LEST (ESLOVÁQUIA), 14 (do correspondente especial da EUROPA PRESS, Iván Zambrano)
A guerra na Ucrânia acelerou uma mudança de paradigma nos conflitos armados ao demonstrar que, com drones ou veículos robotizados, é possível alterar o equilíbrio no campo de batalha com investimentos muito menores, uma tendência que os responsáveis por empresas espanholas do setor de defesa descreveram como a “democratização” da guerra.
No âmbito de uma iniciativa impulsionada pela OTAN para acelerar a incorporação de novas capacidades às suas Forças Armadas, a Aliança lançou, em colaboração com a Espanha e a indústria nacional de defesa, o exercício “Task Force X Pilot 5”, um teste destinado a integrar tecnologia de ponta nos países aliados.
No centro de treinamento militar de Lest, na Eslováquia, a apenas 300 quilômetros da fronteira com a Ucrânia, soldados espanhóis testaram esta semana o uso de drones kamikaze, veículos não tripulados e sistemas de guerra eletrônica com o objetivo de reduzir os prazos de aquisição e implantar novas capacidades operacionais em um prazo máximo de 24 meses.
Mas, além da sofisticação tecnológica, os responsáveis de várias das empresas espanholas participantes concordaram que a verdadeira mudança reside no custo e na acessibilidade dessas ferramentas, capazes de oferecer resultados até pouco tempo atrás reservados a grandes plataformas militares e que já levaram alguns a falar de uma “democratização” dos conflitos.
“Os drones mudaram tudo o que tem a ver com a guerra. Eles vieram para democratizar a guerra”, afirmou Iván Sal, cofundador do Asedios Group, empresa que desenvolveu o ‘Sakul 630’, um drone kamikaze que pode atingir até 180 quilômetros por hora em queda e que pode ser produzido em massa a um custo reduzido.
Especificamente, sua aeronave — que é do mesmo tipo que o Irã usa em sua guerra contra os Estados Unidos, explicou Sal — é capaz de destruir veículos blindados e está à venda por 50.000 euros. Levando em conta que uma única unidade de um míssil Patriot custa pelo menos quatro milhões de euros, a redução no preço é considerável.
Na sua opinião, isso demonstra que “com menos dinheiro é possível ter mais recursos e ser mais eficiente”, já que, para neutralizar uma área, bastaria lançar dez de seus drones kamikaze a um preço de meio milhão de euros. “A guerra vai mudar: antes os carros de combate eram os reis, agora são os drones em suas diferentes variantes”, concluiu.
TIRAR O SOLDADO DO CAMPO DE BATALHA
Mas a redução do custo das capacidades militares não é a única mudança que a indústria antecipa, já que outra das tendências que marcarão os conflitos do futuro passa pela redução da exposição direta dos soldados por meio do uso de plataformas autônomas capazes de assumir tarefas de alto risco.
"O objetivo é tirar o soldado do campo de batalha e fazer com que não sejam pessoas a se enfrentarem diretamente", destacou Álvaro Carrasco, responsável por soluções de defesa da Alysis Robotics, que projetou o 'Adriano', um robô terrestre 4x4 totalmente militarizado capaz de transportar logística tática, realizar reconhecimentos e vigilância ou retirar pessoas do campo de batalha.
“O robô não dorme, não come, não sente frio, não tira férias”, continuou ele em sua explicação, para em seguida alertar que a China está na vanguarda em termos de tecnologias disruptivas e que em Pequim já contam com robôs quadrúpedes capazes de portar armas e entrar em espaços projetados para humanos, como escadas ou edifícios.
Nesse sentido, a guerra na Ucrânia está servindo como campo de testes para adaptar esse tipo de tecnologia às necessidades reais do combate. É o que afirmam os responsáveis da Aunav, a divisão de sistemas robóticos autônomos do grupo espanhol Escribano, cujos veículos terrestres não tripulados podem ser utilizados para desativar explosivos e até mesmo dar apoio em uma missão de ataque.
A empresa ressaltou, no entanto, que, embora alguns desses sistemas sejam capazes de se deslocar de forma autônoma e desviar de obstáculos no terreno, as decisões letais continuam dependendo de um operador humano, que pode estar a vários quilômetros da linha de frente. “A metralhadora não dispara de forma autônoma”, esclareceram.
Fontes militares explicaram que todos esses sistemas não buscam substituir completamente os militares, mas assumir as tarefas mais perigosas. “A máquina pode substituir o ser humano, mas nunca cem por cento; sempre tem que haver alguém para operá-la”, afirmaram, ao mesmo tempo em que consideraram que uma autonomia total baseada em Inteligência Artificial ainda está “muito longe”.
O OUTRO LADO: COMO SE DEFENDER DOS DRONES
O boom dos drones também obrigou ao desenvolvimento de ferramentas capazes de detectá-los e neutralizá-los antes que alcancem seus objetivos. De fato, em um cenário marcado pela proliferação de ameaças de baixo custo, a capacidade de identificar e compartilhar informações em tempo real tornou-se uma prioridade para os exércitos da OTAN.
Para detectar drones, a empresa ART desenvolveu um radar capaz de distingui-los em um alcance de até 90 quilômetros, enquanto a empresa Adrevex conta com um sistema “C-UAS” que detecta e neutraliza drones não autorizados.
Seus sistemas podem detectar drones a dezenas de quilômetros de distância e decidir se representam uma ameaça para, nesse caso, interferir em suas comunicações, imobilizá-los ou até mesmo “cegá-los” para impedir que completem sua missão.
Para passar ao ataque, a Indra desenvolveu um veículo blindado, o “C-UAD ARANCE mobile system”, capaz de lançar ataques com seu canhão a até 700 metros; enquanto a Armmo, com seus drones Bandit-X, pode interceptar outros drones ao atingir uma velocidade de 350 quilômetros por hora.
Nesta área atua também a espanhola Amper, que desenvolve sistemas para integrar as informações provenientes de diferentes sensores e distribuí-las de forma gráfica entre as unidades do Exército destacadas no terreno, facilitando uma resposta coordenada quando forem detectadas ameaças aéreas.
Tudo isso requer um sistema de telecomunicações que funcione de forma independente de infraestruturas civis ou nuvens comerciais, solução oferecida pela Atika Technologies com uma rede tática 5 portátil, que permite a transmissão de dados com latência muito baixa.
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