MADRID, 24 ago. (EUROPA PRESS) -
A Rede Cochrane elaborou um mapeamento das evidências que evidencia as lacunas na pesquisa sobre a prevenção da dengue. Publicado na “Cochrane Database of Systematic Reviews”, o mapa aponta que, embora existam centenas de estudos, apenas uma pequena fração foi sintetizada em revisões sistemáticas confiáveis e de alta qualidade que possam servir de base para a tomada de decisões por parte dos responsáveis pelas políticas de saúde e dos financiadores.
“Há muitas evidências, que abrangem desde a educação comunitária e o controle de vetores até vacinas e intervenções ambientais. No entanto, nosso mapa revelou uma lacuna significativa de evidências no que diz respeito às revisões sistemáticas, especialmente no caso de intervenções direcionadas a vetores adultos e na fase aquática, bem como para desfechos comportamentais e de implementação”, afirmou Bruno Guedes, coautor principal da Universidade Federal do Piauí (Brasil).
A educação comunitária é uma das áreas mais bem documentadas, com 47 ensaios clínicos randomizados e 140 estudos não randomizados. Isso inclui o envolvimento das comunidades para evitar a proliferação de mosquitos e prevenir a propagação do vírus, com foco em ações práticas como eliminar água parada, envolver as escolas locais e trabalhar com pessoas influentes da comunidade para promover hábitos de prevenção que perdurem no tempo.
Mesmo assim, os autores afirmam que faltam dados para determinar se esse tipo de intervenção tem impacto na propagação da própria doença. Esse é um tema recorrente nas intervenções voltadas para os mosquitos.
Além da educação comunitária, o mapa identificou outras lacunas importantes de informação. No que diz respeito ao controle de mosquitos adultos, as revisões existentes estão, em geral, desatualizadas, com exceção de uma revisão recente focada nas estratégias com “Wolbachia”. As intervenções voltadas para a fase aquática, ou larval, do mosquito apresentam falta de síntese das evidências em todas as áreas de desfechos.
Quanto às vacinas, as evidências sobre sua implementação são limitadas e as evidências sobre os desfechos comportamentais são praticamente inexistentes. Com relação às intervenções ambientais, existem estudos primários, mas os desfechos sobre a implementação e os aspectos comportamentais ainda carecem de revisões sistemáticas de qualidade.
“O que mais nos surpreendeu foi a falta de evidências sintetizadas sobre as vacinas contra a dengue na população adulta. Muitos ensaios clínicos estudaram as vacinas contra a dengue, especialmente no que diz respeito à sua segurança e à prevenção da doença. No entanto, ainda precisamos de mais evidências sobre como os programas de vacinação funcionam em contextos reais de saúde pública. É uma área na qual a Cochrane está buscando encomendar revisões”, explica Leslie Choi, coautora principal e editora de desenvolvimento de síntese de evidências na Cochrane.
QUAIS LACUNAS DE EVIDÊNCIA SÃO PRIORITÁRIAS?
O EGM foi projetado para fornecer aos formuladores de políticas de saúde mapas de lacunas de evidência adaptados às suas prioridades locais de saúde, ajudando-os a identificar as lacunas fundamentais no conhecimento científico sobre as quais basear futuras pesquisas primárias e revisões sistemáticas em nível local.
Os formuladores de políticas de saúde e os representantes da sociedade civil estiveram diretamente envolvidos no processo, e as partes interessadas ajudaram a priorizar as lacunas de informação na pesquisa primária.
De acordo com a Cochrane, sem uma ordem específica, trata-se de intervenções ambientais e efeitos adversos; educação comunitária e efeitos adversos; intervenções direcionadas às fases aquáticas do vetor e efeitos adversos; e intervenções direcionadas aos vetores adultos e efeitos adversos.
A equipe de autores apela para que sejam elaboradas revisões sistemáticas atualizadas e abrangentes sobre as intervenções de controle de vetores, para que se fortaleça a síntese das evidências sobre a implementação e os aspectos comportamentais das estratégias não relacionadas à vacinação, e a avaliar de forma mais sistemática os efeitos adversos além das vacinas.
“O principal problema não é a falta de estudos de pesquisa sobre a prevenção da dengue, mas sim o fato de que essa pesquisa não foi sintetizada de maneira a ser útil para a tomada de decisões. Os responsáveis pelas políticas de saúde e os funcionários da saúde pública precisam de respostas claras para perguntas básicas sobre a dengue. No momento, essas perguntas continuam sem resposta”, afirma Guedes.
Os autores também alertam que a dependência excessiva de desfechos entomológicos, como a contagem de mosquitos, é insuficiente por si só. Eles defendem que é fundamental dar mais atenção aos resultados epidemiológicos e de implementação em condições reais para elaborar estratégias de controle da dengue que sejam eficazes, escaláveis e adequadas aos contextos locais.
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