Publicado 03/08/2026 08:18

As glaciações do Quaternário moldaram a diversidade de amebas na Península Ibérica, segundo um estudo

Imagem de microscopia eletrônica da espécie terrestre Centropyxis orbicularis.
MILCHO TODOROV | ACADEMIA DE CIENCIAS DE BULGARIA

MADRID, 3 ago. (EUROPA PRESS) -

Um estudo conduzido pelo Real Jardim Botânico-CSIC sobre um grupo de amebas com carapaça chamadas “Arcellinida”, que acaba de ser publicado na revista “Molecular Ecology”, refuta a suposição clássica de que os micróbios estão em toda parte e abre uma nova perspectiva sobre como a árvore da vida, independentemente do tamanho, é moldada pelo clima da Terra.

“Poderíamos pensar que os organismos microscópicos que vivem no solo viajam para onde o vento os leva, misturando-se sem barreiras por continentes inteiros”, apontam os pesquisadores do estudo, que “conta uma história bem diferente”.

Ao estudar a diversidade genética dessas minúsculas criaturas ao longo da Península Ibérica, descobriu-se que a distribuição de suas populações “é profundamente marcada pelas grandes glaciações dos últimos 2 milhões de anos”.

As glaciações do Quaternário moldaram profundamente a biogeografia das plantas e dos animais. No entanto, seu impacto nos eucariotos microbianos “ainda não foi amplamente explorado”.

No estudo, os pesquisadores testaram o paradigma do “legado genético do Quaternário” (GLQ) em protistas terrestres, utilizando a distribuição da diversidade das amebas testadas da ordem Arcellinida ao longo da Península Ibérica, um refúgio glacial “bem estabelecido”.

“Durante esses períodos frios, as grandes calotas de gelo nunca chegaram a cobrir a Península, mas o clima tornou-se muito mais frio e seco. Muitas plantas e animais só conseguiram sobreviver em recantos protegidos com clima estável e ameno: os famosos refúgios glaciais. Esta nova pesquisa demonstra que os Arcellinida fizeram exatamente o mesmo”, explica o pesquisador Rubén González-Miguéns, primeiro autor do artigo publicado na revista *Molecular Ecology*.

Ao estudar seu DNA, eles encontraram várias linhagens antigas e bem diferenciadas que sobreviveram nesses mesmos recantos, “expandindo-se nos períodos mais quentes e úmidos”, acrescenta o pesquisador, que atualmente trabalha no Instituto de Biologia Evolutiva do CSIC-Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona.

O estudo revela que as grandes extensões da fria estepe pré-histórica atuaram como barreiras invisíveis, dividindo as populações e permitindo que elas evoluíssem por caminhos independentes.

Esse processo de migração das espécies não se interrompeu até os dias de hoje, já que foi observada uma invasão recente de espécies de origem mediterrânea na Cantábria, o que pode ser interpretado como um efeito das mudanças climáticas.

Para realizar o trabalho, conforme explica Emilio Cano, técnico da Unidade Técnica de Apoio à Pesquisa (UTAI) do RJB-CSIC, “foi compilado o maior conjunto de dados de diversidade genética da ordem Arcellinida até o momento, que inclui 615 amostras provenientes de diversos continentes e ecossistemas”.

Os resultados mostram que os pontos-quentes de diversidade genética intraespecífica coincidem com os refúgios ibéricos conhecidos para a flora e a fauna, o que evidencia nichos climáticos específicos de cada ecorregião.

“O trabalho derruba a antiga suposição de que os micróbios simplesmente estão em toda parte. Em vez disso, revela que mesmo algumas das formas de vida mais pequenas carregam em seus genes a marca das convulsões climáticas do passado”, destaca o pesquisador do CSIC no RJB, Enrique Lara, que coordenou o trabalho.

Dessa forma, “a Península Ibérica se destaca não apenas como refúgio de grandes mamíferos e árvores durante as glaciações, mas também como um arquivo oculto de diversidade microbiana”. “Ao colocar o foco nesses organismos tão esquecidos, o estudo abre uma nova janela para entender como toda a árvore da vida, independentemente do tamanho, foi moldada pelo clima instável da Terra”, conclui Lara.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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