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MADRID, 20 jun. (EUROPA PRESS) -
O secretário-geral adjunto para Assuntos Humanitários da ONU e chefe do OCHA, Tom Fletcher, tem certeza de que a única coisa necessária para acabar com a fome, as doenças e o deslocamento é “vontade política” em um mundo onde já existem bilionários, e adverte que a indiferença diante do sofrimento em muitas partes do mundo “não sai de graça”.
“Nossa mensagem é clara: um mundo capaz de transformar milionários em bilionários também tem os recursos para evitar a fome, as doenças e o deslocamento”, afirma Fletcher em entrevista à Europa Press, poucos dias depois de Elon Musk ter se tornado o primeiro bilionário do mundo.
“O que falta é vontade política e uma solidariedade sustentável com as pessoas menos afortunadas”, denuncia. A ONU fez cálculos e, para cumprir esse objetivo, seria necessário o equivalente a três dias e meio de gastos mundiais com armamento e defesa, metade dos bônus anuais pagos em Wall Street ou 5% do que é gasto anualmente em refrigerantes com gás.
No entanto, essa solidariedade não existe e, nos últimos anos, os recursos que os países destinam à ajuda humanitária têm sofrido um claro recuo, com o consequente impacto que isso tem sobre o trabalho realizado pelas agências da ONU e pelas ONGs e sobre seus beneficiários, que veem a assistência que recebem reduzida, quando não totalmente suspensa. “Estamos sendo obrigados a tomar decisões devastadoras sobre quem podemos atender e quem não podemos”, admite Fletcher.
Para este ano, a ONU fez um apelo solicitando 33.600 milhões de dólares (cerca de 29.200 milhões de euros) para ajudar os 135 milhões de pessoas que precisam de assistência em todo o mundo, priorizando 87 milhões de pessoas que “enfrentam as crises mais graves e as ameaças mais urgentes”, para as quais solicitou 23 bilhões de dólares (cerca de 20 bilhões de euros). “Tivemos que estabelecer prioridades com muito rigor, não porque as necessidades tenham diminuído, mas porque os recursos diminuíram”, explica.
No que vai do ano, foi possível atender 24 milhões de pessoas, e já foram recebidos ou estão a caminho mais de 10 bilhões de dólares (cerca de 8,7 bilhões de euros). “A ajuda está chegando a milhões de pessoas, vidas estão sendo salvas, famílias estão sendo alimentadas, doenças estão sendo prevenidas”, reconhece Fletcher, mas ressalta que “dezenas de milhões de pessoas continuam esperando”.
NÃO HÁ LUGAR PARA A INDIFERENÇA
Nesse contexto, ele admite que lhe preocupa que “estejamos nos acostumando com o inaceitável”. “Vivemos uma época marcada pela força, pela brutalidade, pela impunidade e, com demasiada frequência, por um senso de responsabilidade mútua em declínio”. No entanto, ele adverte: “a história nos mostra que a indiferença tem um preço”.
“As crises têm efeitos em cadeia que vão além das fronteiras nacionais. O movimento humanitário atua como uma rede de segurança global de último recurso e, em um mundo fragmentado e instável, isso não é apenas moralmente correto, mas também estrategicamente inteligente”, afirma Fletcher.
Nos 18 meses em que está no cargo, o chefe do OCHA visitou “muitas das crises mais brutais e desumanas”, como Gaza, Sudão ou Ucrânia. “Uma das partes mais difíceis do meu trabalho é conhecer pessoas que perguntam se alguém sabe o que está acontecendo com elas”. “Nossa resposta tem que ser sim: humanidade significa recusar-se a permitir que comunidades inteiras se tornem invisíveis”, ressalta.
AS CRISES LOCAIS SE TORNAM REGIONAIS E MUNDIAIS
Olhando para o futuro, ele observa que o que o preocupa é que “as crises se chocam cada vez mais entre si”. “Os conflitos, os desastres climáticos, a instabilidade econômica, o deslocamento e as doenças não são ameaças isoladas; eles se reforçam mutuamente”, destaca, alertando que, no mundo atual, “uma crise local pode rapidamente se tornar regional ou global amanhã”.
Nesse contexto, ele chama a atenção para o fato de que “a próxima grande crise humanitária pode não surgir de um único evento, mas de múltiplas pressões que atingem comunidades vulneráveis ao mesmo tempo”. E por isso defende que é preciso “investir em prevenção, diplomacia e ação precoce”.
“Precisamos antecipar as necessidades antes que a crise se instale”, ressalta Fletcher, para quem “a melhor resposta humanitária é aquela que nunca precisaremos lançar, porque o sofrimento foi evitado desde o início”.
Apesar de tudo, Fletcher ainda mantém a esperança. “Onde quer que eu vá”, afirma, “vejo uma coragem extraordinária: famílias determinadas a reconstruir e profissionais humanitários determinados a fazê-lo junto com elas, muitas vezes correndo grande risco pessoal, porque se recusam a desistir”.
“A esperança não é um otimismo cego; a esperança é ação com propósito. É a escolha de continuar se apresentando quando mais importa, defender nossa humanidade compartilhada e salvar as vidas que sabemos que podemos salvar”, reitera.
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