MADRID 14 ago. (Portaltic/EP) -
Os óculos inteligentes pretendem substituir o “smartphone” como um dos principais dispositivos de uso pessoal, no entanto, sua capacidade de captar e interpretar tudo o que ocorre ao seu redor também abre as portas para novos riscos à privacidade e à segurança cibernética, desde a gravação inadvertida de pessoas até a exposição de senhas, dados bancários e informações pessoais.
Esses dispositivos inteligentes pretendem se tornar um “gadget” essencial no dia a dia das pessoas. Ou seja, uma ferramenta acessível para realizar todo tipo de atividade, desde visualizar conteúdo em plataformas da internet até se comunicar com outras pessoas por mensagens ou chamadas, tirar fotos, jogar ou captar informações do ambiente.
Na verdade, os óculos pretendem ir além da tela sensível ao toque do “smartphone”, já que buscam integrar as informações diretamente no campo de visão e permitem uma interação mais natural por meio de voz, gestos ou controles físicos.
Isso já foi demonstrado por óculos inteligentes como os Ray-Ban Meta e suas diversas versões, os novos óculos inteligentes do Google desenvolvidos em parceria com a Samsung e a Qualcomm sob a plataforma Android XR, ou os Specs da Snap.
Esses óculos representam diversos avanços tecnológicos, com designs discretos que se assemelham aos óculos comuns, apesar de integrarem câmeras, alto-falantes e baterias e, acima de tudo, novas tecnologias como a inteligência artificial (IA), que torna a interação com o “wearable” muito mais natural e eficiente.
CIBERSEGURANÇA: NÃO SÓ GRAVAM, MAS TAMBÉM INTERPRETAM O QUE VÊEM
Diante desse cenário, independentemente das muitas possibilidades que oferecem, é preciso levar em conta os importantes riscos de segurança que representam para os usuários, antes que esses dispositivos se tornem comuns em espaços públicos, como escritórios, lojas ou ambientes de lazer.
Por exemplo, ao integrarem câmeras e microfones, os óculos inteligentes podem se tornar dispositivos de videovigilância, conforme alertaram os especialistas da empresa de segurança cibernética ESET.
Essa prática não é nova; no entanto, a diferença é que, com os óculos inteligentes, ela é transferida para o usuário, tornando-a móvel e integrada a um dispositivo difícil de distinguir de um par de óculos comum.
Isso ocorre mesmo quando alguns modelos incorporam uma luz LED para indicar que estão gravando, já que esse sinal pode passar despercebido, ser difícil de interpretar ou, até mesmo, ficar coberto ou alterado. No caso da Meta, a empresa teve que lançar uma atualização obrigatória de privacidade para seus óculos inteligentes, que desativa a câmera quando alguém manipula ou quebra o “LED” de captura, para evitar que gravem secretamente.
O problema se agrava quando a gravação dos óculos é combinada com a IA, já que essa tecnologia é capaz de interpretar o que está sendo visto. Essa prática já havia sido alertada em 2024 por pesquisadores de Harvard, que realizaram um projeto no qual demonstraram como a gravação de óculos inteligentes, com tecnologia de reconhecimento facial, pode revelar a identidade de pessoas em vias públicas em tempo real.
Portanto, coloca-se em discussão como um acessório tecnológico com essas características “pode se tornar uma ferramenta portátil de vigilância, com possíveis usos abusivos por parte de assediadores, golpistas ou cibercriminosos”, conforme esclareceu a ESET.
FUNCIONALIDADES CONTROVERSAS DAS GRANDES EMPRESAS DE TECNOLOGIA
Já não se trata apenas do comportamento dos usuários com o dispositivo em questão, mas, muitas vezes, do papel das grandes plataformas em relação à segurança. No caso da Meta, já foram várias as decisões controversas que a empresa enfrentou em relação à falta de segurança apresentada por seus óculos Ray-Ban Meta.
Um exemplo disso é a tecnologia de reconhecimento facial “Name Tag”, um recurso que a empresa estava considerando introduzir em seus óculos para identificar pessoas e fornecer informações sobre elas por meio do assistente Meta AI, mas que teve de ser retirado após se constatar que havia sido implementado sem aviso prévio.
Outra investigação também revelou problemas de privacidade, nos quais revisores humanos da Meta acessaram vídeos pessoais de usuários que utilizavam os óculos da Meta, nos quais apareciam nus ou no banheiro.
PRINCIPAIS RISCOS: ROUBO DE PIN BANCÁRIO E SENHAS
Levando tudo isso em consideração, especialistas da ESET alertaram que esses dispositivos podem representar riscos tanto para quem os utiliza quanto para quem está por perto.
Entre os principais riscos, eles apontaram questões como a captura acidental ou deliberada de PINs bancários ao digitá-los em caixas eletrônicos ou terminais de pagamento com os óculos colocados, já que eles podem estar gravando, mesmo que o proprietário não saiba.
O mesmo ocorre com senhas de qualquer serviço, extratos bancários, faturas, documentos pessoais ou informações corporativas visíveis em uma tela ou sobre uma mesa, onde podem ficar expostas aos óculos e à sua conexão com a internet.
A ESET também alertou sobre técnicas como o “shoulder surfing” (espiar por cima do ombro), que é usada para observar secretamente credenciais ou dados confidenciais em espaços públicos, olhando discretamente para a tela de outra pessoa e gravando os dados com câmeras.
Mais relacionado ao áudio, a empresa de segurança cibernética também alertou para o risco de que gravações, transcrições ou interações acabem armazenadas na nuvem, revisadas por terceiros ou utilizadas para aprimorar modelos de IA, de acordo com as políticas de cada provedor.
Da mesma forma, é possível que as informações capturadas sejam utilizadas para campanhas de “phishing”, sequestro de contas, suplantação de identidade ou criação fraudulenta de novos perfis falsos.
Conforme esclareceu o diretor de pesquisa e conscientização da ESET Espanha, Josep Albors, a esse respeito: “a ameaça não depende apenas de o usuário dos óculos agir de má-fé. Como qualquer dispositivo conectado, os óculos inteligentes também podem ser atacados”.
Isso se deve ao fato de que os cibercriminosos poderiam explorar vulnerabilidades no sistema operacional dos óculos inteligentes ou em seu “firmware” para acessar e controlar o dispositivo. Mas não é só isso: eles também podem comprometer aplicativos associados, interceptar o tráfego por meio de redes Wi-Fi maliciosas, distribuir códigos QR maliciosos ou criar aplicativos fraudulentos que imitem os oficiais.
“Se o ataque for bem-sucedido, o dispositivo pode se tornar um meio para o roubo de dados, vigilância não autorizada ou acesso a contas vinculadas”, afirmou Albors.
COMO REDUZIR ESSES RISCOS
Apesar de todos esses riscos, para a ESET, o objetivo não é frear a inovação, mas evitar que a adoção de uma tecnologia cada vez mais discreta e conectada “avance mais rápido do que a proteção da privacidade e da identidade digital”.
Por isso, a empresa recomenda manter sempre atualizados o firmware, o sistema operacional e os aplicativos associados, bem como baixar apenas aplicativos complementares de fontes oficiais e verificar as permissões solicitadas.
A ESET também aconselha evitar redes Wi-Fi públicas, a menos que se utilize uma VPN, bem como verificar as configurações de privacidade e desativar, sempre que possível, o uso de gravações para treinamento de IA ou revisão humana.
Por fim, os especialistas enfatizaram a importância de guardar os óculos em um estojo quando não estiverem em uso para reduzir capturas acidentais, além de excluir gravações desnecessárias e, acima de tudo, ter o máximo de cuidado ao digitar PINs, senhas ou dados pessoais se houver pessoas com óculos inteligentes por perto.
Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático