Publicado 23/06/2026 03:11

A cicatriz do Brexit obriga o Reino Unido a voltar o olhar para a Europa dez anos depois

A população busca uma melhoria nas relações com a UE à medida que aumentam as vozes críticas em relação ao referendo

Archivo - Arquivo - Imagem de arquivo de um manifestante contra o Brexit no Reino Unido.
Victoria Jones/PA Wire/dpa - Arquivo

MADRID, 23 jun. (EUROPA PRESS) -

Dez anos depois de a população britânica ter ido às urnas para votar no referendo sobre a saída do país da União Europeia, o país enfrenta uma crise institucional que voltou a se manifestar com a renúncia, nesta segunda-feira, do primeiro-ministro Keir Starmer, que acabou cedendo às pressões internas do Partido Trabalhista em meio a uma crise de liderança.

Após uma década do histórico referendo, a maioria das análises sobre o Brexit coincide em um ponto: a saída do Reino Unido do bloco comunitário freou o crescimento da economia britânica em um país que passou por sete primeiros-ministros em apenas uma década. Essa evolução tornou-se sintomática de uma situação de desgoverno que deixa nas mãos do próximo primeiro-ministro a árdua tarefa de encontrar soluções.

A crise econômica e a rejeição aos migrantes difundiram, na época, a ideia de que era preciso “recuperar o controle” do país para redefinir sua relação com a Europa e seus aliados nos próprios termos. Um ponto que se revela paradoxal, tendo em vista que nenhuma dessas questões acabou sendo resolvida após dez anos.

“Esse foi um dos grandes paradoxos do Brexit e a demonstração mais clara da ambiguidade das mensagens sobre as quais se construiu a argumentação a favor do ‘Leave’”, destacou Carme Colomina, pesquisadora do CIDOB, em declarações à Europa Press.

“O referendo não conseguiu resolver nenhum dos problemas atribuídos à UE: insegurança econômica, globalização desigual, diminuição da confiança nas elites políticas e a percepção de que a tomada de decisões democráticas se afastou cada vez mais dos cidadãos”, observou ela.

Assim, a maioria dos especialistas considera que esse suposto reajuste, mesmo que fosse totalmente implementado, deixaria sem solução grande parte das perdas comerciais sofridas pelo território britânico desde a saída de Bruxelas. O voto antissistema que impulsionou o apoio à campanha do “Leave” continuou enfraquecendo o Executivo e permite que partidos como o Reform UK, de Nigel Farage, capitalizem o descontentamento da população.

Aquela campanha foi liderada pelo próprio Farage e obteve 51,9% dos votos contra o “Remain”, que defendia a permanência na UE e conquistou 48,1% dos votos. O referendo daquele 23 de junho de 2016 custou o cargo ao então primeiro-ministro David Cameron. Em seu lugar, foi nomeada Theresa May, que iniciou as negociações e permaneceu três anos em Downing Street, acabando também entre a espada e a parede.

Segundo dados oficiais, os efeitos do Brexit representaram uma redução do PIB britânico de até 8%, uma queda no comércio de cerca de 15% e uma queda de 18% nos investimentos. Esses números coincidem com um momento de crescente protecionismo e instabilidade geopolítica global, que aprofundaram ainda mais a erosão da competitividade que o Reino Unido já vinha sofrendo.

UM PLANO DE APROXIMAÇÃO

As pesquisas indicam que, se amanhã houvesse um novo referendo, 63% dos britânicos apoiariam o retorno à UE. Tudo isso levou Londres a traçar um plano de aproximação com o bloco que, embora esteja claramente longe de ser ideológico, busca resolver os problemas econômicos que Londres enfrenta e, assim, amenizar as tensões internas.

As pesquisas mostram um desejo crescente de estabelecer relações mais estreitas com o bloco comunitário, e os eleitores dos principais partidos políticos se mostram cada vez menos relutantes em reconhecer os erros do passado.

“As feridas do Brexit ainda ardem em ambos os lados do Canal da Mancha. Por isso, em Downing Street insistem que essa aproximação com Bruxelas não é uma aposta ideológica, mas uma estratégia voltada exclusivamente para os interesses econômicos dos britânicos”, explicou Colomina.

“O problema é como superar o trauma do Brexit, inclusive nas instituições europeias. Bruxelas é incapaz de superar a desconfiança provocada pelo cenário eleitoral no Reino Unido porque, embora haja uma hipotética maioria a favor do retorno à UE, as pesquisas de intenção de voto colocam hoje o Reform UK na posição vantajosa de primeira força na Câmara dos Comuns”, afirmou ela.

No entanto, a especialista descarta a possibilidade de um novo referendo no futuro próximo, já que, “apesar da sensação de erro, as pesquisas também mostram que o euroceticismo continua bem presente, assim como os temores que agitaram o Brexit”.

Essa situação, por sua vez, provocou uma nova fragmentação na política. Em 2019, os dois partidos tradicionais no poder obtiveram 76% dos votos populares; esse número caiu para 58% nas eleições de 2024, e todos os processos eleitorais subsequentes sugerem que ele diminuiu ainda mais com a ascensão do Reform UK e dos Verdes.

A isso se soma o surgimento de um novo partido, uma cisão do próprio Reform UK, chamado Restore Britain, criado a partir da saída de Rupert Lowe.

O TRAUMA DA SAÍDA

Alcançar finalmente o acordo do Brexit foi um processo árduo que não ficou isento de consequências: após vencer as eleições de 2019 com a promessa de levar adiante o processo, o conservador Boris Johnson afirmou que essa saída se concretizaria por completo, apesar de a fronteira regulatória estar no Mar da Irlanda.

Essa questão foi especialmente difícil na hora de negociar a saída, devido aos problemas que representava chegar a um acordo sobre a retirada sem criar uma fronteira física na Irlanda do Norte que violasse os acordos estabelecidos, os quais puseram fim a 30 anos de conflito na região.

Seu governo negociou um rápido acordo de livre comércio com a UE, anunciado no final de 2020 e aprovado em plena pandemia, um processo que deixou graves sequelas na política britânica, tanto interna quanto externa.

“Nos últimos tempos, cada nova ameaça geopolítica serviu para aproximar um pouco mais o Reino Unido da União Europeia e, especialmente no último ano, vemos como Londres e Bruxelas estão em um processo de reconexão acelerada e silenciosa”, afirmou Colomina.

Nesse sentido, ele assegurou que “a invasão russa da Ucrânia abriu as portas para a colaboração em matéria de defesa, e a perturbação causada pelo retorno de Donald Trump, agravada pela instabilidade econômica e energética gerada pela guerra no Irã, aumentou ainda mais a necessidade de um entendimento econômico e comercial” entre as partes.

“A posse de Starmer buscava restabelecer as relações entre o Reino Unido e a UE, mas com ‘linhas vermelhas muito concretas’, como ‘não retornar à união aduaneira, não voltar ao mercado único e não restabelecer a livre circulação’.” “Uma das razões que o governo britânico apresenta para manter esses limites é que não quer abrir mão das vantagens dos acordos de livre comércio que negociou por conta própria”, afirmou.

Esse reajuste, mesmo que fosse implementado na íntegra, deixaria sem solução a grande maioria das perdas comerciais que o Reino Unido sofreu devido ao Brexit”, conforme argumentou Colomina, que afirmou que há uma “mudança de rumo” no debate sobre as relações entre o Reino Unido e a UE diante da crescente “instabilidade política” em uma nova era trumpista.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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