Publicado 01/05/2026 04:12

O ataque do JNIM no Mali volta a colocar o Sahel no centro das atenções, principal palco do jihadismo mundial

Archivo - Arquivo - BAMAKO, 23 de setembro de 2025  -- O exército do Mali participa de um grande desfile durante o 65º aniversário da independência do Mali, em Bamako, Mali, em 22 de setembro de 2025. O Mali comemorou na segunda-feira o 65º aniversário de
Europa Press/Contacto/Habib Kouyate - Arquivo

A filial da Al-Qaeda tornou-se o principal ator em uma região onde também opera o Estado Islâmico

MADRID, 1 maio (EUROPA PRESS) -

O ataque perpetrado no último dia 25 de abril no Mali pelo Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM), em conjunto com os rebeldes separatistas tuaregues da Frente de Libertação do Azawad (FLA), voltou a colocar o Sahel no centro das atenções, região que se tornou, nos últimos anos, o principal foco do jihadismo em nível mundial e onde as filiais da Al Qaeda e do Estado Islâmico avançam em seu controle territorial.

O grupo comandado por Iyad ag Ghali, criado em 2017 a partir da união de várias organizações, entre elas o Ansar Dine e a Frente para a Libertação de Macina, é o principal ator em uma região de fronteiras porosas e escassa presença do Estado em seu vasto território, onde, além disso, as disputas tradicionais entre pastores e agricultores também se tornaram uma ferramenta que todos os atores tentam explorar.

Mali, Burkina Faso e Níger, os três países mais afetados pelo jihadismo, são governados por juntas militares que protagonizaram golpes contra os governos democráticos entre agosto de 2020 e julho de 2023, entre outras coisas porque consideravam que estes não estavam fazendo o suficiente contra os terroristas.

Os três países seguiram o mesmo roteiro, iniciado primeiro pelo Mali e depois imitado por Burkina Faso e Níger, de distanciamento daquele que fora seu aliado tradicional, a França, antiga metrópole, e aproximação à Rússia, que se tornou um parceiro-chave para garantir a segurança por meio do fornecimento de armamento, mas sobretudo através do envio de mercenários do Grupo Wagner, agora reconvertido em Africa Corps e sob a tutela do Ministério da Defesa russo, sobretudo no caso de Bamako.

FRACASSO DA RESPOSTA MILITAR

No entanto, a resposta militar com a qual as três juntas tentaram conter o avanço dos jihadistas, que iniciaram sua trajetória no norte do Mali em 2012, aproveitando a rebelião lançada na época pelos tuaregues, não teve os resultados esperados e os grupos terroristas têm estendido seus tentáculos para o centro e o sul do país, bem como para a vizinha Burkina Faso e também para o oeste do Níger, ameaçando agora avançar para os países do Golfo da Guiné.

Os abusos cometidos pelas forças armadas dos três países e pelas forças auxiliares que as apoiam, bem como pelos mercenários russos, denunciados em várias ocasiões por organizações como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch (HRW), contribuíram para afastar a população local das autoridades centrais e, em muitos casos, empurrar os jovens para os braços dos jihadistas.

Nesse contexto, o JNIM soube explorar essas condições para consolidar suas posições. O grupo de Iyad ag Ghali, um ex-combatente tuaregue, controla vastas áreas do norte, centro, sul e oeste do Mali, está presente no norte, oeste e leste de Burkina Faso, e também no sudoeste do Níger, conforme indica o Crisis Group em um relatório recente, no qual destaca que “desenvolveu uma forma de governança que lhe permite apresentar-se como alternativa aos Estados”.

Assim, “colocou em prática uma estrutura administrativa leve, mas suficiente para exercer um controle social inspirado em sua visão da lei islâmica, fazer justiça e arrecadar impostos”, explica este think-tank, que ressalta que, embora o JNIM tenha vindo gradualmente ampliando sua área de influência, sua cúpula não se sente particularmente à vontade com a expansão territorial, já que isso requer mais combatentes e os expõe mais à reação das forças de segurança.

SALTO QUALITATIVO

Mas, além de se expandir territorialmente, nos últimos tempos a filial da Al Qaeda no Sahel também deu um salto qualitativo em sua forma de agir, empregando agora drones armados e demonstrando sua capacidade de pressionar a junta militar comandada por Assimi Goita.

De acordo com o último relatório do comitê da ONU encarregado de monitorar as ações da Al Qaeda e do Estado Islâmico, publicado em fevereiro, o JNIM “ampliou suas operações para além dos alvos militares e passou a incluir alvos econômicos, em particular atacando explorações mineradoras e instalações industriais administradas por investidores estrangeiros, bem como realizando sequestros para obter resgate e lançando ataques contra rotas logísticas estratégicas fundamentais”.

O comitê da ONU se referia, com isso, ao bloqueio que o grupo terrorista impôs após o verão passado sobre Bamako, impedindo a entrada de combustível na capital com o objetivo de pressionar a junta por meio do estrangulamento econômico. Quanto aos sequestros, vale lembrar que o JNIM libertou, em novembro passado, dois emiratenses que mantinha sequestrados, supostamente após o pagamento de um resgate de 50 milhões de dólares.

DEMONSTRAÇÃO DE FORÇA

O último ataque, orquestrado com o FLA e realizado simultaneamente em diferentes pontos do país, foi uma demonstração de força e pôs em evidência a relevância da ameaça representada pelo JNIM, que conseguiu atingir Kati, a cidade-quartel próxima a Bamako onde a junta tem sua sede, e matar o ministro da Defesa, Sadio Camara.

Embora todos os especialistas concordem em apontar que o grupo jihadista não aspira — pelo menos por enquanto — a governar o Mali, ele quer, de alguma forma, forçar a junta a iniciar algum tipo de negociação que lhe permita consolidar sua posição nas áreas rurais e até mesmo influenciar, na medida do possível, o governo. Enquanto isso, o JNIM anunciou um bloqueio total sobre Bamako, que já estaria em vigor.

Por outro lado, os últimos acontecimentos representam uma importante ferramenta de propaganda para a filial da Al Qaeda, que também aproveitou os ataques contra as diversas bases do Exército malinês e do Africa Corps para se apoderar de novos armamentos com os quais aumentar seu arsenal, o que melhora sua capacidade de atacar no futuro.

DADOS SOBRE O JIHADISMO NO SAHEL

De acordo com o último levantamento da atividade jihadista na África realizado pelo African Center for Strategic Studies (ACSS), dependente do Pentágono, o Sahel concentrou 41% das 23.968 vítimas fatais registradas em relação à atividade jihadista no continente.

Burkina Faso é o país mais afetado, com 50% do total de mortos na região, seguido pelo Mali, com 29%, e pelo Níger, com 17%. Esses dados coincidem com os apresentados pelo Índice Global de Terrorismo, que coloca esses três países entre os “10 mais afetados” (Burkina Faso, em segundo lugar; Níger, em terceiro, e Mali, em quarto).

O JNIM esteve relacionado a 78% das mortes na região e a 2.502 dos 3.039 incidentes violentos registrados em 2025, de acordo com o referido estudo da ACSS, consultado pela Europa Press, enquanto seu grande rival, o Estado Islâmico no Sahel (ISS), esteve ligado a 19%.

O ISS tem seu principal reduto no oeste do Níger, mas também está presente no leste do Mali. Essa filial protagonizou, no último ano, importantes combates contra o JNIM pelo controle do território, especialmente em Burkina Faso, mas também no norte do Mali, de acordo com o referido relatório do comitê da ONU, e tudo indica que tentará aproveitar a instabilidade gerada pelos últimos ataques.

Assim, nos últimos dias, circularam informações de que milicianos do ISS capturaram Labbezanga, um posto-chave na fronteira entre Mali e Níger, e também tentaram atacar Ménaka, embora o Africa Corps tenha informado que a tentativa fracassou.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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