Publicado 03/02/2026 10:48

As plantas tinham um papel central na vida dos neandertais, de acordo com um estudo que combina paleobotânica e paleoarte.

'HOMEDSCAPE'
AEI

MADRID 3 fev. (EUROPA PRESS) -

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade de Múrcia combina paleobotânica e paleoarte para mostrar o papel central das plantas na vida dos neandertais. O estudo, financiado com 150.000 euros pela Agência Estatal de Pesquisa (AEI) no âmbito dos Projetos de P&D+I de Geração de Conhecimento (2022), propõe uma mudança profunda na forma de reconstruir visual e cientificamente a vida dos neandertais e outros hominídeos, colocando a vegetação e a paisagem no centro da narrativa graças à paleoarte com base científica.

Sob o título “HOMEDSCAPE: Paleobotânica e Paleoarte na compreensão das paisagens vegetais e dos cenários evolutivos no gênero Homo, com ênfase na bacia mediterrânea”, o projeto, liderado por José S. Carrión, professor de Botânica Evolutiva e referência internacional em paleobotânica, integra dados paleoecológicos, como pólen fóssil, restos vegetais, carvão vegetal e outros registros, com reconstruções visuais rigorosas para as quais se baseia no trabalho artístico de vários pesquisadores, entre eles a paleoartista Gabriela Amorós.

O resultado não é apenas uma nova iconografia, mas uma ferramenta científica capaz de gerar perguntas, detectar lacunas no conhecimento e revisar hipóteses consolidadas. “Não representamos uma única planta que não seja apoiada pelo registro fóssil, traduzimos os dados como a frequência do pólen, a ecologia das espécies, sua associação na paisagem em cenas visuais baseadas em evidências, com uma margem criativa muito limitada”, ressalta Carrión.

As imagens visuais, além do conteúdo claramente divulgativo e artístico, estão permitindo fazer novas perguntas que surgem à vista dos elementos representados e das hipóteses que foram consideradas válidas até agora. É o caso dos neandertais, que têm sido representados em espaços estepários, com uma imagem predominante dos animais da época. É essa visão zoocêntrica do passado, com grandes animais, cenas de caça e paisagens abertas e hostis, que vem sendo modificada com os trabalhos publicados sob os auspícios do HOMEDSCAPE, que mostram que os neandertais habitaram ambientes muito mais diversificados, incluindo florestas temperadas e paisagens mediterrâneas.

“Os neandertais sempre foram retratados como uma espécie associada a estepes frias e sem árvores. Mas os dados paleoecológicos indicam que eles viveram durante milhares de anos em paisagens florestais e sem florestais, o que também se encaixa com o que sabemos hoje sobre sua anatomia e sua forma de caçar”, explica o pesquisador. A VEGETAÇÃO CONDICIONAVA O COMPORTAMENTO DOS HOMINÍDEOS

As reconstruções visuais desenvolvidas no projeto mostram como a vegetação condicionava a disponibilidade de recursos, a mobilidade, as estratégias de subsistência e o próprio comportamento dos hominídeos. As plantas não eram um simples cenário, mas uma fonte de alimento, abrigo, microclima e estabilidade ecológica. Diante das imagens dos neandertais que foram historicamente condicionadas por preconceitos herdados do século XIX e os apresentavam como figuras primitivas e condenadas ao fracasso evolutivo, a pesquisa destaca sua sofisticação cognitiva, sua capacidade simbólica e seu papel como atores ecológicos plenamente integrados em suas paisagens.

Longe de ser uma ilustração decorativa, a paleoarte é aqui considerada uma extensão metodológica da paleoecologia. Ao “pensar pintando”, como reconhecem ambos os pesquisadores, as imagens permitem detectar incoerências, incertezas e novas questões que nem sempre aparecem em tabelas ou gráficos.

“Quando vemos uma cena completa, como um instantâneo do passado, somos capazes de identificar falhas no processo científico ou lacunas no registro fóssil”, apontam. Dessa forma, o desenho se torna uma forma de “verificação adicional”.

Essa abordagem permitiu, por exemplo, repensar a localização dos refúgios glaciais, tradicionalmente situados apenas no extremo sul da Europa. Os dados indicam a existência de refúgios florestais também em áreas interiores e montanhosas, com implicações importantes para a compreensão das migrações e da persistência das populações humanas.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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