ELENA NECHAEVA/ ISTOCK - Arquivo
MADRID 6 jul. (EUROPA PRESS) -
A Fundação CRIS Contra o Câncer financiou uma nova pesquisa contra o câncer de ovário baseada no uso de ADCs — anticorpos conjugados a fármacos —, uma tecnologia que permite direcionar os tratamentos de forma seletiva às células tumorais, reduzindo os danos às células saudáveis.
Especificamente, trata-se de uma pesquisa liderada pelo Dr. Atanasio Pandiella no Centro de Pesquisa do Câncer (CSIC, USAL, FICUS), cujo grupo faz parte do consórcio CIBERONC e do Instituto de Saúde IBSAL.
A fundação lembra que o câncer de ovário é um dos tumores mais agressivos e complexos de tratar. Em muitos casos, ele é detectado tardiamente, quando a doença já se espalhou pela cavidade abdominal, o que dificulta muito o tratamento. De acordo com dados do GLOBOCAN e da Sociedade Espanhola de Oncologia Médica (SEOM), a cada ano são diagnosticados mais de 300.000 novos casos no mundo e cerca de 4.000 na Espanha. Além disso, na Espanha, esse tumor causa cerca de 2.000 mortes por ano.
Embora a cirurgia e a quimioterapia consigam respostas iniciais, cerca de 70% das pacientes apresentam recidiva nos primeiros anos e desenvolvem resistência ao tratamento. Apesar de avanços recentes, como certos medicamentos direcionados contra pontos fracos dos tumores — como os inibidores de PARP ou as terapias antiangiogênicas —, os especialistas apontam que as opções terapêuticas continuam sendo escassas.
Segundo a CRIS Contra o Câncer, a pesquisa liderada por Pandiella parte de uma ideia simples, mas “muito eficaz”: se uma molécula estiver presente em quantidades elevadas nas células tumorais e não tanto nas saudáveis, ela pode servir como uma espécie de “porta de entrada” para “direcionar” o tratamento diretamente ao câncer.
É exatamente isso que os ADCs fazem. Essas terapias combinam três elementos: um anticorpo que reconhece uma molécula da célula tumoral, um medicamento muito potente e uma ligação química que controla quando esse medicamento é liberado. Assim que o anticorpo se liga ao tumor, o complexo anticorpo-fármaco entra na célula, e esta possui mecanismos que permitem a liberação do medicamento em seu interior, destruindo-a por dentro.
Em vez de atacar todo o organismo, essa abordagem age de forma muito mais seletiva. Essa precisão torna os ADCs terapias eficazes e com toxicidade relativamente baixa para as pacientes.
DUAS LINHAS DE TRABALHO
A equipe do Dr. Pandiella, especialista nesse tipo de terapia, desenvolveu dois estudos complementares. Em um deles, utilizou o cetuximabe, um anticorpo já empregado na prática clínica, como plataforma para gerar diferentes ADCs por meio de sua ligação com diversos medicamentos antitumorais.
No outro, desenvolveu um ADC direcionado contra o CD98hc, uma molécula altamente expressa nas células do câncer de ovário e para a qual, até o momento, não existem ADCs desenvolvidos para essa doença. A fundação destaca que, em ambos os casos, os resultados em modelos de laboratório e em células provenientes de pacientes têm sido muito positivos.
A CRIS Contra o Câncer destaca que os tratamentos conseguiram frear significativamente o crescimento tumoral e, em alguns casos, reduzir o tamanho do tumor e limitar o aparecimento de metástases. Além disso, observou-se um aumento da sobrevida nos modelos experimentais e não foram detectados efeitos tóxicos relevantes. Também foi comprovado que os ADCs se acumulavam principalmente no tumor, com presença mínima em tecidos saudáveis, algo especialmente importante para reduzir os efeitos colaterais e que reforça seu potencial como possível terapia.
UMA MUDANÇA DE PARADIGMA NAS TERAPIAS DIRECIONADAS
Os especialistas apontam que uma das ideias mais interessantes relacionadas ao uso de ADCs é que já não é necessário que uma molécula seja a “causadora” direta do crescimento tumoral para que tenha valor terapêutico e seja utilizada como ponto fraco da célula tumoral. Basta que ela sirva para identificar as células tumorais e direcionar para elas um tratamento mais potente.
Essa mudança de perspectiva pode ampliar muito as possibilidades no câncer de ovário, um tipo de tumor no qual as terapias direcionadas tiveram, até agora, um impacto limitado.
Um dos ADCs analisados tinha como alvo uma molécula chamada EGFR, que já havia sido tentada bloquear no passado com resultados modestos em pacientes. Agora, em vez de tentar “desativá-la”, ela é utilizada como uma via de acesso para levar o medicamento para o interior da célula tumoral.
O outro ADC estudado, direcionado contra a molécula CD98hc, abre caminho para que ela seja utilizada como um novo alvo terapêutico. Isso representaria um novo ponto fraco do câncer, o que poderia ajudar a superar parte da resistência que alguns tumores apresentam aos tratamentos atuais.
PRÓXIMOS PASSOS
A fundação ressalta que, embora os resultados sejam promissores, a pesquisa ainda está em fase pré-clínica. Isso significa que ainda há um longo caminho a percorrer antes que essas terapias possam chegar às pacientes. Os próximos passos incluem validar as descobertas em modelos mais complexos, identificar quais pacientes poderiam se beneficiar mais e avançar para ensaios clínicos quando houver evidência experimental suficiente, com um bom volume de dados laboratoriais.
Também será importante continuar aprimorando o projeto desses ADCs para melhorar ainda mais sua eficácia e segurança. “Mesmo assim, esses estudos fornecem uma base científica sólida para continuar desenvolvendo uma nova geração de terapias direcionadas contra o câncer de ovário”, acrescenta a CRIS Contra o Câncer.
Por fim, a fundação afirma que este trabalho demonstra que a pesquisa de “qualidade, sustentada ao longo do tempo e com financiamento adequado” pode abrir novos caminhos onde antes havia muito poucas opções.
“O projeto liderado pelo Dr. Atanasio Pandiella, com o apoio da CRIS Contra o Câncer, reforça uma ideia fundamental: investir em ciência é investir no futuro. E, em doenças tão agressivas como esta, esse futuro pode significar tratamentos mais eficazes, menos tóxicos e com mais esperança para as pacientes”, conclui.
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