a evolução humana na Península Ibérica.
“Este fóssil é apenas a ponta do iceberg. Ruidera ainda tem muito a revelar sobre a evolução humana na Europa e estamos convencidos de que continuará a proporcionar descobertas de grande relevância científica”, conclui Sara Díaz Pérez, da Universidade de Wroclaw (Polônia).
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