As correntes atmosféricas podem reduzir drasticamente o custo energético do voo, segundo os pesquisadores
MADRID, 16 out. (EUROPA PRESS) -
Um estudo internacional do qual participou o Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) demonstrou que voar é a forma mais eficiente de locomoção entre os vertebrados graças às correntes atmosféricas, que podem reduzir o custo energético do voo.
Essa pesquisa, publicada na revista “Science”, desafia a crença clássica de que nadar é a forma mais eficiente de locomoção entre esses animais e, pela primeira vez, incorpora explicitamente o papel da atmosfera como fonte de energia para as aves.
O trabalho, liderado pelo Instituto Max Planck de Comportamento Animal (MPI-AB) e pela Universidade de Swansea, com a participação de 68 pesquisadores e pesquisadoras de todo o mundo, é, até o momento, uma das análises mais completas já realizadas sobre o custo energético do voo de organismos vertebrados na natureza. Além da EBD, também contou com participantes de outras instituições espanholas, como a Universidade Miguel Hernández e a Universidade de Granada.
A pesquisa combina 17 anos de monitoramento por meio de GPS e acelerômetros de 850 indivíduos de 38 espécies de aves e morcegos de diferentes regiões do mundo. No total, a equipe analisou 1,4 milhão de localizações por GPS e cerca de 195 mil segmentos de voo. A esses dados somaram-se quatro anos de registros de radar, o que permitiu incorporar informações sobre pequenas aves passeriformes migratórias.
Para este estudo, a Estação Biológica de Doñana, do CSIC, forneceu informações muito valiosas obtidas em projetos de monitoramento por GPS de centenas de indivíduos de várias espécies de aves ao longo das últimas décadas.
A equipe integrou esses registros com dados atmosféricos, incluindo ventos e correntes ascendentes, para estimar o custo energético do deslocamento em condições reais. A análise permitiu calcular quanto tempo os animais dedicavam a bater as asas ou a planar e comparar a energia consumida por unidade de distância percorrida.
Os resultados distinguem duas grandes estratégias: depender principalmente do bater das asas ou aproveitar as correntes atmosféricas para planar. Entre as aves planadoras, o tamanho corporal desempenha um papel importante: em geral, quanto maior a ave, menos ela precisa bater as asas e menor é seu custo energético de transporte.
“Aves planadoras, como o condor andino, aproveitam as correntes ascendentes e quase não batem as asas. Com isso, conseguem custos de transporte até 79% menores do que aves de massa semelhante que voam por meio de batidas contínuas de asas, como o cisne-trombeteiro”, explica José Antonio Donázar, pesquisador do CSIC na EBD.
Abutres como o condor andino constituem um dos exemplos mais ilustrativos da importância das correntes atmosféricas. As sete espécies analisadas no estudo acumularam 128.000 dias de voo e percorreram mais de 4,3 milhões de quilômetros, uma distância equivalente a mais de cem voltas ao redor da Terra.
Durante esses deslocamentos, os abutres bateram as asas apenas entre 0,1% e 7% do tempo de voo. Em vez de manter uma batida contínua, essas aves aproveitam as colunas de ar ascendente para ganhar altitude e reduzir consideravelmente seu gasto energético.
Essa estratégia, no entanto, depende de condições atmosféricas favoráveis. O estudo também revela que as aves planadoras de maior porte têm menos flexibilidade para escolher quando e onde voar, pois dependem em maior medida da disponibilidade de correntes ascendentes adequadas.
As aves que dependem do bater de asas apresentam uma estratégia diferente. Embora seu voo exija um esforço energético maior, isso lhes permite se adaptar a condições ambientais mais variáveis.
Nesse grupo, o vento tem uma influência especialmente importante. Os ventos a favor facilitam o deslocamento, enquanto os ventos contrários aumentam a resistência e podem elevar o custo energético do voo.
Esses resultados fornecem uma ferramenta fundamental para a conservação. Eles oferecem um novo marco para prever o custo energético do voo e determinar como as mudanças climáticas poderiam afetar os locais e os momentos em que os animais se deslocarão no futuro.
“Mudanças nos padrões de vento e nas correntes térmicas associadas às mudanças climáticas poderiam alterar as rotas migratórias, as distribuições geográficas e o uso do espaço por parte de muitas espécies voadoras”, explica Julio Blas, pesquisador do CSIC na EBD e coautor do artigo.
O PAPEL DAS CONDIÇÕES ATMOSFÉRICAS
Em conjunto, os resultados revelam que o ambiente atmosférico pode atuar tanto como fonte de energia quanto como fator que dificulta o deslocamento. Por isso, conhecer as condições atmosféricas é fundamental para compreender as estratégias de deslocamento das diferentes espécies.
O estudo fornece uma estrutura para estimar o custo energético do voo em condições naturais e explorar como as mudanças na atmosfera podem influenciar os movimentos dos animais. Essas informações podem ajudar a antecipar mudanças em seus deslocamentos e a aprimorar as ferramentas de conservação e gestão da biodiversidade.
“Este estudo traz uma ideia especialmente relevante: a atmosfera não é simplesmente o meio onde as aves e os morcegos voam, mas um recurso energético essencial que pode determinar quando, onde e como eles se deslocam. Essa visão muda nossa forma de entender a mobilidade animal e fornece ferramentas para antecipar como as espécies voadoras responderão a um mundo com padrões climáticos cada vez mais instáveis”, afirma a pesquisadora Cortés-Avizanda.
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