Publicado 02/04/2026 03:31

A decisão de Kast de suspender a expropriação da Colônia da Dignidade acende um sinal de alerta para os direitos humanos no Chile

O governo de extrema direita defende a medida devido ao custo exorbitante do projeto e às dívidas acumuladas

Archivo - Arquivo - Chegada da Colônia da Dignidade na década de 1980
MARCELO HERNANDEZ/DPA - Arquivo

MADRID, 2 abr. (EUROPA PRESS) -

Várias organizações não governamentais no Chile temem que a decisão do novo governo liderado pelo ultradireitista José Antonio Kast de suspender a expropriação da Colônia Dignidade, um enclave fundado por um ex-suboficial nazista que serviu como centro de detenção, tortura e desaparecimento durante a ditadura de Augusto Pinochet, represente um retrocesso em matéria de direitos humanos.

A Associação pela Memória e Direitos Humanos Colônia Dignidade afirmou que não se trata de um “ajuste administrativo” nem de uma “reconsideração técnica”, mas de “um ato político regressivo que viola obrigações e compromissos fundamentais em matéria de memória, verdade, justiça, reparação e garantias de não repetição”.

“O argumento econômico utilizado pelo governo é inaceitável. Não existe uma base pública transparente que permita sustentar os números que foram sugeridos. Invocar o custo, sem transparência nem rigor técnico, não passa de uma desculpa para encobrir uma decisão política já tomada”, precisou.

A ONG argumentou que está em jogo “a credibilidade do Estado perante as vítimas, a sociedade e a comunidade internacional”, referindo que isso representa um “sinal claro” de que o governo “está disposto a recuar nas políticas de direitos humanos, inclusive nos casos em que há reconhecimento oficial de crimes contra a humanidade e processos judiciais ainda em andamento”.

Na mesma linha, se expressou Mariela Santana, advogada da Corporação de Promoção e Defesa dos Direitos do Povo (CODEPU) e representante de familiares de detidos desaparecidos na Colônia Dignidade durante a ditadura, que apontou que se trata de “um grave retrocesso em matéria de Direitos Humanos”.

Por sua vez, o Instituto Nacional de Direitos Humanos do Chile alertou que a decisão do Executivo “enfraquece uma das medidas mais significativas para salvaguardar provas, assegurar sua preservação e garantir o acesso público a um local de memória de alto valor histórico e judicial”.

“Os crimes contra a humanidade cometidos pelo Estado impõem obrigações ineludíveis em matéria de verdade, justiça, reparação e garantias de não repetição, dirigidas tanto às vítimas quanto ao conjunto da sociedade”, argumentou.

CUSTO EXORBITANTE E DISCORDÂNCIAS SOBRE A LEI

O ministro da Habitação, Iván Poduje, defendeu que a decisão de suspender a desapropriação de 117 hectares da Colônia Dignidade, para construir um memorial em homenagem às vítimas da colônia, responde a orçamentos sobrecarregados com “dívida acumulada” em decorrência de uma série de projetos “faraônicos” impulsionados pelo governo anterior de Gabriel Boric.

“Não vou deixar de construir moradias para expropriar uma localidade inteira a um custo exorbitante quando, com esses mesmos recursos, posso construir 600 ou 700 moradias”, afirmou Poduje em entrevista ao jornal ‘La Tercera’, estimando o custo do processo de expropriação da comunidade agrícola alemã em 47 milhões de pesos, um valor que as ONGs afirmam desconhecer.

Poduje também negou que a medida responda a uma questão ideológica. “Zero ideologia. É puro critério de prioridade social”, detalhou, reiterando que, com esse dinheiro, o governo poderia “consertar 1.500 moradias que estão em mau estado ou melhorar quadras abandonadas onde as crianças não podem brincar”.

Além do custo exorbitante da operação e das dívidas acumuladas pelo Ministério, Poduje argumentou que as expropriações se restringem exclusivamente a moradias, equipamentos comunitários, infraestrutura e reformas, nos termos do artigo 51 da Lei 16.391, pelo que defendeu não ter competência para levá-la adiante.

Em entrevista à Associação de Emissoras do Chile, Kast sinalizou que há “um problema de ajuste fiscal significativo”, embora “isso não signifique que tenhamos de ignorar o sofrimento que muitas pessoas possam ter passado no Chile”.

Ao apresentar a medida em março de 2025, o governo de Boric enquadrou o projeto no Decreto-Lei 2.186, que determina que um procedimento de expropriação pode ser realizado “por motivos de utilidade pública ou de interesse social ou nacional”.

A Colônia Dignidade possui um status especial por ter sido declarada Monumento Nacional em 2016, durante o mandato da ex-presidente socialista Michelle Bachelet, impondo-se assim restrições e obrigações específicas ao seu proprietário por se tratar de um “bem de interesse público”.

COLÔNIA DIGNIDADE, MAIS DE UMA DÉCADA DE ABUSOS

A Sociedade Beneficente e Educacional Colônia Dignidade foi criada por decreto em setembro de 1961 com o objetivo de “prestar ajuda à infância”, especialmente a menores “órfãos, vagabundos e desamparados”. A organização, liderada pelo ex-militar nazista Paul Schäfer, contava com importantes subsídios estatais.

Schäfer, que fugiu da Alemanha acusado de cometer abusos sexuais contra crianças em um orfanato em Siegburg, instalou-se na comuna de Parral, a cerca de 380 quilômetros ao sul de Santiago, e trouxe da Alemanha um grupo composto por menores que foram sequestrados sem o conhecimento de seus pais e alguns adultos que se mudaram para o Chile por convicções religiosas, grande parte deles com ligações com a Alemanha nazista.

De acordo com um relatório do Arquivo Nacional do Chile, Schafer liderava uma comunidade agrícola na região do Maule, com traços autoritários e isolada da sociedade chilena. A seita, organizada hierarquicamente, estabelecia uma divisão rigorosa por sexos, incluindo também pais e filhos.

Os altos comandos da comunidade exerciam vigilância constante e impunham punições — como tratamentos com psicofármacos e eletrochoques administrados no Hospital da Colônia — àqueles que se desviassem da disciplina imposta por Schafer, que abusou sexualmente e violou dezenas de crianças e jovens durante décadas. Seus membros, que viviam sob um regime de recompensa e punição, trabalhavam em condições de escravidão, sem renda própria.

Com a chegada de Salvador Allende ao poder em 1970, tanto Schafer quanto seus partidários começaram a se associar à organização paramilitar de extrema direita Patria y Libertad, participando de atos violentos contra o governo progressista chileno e chegando a colaborar até mesmo com os preparativos para o golpe de Estado em 1973.

O assentamento tornou-se posteriormente um local-chave da repressão levada a cabo pelo regime de Pinochet entre 1973 e 1978. O armazém onde eram guardadas as batatas na Colônia Dignidade foi utilizado pela Direção de Inteligência Nacional (DINA) para aplicar técnicas de tortura semelhantes às empregadas na Alemanha nazista contra presos políticos chilenos.

Após a ditadura, o governo de Patricio Aylwin tentou encerrar a colônia — onde foram descobertas valas comuns e um importante arsenal de armas — por decreto em 1991, classificando a comunidade agrícola como um “Estado dentro do Estado”.

Schafer, conhecido como “O Professor”, foi acusado em 1996 de abusos sexuais contra mais de uma dezena de crianças na Colônia Dignidad e conseguiu fugir para a Argentina, embora tenha sido preso em 2005 e condenado a 30 anos de prisão posteriormente por estupro, tortura, assassinato e posse ilegal de armas. Ele morreu atrás das grades em 2010.

No assentamento, hoje conhecido como Villa Baviera, vivem cerca de 300 pessoas, muitas das quais se manifestaram contra o processo de desapropriação impulsionado por Boric. Nesse local convivem colonos alemães — muitos deles ex-vítimas de Schafer — e alguns turistas desde que o local se transformou em um resort que conta com um restaurante, um hotel e um lago imponente.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

Contador

Contenido patrocinado