MADRID 17 maio (EUROPA PRESS) -
À primeira vista, pode parecer uma cena de um filme de fantasia: um móvel de madeira fechado, como um guarda-roupa, no qual alguém entra para passar a noite. Mas a verdade é que, durante séculos, dormir assim era um costume comum em muitas partes da Europa. E não se tratava de excentricidade de nobres ou castelos: era uma prática comum em casas humildes e também em lares ricos.
Esse tipo de mobília era conhecido como cama fechada ou cama guarda-roupa, e seu design atendia a uma necessidade específica: conservar o calor em residências frias e mal isoladas. Embora hoje possa parecer uma solução claustrofóbica, durante séculos ela ofereceu uma maneira eficaz de descansar com um pouco mais de privacidade e abrigo térmico em casas onde o espaço era compartilhado com outras pessoas ou até mesmo animais.
UM ARMÁRIO PARA DORMIR (LITERALMENTE)
Conforme detalha a National Geographic, essas estruturas consistiam em caixas de madeira equipadas com portas ou cortinas que permitiam que fossem completamente fechadas por dentro. As mais simples eram comuns entre os camponeses, enquanto nas residências mais abastadas elas eram embelezadas com entalhes ou painéis pintados. Muitas vezes, eram erguidas do chão sobre pernas para impedir a entrada de umidade ou encaixadas em reentrâncias na parede, maximizando assim o espaço disponível.
Além de servir como cama, elas economizavam espaço e podiam acomodar várias pessoas, tornando o sono em grupo uma estratégia para combater as baixas temperaturas. Em alguns casos, elas eram até mesmo embutidas na parede, tornando-se uma parte estrutural da residência.
DORMIR NO INVERNO ERA UMA QUESTÃO DE SOBREVIVÊNCIA
O segredo para entender essas camas está no contexto climático. A Europa viveu a chamada "Pequena Era do Gelo" entre os séculos XVI e XIX, um período de invernos particularmente rigorosos e prolongados, o que explica por que esse tipo de cama fechada era tão útil.
Na ausência de aquecimento e isolamento térmico, "a cama se tornou um verdadeiro abrigo", diz a historiadora Nuisia Raridi, especialista em Idade Média e autora de vários conteúdos informativos nas redes sociais. Como explica Raridi, as pessoas iam para a cama com várias camadas de roupas e cobertores, e até dormiam com chapéus ou capuzes para reduzir a perda de calor pela cabeça.
PRIVACIDADE, PROTEÇÃO E ATÉ MESMO SEPARAÇÃO DO GADO
O design fechado dessas camas não apenas fornecia abrigo. Elas também garantiam alguma privacidade em residências de um andar, onde várias gerações viviam juntas. No ambiente rural, elas serviam até mesmo para separar os seres humanos do gado, que muitas vezes compartilhava o espaço sob o mesmo teto.
Essas estruturas também forneciam proteção contra correntes de ar, insetos e sujeira do ambiente, pois, quando completamente fechadas, criavam um microespaço mais higiênico e seguro do que dormir ao ar livre em um quarto.
Outra solução comum, também mencionada pelo historiador, era usar peles de animais, cortinas grossas e tecidos pesados nas paredes e no chão para isolar os quartos do frio e da umidade. Esses métodos aparentemente simples, além de servirem como decoração em ambientes aristocráticos, eram cruciais para manter as residências aquecidas e proteger seus ocupantes das baixas temperaturas externas.
Com o passar do tempo e a melhoria das condições de vida, essas camas caíram em desuso, embora ainda possam ser encontrados exemplos em museus e casas de campo históricas.
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