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MADRID 7 ago. (EUROPA PRESS) -
Uma pesquisa liderada pelo Hospital de Sant Pau (Barcelona) identificou uma alteração fundamental no transporte de colesterol para o cérebro e sua absorção pelos neurônios em pacientes com doença de Alzheimer e a presença do gene APOE4, uma descoberta que poderia ajudar a explicar a origem da doença.
Os resultados do estudo, publicados no Journal of Lipid Research, sugerem que as lipoproteínas no líquido cefalorraquidiano de pacientes com essa doença neurodegenerativa têm uma capacidade reduzida de fornecer colesterol aos neurônios, e que esse defeito pode estar ligado à presença da variante genética APOE4, um dos principais fatores de risco conhecidos para o desenvolvimento da doença.
"Sabemos há algum tempo que as pessoas com a variante APOE4, especialmente na forma homozigótica, têm um risco muito alto de desenvolver Alzheimer, mas até agora não se entendia bem por quê. Nosso estudo sugere que um dos fatores que podem contribuir para isso é que os neurônios, na presença dessa variante, têm uma absorção pior do colesterol que chega até eles por meio do líquido cefalorraquidiano", explica Mireia Tondo, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Sant Pau.
O PAPEL "VITAL" DO COLESTEROL
O colesterol desempenha um papel vital no funcionamento correto dos neurônios, intervindo na formação de membranas, na transmissão sináptica e na produção de mielina. No entanto, o cérebro não recebe essa molécula do sangue, como acontece em outros órgãos, pois a barreira hematoencefálica impede que isso aconteça.
"Todo o colesterol necessário é produzido localmente", explica o Dr. Tondo, que explica que ele é então "armazenado em partículas específicas de lipoproteína que o transportam das células gliais para os neurônios" e, se esse processo falhar, "o neurônio pode não receber os recursos estruturais e funcionais de que necessita".
Os pesquisadores analisaram amostras do líquido cefalorraquidiano de 10 pacientes com Alzheimer e 10 pessoas sem a doença da coorte da Sant Pau Initiative on Neurodegeneration (SPIN). A partir delas, eles avaliaram dois estágios do transporte de lipídios no cérebro: por um lado, a capacidade dos astrócitos de transferir colesterol para o líquido cefalorraquidiano e, por outro, a capacidade dos neurônios de absorver esse colesterol.
Os resultados mostraram que a liberação de astrócitos era semelhante em todos os participantes, mas que a captação neuronal estava claramente comprometida nos pacientes com Alzheimer.
Diante desse resultado, a equipe queria entender se esse defeito poderia estar relacionado geneticamente, então criaram nanopartículas de lipoproteínas recombinantes, idênticas entre si, mas com APOE3 ou APOE4, e descobriram que as que continham APOE4 transferiam o colesterol com muito menos eficiência. "Isso nos levou a acreditar que essa variante poderia desempenhar um papel direto na disfunção observada", diz Tondo.
Além disso, a equipe de pesquisa realizou uma análise proteômica detalhada das lipoproteínas do fluido cerebrospinal. Eles identificaram 239 proteínas associadas a essas partículas, 27 das quais estavam alteradas em pacientes com Alzheimer, mas nenhuma dessas diferenças afetou diretamente as proteínas relacionadas ao metabolismo do colesterol.
"Essa descoberta indica que o sistema de lipoproteínas é muito mais complexo do que pensávamos, e que pode haver outros mecanismos relacionados à inflamação, adesão celular ou degradação de proteínas que também podem influenciar a progressão da doença", acrescentou o pesquisador.
NOVA LINHA DE PESQUISA
Em conclusão, os pesquisadores destacaram a importância da descoberta sobre a alteração no sistema de captação de colesterol pelos neurônios, pois ela abre uma linha de pesquisa relacionada ao metabolismo lipídico do cérebro. No entanto, eles insistem que os resultados devem ser analisados com cautela.
"Esse estudo não nos permite dizer que a deficiência de colesterol é a causa direta da doença, mas pode ser um dos fatores que contribuem para o dano neuronal", diz o Dr. Tondo.
O grupo já está trabalhando em um novo estudo para verificar se esse mecanismo de captação de colesterol neuronal também está alterado em pessoas com síndrome de Down, um grupo com risco genético de desenvolver a doença de Alzheimer. "Isso poderia nos ajudar a entender se há mecanismos comuns e se a melhoria do metabolismo lipídico poderia ser uma forma de retardar a neurodegeneração", concluiu o especialista.
A pesquisa foi possível graças à colaboração entre o grupo de metabolismo lipídico e a Unidade de Memória de Sant Pau, bem como à participação de pesquisadores da área de Doenças Neurodegenerativas do Centro de Rede de Pesquisa Bionômica (CIBERNED), do Centro Nacional de Pesquisa Cardiovascular (CNIC), da área de Doenças Cardiovasculares do CIBER (CIBERCV) e do Instituto Catalão de Nanociência e Nanotecnologia (ICN2).
Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático