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MADRID, 27 maio (EUROPA PRESS) -
Em um novo estudo, pesquisadores do Laboratório Bigelow de Ciências Oceânicas (Estados Unidos) e da Universidade Memorial de Terra Nova (Canadá) documentaram a viabilidade contínua de tecido amputado de um pepino-do-mar por mais de três anos em água do mar natural. Este é o primeiro relato conhecido sobre a sobrevivência a longo prazo (e o crescimento contínuo) de tecido descartado fora de um ambiente esterilizado e altamente controlado.
Esta descoberta, publicada na revista 'Science Advances', questiona as ideias preconcebidas sobre a imortalidade tecidual e abre possibilidades interessantes no campo biomédico. Além disso, poderia ser utilizado como modelo experimental para a pesquisa biológica, tornando-a mais acessível e evitando as dificuldades éticas e logísticas que muitas linhas celulares existentes apresentam.
Desde o cadáver revivido do monstro de Frankenstein até a mão incorpórea de “A Coisa” na Família Addams, o tecido reanimado é uma das imagens mais recorrentes da ficção científica. Acontece que essa imagem tem certa base na natureza, de acordo com a recente descoberta de uma criatura misteriosa que vive no fundo do mar e que os cientistas chamam de “zumbi da vida real”.
No estudo, participa Rachel Sipler, pesquisadora principal do Laboratório Bigelow de Ciências Oceânicas: “Ainda não conseguimos cultivar um pepino-do-mar novo e completo, mas estamos observando um crescimento e uma diversificação celular surpreendentes, literalmente anos depois que esse tecido foi extraído”, comenta Sipler. “É como um lagarto que perde a cauda. Sabemos que alguns lagartos podem regenerar a cauda; a questão é se a cauda pode regenerar um novo lagarto”.
Desde meados do século XX, os cientistas têm obtido avanços significativos com linhas celulares “imortais”, como as famosas células HeLa, que podem ser cultivadas em laboratório e proliferar indefinidamente para pesquisas de longo prazo. No entanto, em estudos anteriores, as culturas de tecido só haviam sido mantidas em condições “axênicas”, estritamente controladas, com manutenção rigorosa e sem bactérias ou outros organismos. Mesmo assim, não haviam mostrado sinais de cicatrização ou crescimento, nem conservavam a capacidade de se mover de forma independente.
Muitos equinodermos, o filo ao qual pertencem os pepinos-do-mar, são conhecidos por sua impressionante capacidade de regeneração e seu mínimo envelhecimento celular. No entanto, sempre se presumiu que o tecido perdido acabaria se decompondo ou morrendo. No entanto, no que Sipler denomina resultado de uma “observação minuciosa”, os pesquisadores notaram que parte do tecido descartado do pé ambulacral de um pepino-do-mar não havia se decompor após várias semanas. Na verdade, parecia estar crescendo.
Os pesquisadores realizaram uma série de experimentos em água do mar corrente com tecido extraído dos pés, do corpo principal e dos tentáculos de três exemplares de Psolus fabricii, uma espécie de pepino-do-mar de águas frias.
Eles encontraram evidências de células diversificadas, atividade imunológica e reorganização tecidual no tecido explantado. E, na ausência de boca, as células pareciam obter nutrientes absorvendo aminoácidos dissolvidos na água do mar. Mesmo após três anos, quando os pesquisadores interromperam os experimentos para publicar os resultados, o tecido continuava ativo. Essa capacidade de sobreviver em um ambiente complexo e estressante, afirma Sipler, torna essa linha celular única em comparação com outras culturas de tecidos.
“A água do mar natural é, sem dúvida, o ambiente com maior diversidade microbiana e, ao mesmo tempo, o menos limpo que poderíamos utilizar experimentalmente”, insiste a autora. “No entanto, esse rico ecossistema, repleto de bactérias e matéria orgânica, na verdade as alimentava e permitia que o tecido se regenerasse e crescesse.”
Segundo os autores, as implicações para as ciências biomédicas e a engenharia são profundas, com possíveis aplicações em tudo, desde a regeneração de tecidos até a cura antimicrobiana.
Isso também abre novas oportunidades para a pesquisa e o ensino de biologia em geral. O tecido que eles conservaram não apenas demonstra uma capacidade sem precedentes de manter sua integridade estrutural e complexidade em cultura, mas também pode ser cultivado com maior facilidade em laboratório e, por ser de um invertebrado, não está sujeito a tantas restrições de pesquisa, o que o torna útil em contextos onde existem obstáculos legais ou uma infraestrutura de biossegurança limitada para o uso de linhagens celulares humanas ou de outros vertebrados.
Como oceanógrafa, Sipler concorda que essa emocionante descoberta revela o incrível potencial ainda inexplorado da vida marinha. “Os maiores avanços científicos ocorrem quando se encontra um análogo natural do que está sendo estudado. Aqui temos essa espécie com uma capacidade revolucionária, e não fazíamos a menor ideia. Isso nos lembra o quanto ainda há para descobrir no meio marinho e o quanto é importante proteger esses recursos que podem conter conhecimentos realmente valiosos”, conclui.
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