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MADRID 5 ago. (EUROPA PRESSS) -
As fraudes científicas organizadas estão crescendo a um ritmo alarmante; desde pesquisas fabricadas até autoria e citações pagas, elas fazem parte de redes globais sofisticadas que colaboram sistematicamente para minar a integridade das publicações acadêmicas, de acordo com um novo estudo da Northwestern University, nos EUA.
O problema está tão disseminado que a publicação de ciência fraudulenta está ultrapassando a taxa de crescimento de publicações científicas legítimas, afirmam os autores do estudo, que argumentam que essas descobertas devem servir como um alerta para a comunidade científica de que é preciso agir antes que o público perca a confiança no processo científico.
Para esse estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences ('PNAS'), os pesquisadores analisaram extensos conjuntos de dados de publicações retratadas, registros editoriais e casos de duplicação de imagens.
A maioria dos dados veio dos principais agregadores de literatura científica, como Web of Science (WoS), Elsevier's Scopus, National Library of Medicine's PubMed/MEDLINE e OpenAlex, que inclui dados do Microsoft Academic Graph, Crossref, ORCID, Unpaywall e outros repositórios institucionais. Eles também compilaram listas de periódicos desindexados, ou seja, periódicos acadêmicos que foram removidos dos bancos de dados por não atenderem a determinados padrões éticos ou de qualidade.
Os pesquisadores também incluíram dados sobre artigos retirados do Retraction Watch, comentários de artigos do PubPeer e metadados (como nomes de editores, datas de envio e aceitação) de artigos publicados em periódicos específicos.
"PRECISAMOS ESTAR CIENTES DA GRAVIDADE DESSE PROBLEMA.
"A ciência precisa se policiar melhor para preservar sua integridade. Se não aumentarmos a conscientização sobre esse problema, comportamentos cada vez piores serão normalizados. Chegará um momento em que será tarde demais e a literatura científica estará completamente contaminada", diz Luís AN Amaral, da Northwestern, principal autor do estudo.
"Algumas pessoas se preocupam com o fato de que falar sobre esse assunto é atacar a ciência. Mas eu acredito firmemente que estamos defendendo a ciência de agentes mal-intencionados. Precisamos estar cientes da gravidade desse problema e tomar medidas para resolvê-lo", diz ele.
Quando as pessoas pensam em fraude científica, talvez se lembrem de notícias sobre artigos retratados, dados falsificados ou plágio. Esses relatórios geralmente se concentram nas ações isoladas de um indivíduo que toma atalhos para prosperar em um setor cada vez mais competitivo. Mas Amaral e sua equipe descobriram uma extensa rede clandestina operando nas sombras e longe dos olhos do público.
"Essas redes são, em essência, organizações criminosas que atuam em conjunto para falsificar o processo científico. Milhões de dólares são investidos nesses processos", explica Amaral.
COMPRANDO UMA REPUTAÇÃO
Após analisar os dados, a equipe descobriu esforços coordenados entre "fábricas de papel", intermediários e revistas infiltradas. Funcionando de forma semelhante a fábricas, as fábricas de papel produzem grandes quantidades de manuscritos, que depois vendem a acadêmicos que desejam publicar rapidamente novos trabalhos. Esses manuscritos são, em sua maioria, de baixa qualidade: eles contêm dados fabricados, imagens manipuladas ou até mesmo roubadas, conteúdo plagiado e, às vezes, afirmações absurdas ou fisicamente impossíveis.
"Cada vez mais cientistas estão presos em fábricas de papel. Eles podem comprar não apenas artigos, mas também citações. Assim, eles podem parecer cientistas renomados quando quase não fizeram suas próprias pesquisas", diz Amaral.
"As fábricas de papel operam em modelos diferentes. Portanto, mal conseguimos vislumbrar como elas operam. Mas elas vendem praticamente qualquer coisa que possa ser usada para lavar uma reputação. Geralmente vendem bancas autorais por centenas ou até milhares de dólares. Uma pessoa pode pagar mais por uma vaga de primeiro autor ou menos por uma vaga de quarto autor. Eles também podem pagar para que seus artigos sejam aceitos automaticamente em um periódico por meio de um processo falso de revisão por pares", alerta Reese Richardson, pesquisador de pós-doutorado no laboratório de Amaral e primeiro autor do artigo.
Para identificar mais artigos provenientes de fábricas de papel, o grupo de pesquisadores lançou um projeto paralelo que examina automaticamente artigos publicados sobre ciência e engenharia de materiais. A equipe procurou especificamente por autores que identificaram incorretamente os instrumentos usados em suas pesquisas. Um artigo com esses resultados foi aceito pela revista "PLOS ONE".
CORRETORES, SEQUESTRO E CONLUIO
Amaral, Richardson e seus colaboradores descobriram que as redes fraudulentas usam várias estratégias importantes: grupos de pesquisadores conspiram para publicar artigos em vários periódicos, mas quando suas atividades são descobertas, os artigos são retirados; os corretores facilitam a publicação em massa de artigos fraudulentos em periódicos comprometidos; as atividades fraudulentas estão concentradas em subcampos específicos e vulneráveis; e as entidades organizadas evitam medidas de controle de qualidade, como a desindexação de periódicos.
"Os intermediários conectam todas as pessoas nos bastidores. Você precisa encontrar alguém para escrever o artigo. Você precisa encontrar pessoas dispostas a pagar para serem os autores. Você precisa encontrar uma revista onde possa publicar tudo. E você precisa de editores nessa revista que aceitem o artigo", ressalta Amaral.
Às vezes, essas organizações ignoram completamente as revistas estabelecidas, procurando, em vez disso, revistas extintas para sequestrar. Quando uma revista legítima deixa de ser publicada, por exemplo, agentes mal-intencionados podem sequestrar seu nome ou site. Esses agentes usurpam sub-repticiamente a identidade da revista, dando credibilidade às suas publicações fraudulentas, mesmo que a publicação em si não exista mais.
Isso aconteceu com a revista 'HIV Nursing', que antigamente era a revista de uma organização profissional de enfermagem no Reino Unido, mas depois deixou de ser publicada e seu domínio on-line ficou indisponível. "Uma organização comprou o domínio e começou a publicar milhares de artigos sobre tópicos completamente não relacionados à enfermagem, todos indexados no Scopus", diz Richardson.
Para combater essa ameaça crescente à publicação científica legítima, Amaral e Richardson enfatizam a necessidade de uma abordagem multifacetada. Essa abordagem inclui um maior escrutínio dos processos editoriais, melhores métodos para detectar pesquisas fabricadas, maior compreensão das redes que facilitam essa má conduta e uma reestruturação radical do sistema de incentivos na ciência.
Eles também enfatizam a importância de abordar essas questões antes que a inteligência artificial (IA) se infiltre na literatura científica mais do que já está se infiltrando.
"Se não estivermos preparados para lidar com a fraude que já está acontecendo, certamente não estaremos preparados para lidar com o que a IA geradora pode fazer com a literatura científica", diz Richardson.
"Não temos ideia do que será publicado na literatura, do que será considerado fato científico e do que será usado para treinar futuros modelos de IA, que serão usados para escrever mais artigos científicos", conclui.
Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático