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Os hepatologistas apelam à implementação de um rastreio não invasivo para a deteção precoce da doença hepática MADRID 18 fev. (EUROPA PRESS) -
Cerca de 80% dos adultos europeus com mais de 40 anos apresentam fatores de risco associados à doença hepática crônica, como diabetes, obesidade e consumo elevado de álcool, segundo revela o Projeto LiverScreen, liderado pelo Hospital Clinic de Barcelona e coordenado pelo Dr. Pere Ginès.
O estudo, aceito para publicação na revista The Lancet, contou com a participação de 30.199 adultos aparentemente saudáveis, provenientes de nove países, sendo um terço deles da Espanha. Os resultados são apresentados no 51º Congresso Anual da Associação Espanhola para o Estudo do Fígado (AEEH), que se realiza até esta sexta-feira em Madri, e podem abrir as portas para um sistema de rastreamento.
Conforme detalhou o Dr. Ginès em coletiva de imprensa, os hepatologistas enfrentam atualmente o desafio do diagnóstico tardio da doença hepática, com a maioria dos pacientes identificados em fases avançadas, quando já desenvolveram cirrose hepática ou câncer e têm um prognóstico de vida curto.
Neste momento, a única opção é o transplante, mas apesar de a Espanha ser o país com mais doações de órgãos, Ginès salientou que o transplante só é aplicável a uma pequena proporção dos pacientes, cerca de 2% da população mundial com esta doença avançada. Portanto, embora seja uma opção de cura em nível individual, o transplante não reduz a carga epidemiológica da doença hepática em termos gerais. Ginés destacou que a chave está no diagnóstico precoce dos pacientes, sendo este o ponto de partida do Projeto LiverScreen. “O desenvolvimento da doença no fígado ocorre muito lentamente, em um período que vai de 20 a 30 anos (...) Portanto, temos um período latente no qual podemos fazer o diagnóstico da doença, mas temos um problema: a doença não apresenta sintomas”, explicou, ressaltando que isso requer procurar e identificar o paciente para diagnosticá-lo.
MONITORAR FATORES DE RISCO Nesse contexto, o estudo europeu, realizado entre maio de 2018 e dezembro de 2024, utilizou uma técnica conhecida como elastografia transitória, um método “muito simples e semelhante a uma ecografia, que é realizado em poucos minutos”, para avaliar em mais de 30.000 adultos se o seu fígado estava ou não doente.
Dessa forma, revelou que 70% dos participantes apresentavam fatores de risco metabólicos, como obesidade, diabetes, dislipidemia ou hipertensão, enquanto 59% consumiam álcool e 6,1% tinham um consumo considerado prejudicial, ou seja, a ingestão de duas ou três bebidas alcoólicas por dia.
“Além de os fatores de risco serem muito frequentes (apresentados por aproximadamente 80% da população), quando esses fatores de risco se combinam, a probabilidade de ter uma doença hepática subjacente é muito maior”, alertou Ginès para chamar a atenção da população e que esses tipos de fatores sejam controlados.
Por outro lado, 6,9% tiveram resultado positivo no rastreio de possível doença hepática e 4,6% apresentavam rigidez hepática elevada, o que é um dado sugestivo de fibrose.
QUASE 2% APRESENTA FIBROSE HEPÁTICA NÃO DIAGNOSTICADA As pessoas com rastreio positivo foram encaminhadas para consultas especializadas em hepatologia e em uma em cada três (32%) foi confirmada a presença de doença hepática crônica. Isso equivale a uma prevalência global estimada de 1,6% de fibrose hepática não diagnosticada na população geral europeia.
“E não é pouco, porque se você observar um vagão do metrô com 70, 80, 100 pessoas, duas delas têm doença hepática significativa. Se você colocar os 2% em um contexto de população normal, do que vivemos todos os dias, continua sendo um número relevante”, observou o presidente da AEEH, Rafael Bañares.
Além disso, o estudo revelou que 93% dos casos confirmados de doença hepática crônica com fibrose foram causados por esteatose hepática, associada principalmente à obesidade, diabetes tipo 2 e álcool. RUMO À TRIAGEM DA DOENÇA HEPÁTICA
Pere Ginès destacou que o objetivo final do Projeto LiverScreen é oferecer um rastreio para a população com fatores de risco. Como parte desse trabalho, os pesquisadores desenvolveram há dois anos um método chamado “LiverRisk Score”, publicado na revista “The Lancet”, que consiste em uma calculadora com a qual, a partir de oito parâmetros, é possível avaliar o risco do paciente de sofrer de uma doença hepática subjacente. O próximo passo do projeto é utilizar esse método para fazer um rastreamento de doenças hepáticas na população. “Nossa ideia é demonstrar, de forma semelhante ao que ocorre com o rastreamento do câncer colorretal, que se fizermos um rastreamento, identificarmos essas duas pessoas do vagão do metrô que têm doença hepática subjacente, podemos levá-las ao sistema de saúde e podemos curar ou deter a progressão da doença hepática”, explicou.
Embora tenha salientado que levará vários anos para conseguir esse rastreamento, o objetivo é contribuir para reduzir a mortalidade por causas hepáticas na população em geral. A AEEH trabalha para conseguir a implantação do rastreamento não invasivo, como parte do Plano de Saúde Hepática Desafio 2032. Para isso, o secretário científico da associação, Alejandro Forner, indicou que estão em contato com as Secretarias de Saúde para que introduzam o método “score” e que o médico de Atenção Primária o tenha calculado sempre que um paciente se submeter a uma análise de sangue.
“São essas pequenas coisas que nós, cientistas, demonstramos em estudos científicos, e o que nos falta é transmitir esses dados aos políticos para que implementem ferramentas extremamente econômicas”, destacou.
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