Publicado 28/02/2026 05:12

As constantes tensões entre o Afeganistão e o Paquistão resultam em um novo conflito aberto.

CABUL, 27 de fevereiro de 2026 — Agentes de segurança montam guarda em um cruzamento após ataques aéreos em Cabul, Afeganistão, em 27 de fevereiro de 2026. Zabihullah Mujahid, porta-voz do governo afegão, postou em sua conta no X na manhã desta sexta-feir
Europa Press/Contacto/Saifurahman Safi

Islamabad adota uma postura de poder duro após anos de denúncias sobre o apoio do Talibã ao grupo armado TTP MADRID 28 fev. (EUROPA PRESS) -

As autoridades do Paquistão e do Afeganistão, lideradas pelo Talibã desde que assumiram o controle do país centro-asiático em agosto de 2021, em plena retirada das tropas internacionais, protagonizam as últimas horas de um novo conflito, demonstração das constantes tensões dos últimos meses na fronteira, especialmente devido aos repetidos ataques terroristas do Tehrik-i-Taliban (TTP) em solo paquistanês.

Os ataques do TTP, um grupo popularmente conhecido como talibã paquistanês — e designado por Islamabad como Fitna al Juarij para destacar que os considera extremistas desviados da linha da religião muçulmana — aumentaram nos últimos meses, deixando centenas de mortos — entre agentes de segurança e civis — na província de Jáiber Pastunjua.

Esta província, onde os pastuns são maioria — assim como em zonas do leste e sul do Afeganistão, do outro lado da fronteira —, tem sido palco de insegurança e instabilidade há anos, em meio a acusações de Islamabad contra o Talibã e a Índia por seu suposto apoio ao TTP em seus ataques, com o objetivo de minar a segurança no norte do Paquistão.

Além disso, a zona é o epicentro de uma disputa territorial derivada da falta de acordo sobre a delimitação da fronteira, marcada pela Linha Durand, estabelecida em 1893 após um acordo entre o então secretário de Relações Exteriores britânico na Índia, Mortimer Durand, e o emir afegão Abdur Rahman Jan para delimitar as esferas de influência.

Após a independência do Paquistão em 1947, Islamabad passou a reconhecê-la como sua fronteira com o Afeganistão, embora Cabul não tenha dado esse passo, o que tem causado tensões constantes, especialmente porque divide também as comunidades pashtuns e baluchis que vivem em ambos os lados da fronteira, com disputas sobre a delimitação e localização de postos fronteiriços e de segurança.

No entanto, essas disputas permaneceram relativamente controladas nos últimos anos, uma situação que mudou drasticamente nos últimos meses devido às atividades do TTP, que levaram o Paquistão a adotar uma linha muito mais dura e a lançar ameaças contra o Talibã pelo que consideram uma inação no combate ao grupo terrorista.

A insegurança no Paquistão se expandiu também para áreas do Baluchistão, que também compartilha parte da fronteira com o Afeganistão, neste caso devido aos ataques dos separatistas do Exército de Libertação do Baluchistão (BLA), que Islamabad acusa de também receber apoio da Índia, chegando a se referir ao grupo como Fitna al Hindustan para destacar o suposto apoio de Nova Délhi.

HOSTILIDADES NA FRONTEIRA O último recrudescimento das hostilidades insere-se num contexto de confrontos de diferente intensidade na fronteira desde dezembro de 2024, quando o Paquistão lançou uma onda de bombardeamentos contra a província afegã de Paktika (este), após repetidas advertências sobre uma possível intervenção por “não cumprir suas promessas” à comunidade internacional de combater o terrorismo em seu território, em referência ao TTP.

Os combates atingiram um novo nível em outubro de 2025, com um confronto terrestre em Jáiber Pastunjua que levou Islamabad a lançar bombardeios contra várias províncias e a capital, Cabul, com o objetivo declarado de matar o líder do TTP, Nur Uali Mehsud, embora o grupo tenha assegurado que ele havia sobrevivido aos ataques paquistaneses.

Os bombardeios levaram o Talibã a lançar ataques contra postos de controle do Paquistão na Linha Durand, desencadeando confrontos que se estenderam por vários dias até que as partes chegaram a um cessar-fogo com a mediação do Catar e da Turquia, embora as acusações mútuas tenham continuado desde então.

A isso se somam as críticas que Cabul e Islamabad trocam entre si em relação às atividades de outros grupos armados, incluindo o BLA, a Frente Nacional de Resistência (FNR) e a Frente pela Liberdade do Afeganistão (FLA), ambos em confronto com o Talibã e o primeiro deles considerado o sucessor natural da Aliança do Norte, que combateu os fundamentalistas ao lado dos Estados Unidos durante sua invasão do Afeganistão em 2001.

O Paquistão, que também tentou pressionar o Talibã por meio de sanções, bloqueio do comércio bilateral e fechamento da fronteira, expulsou ainda, nos últimos meses, centenas de milhares de refugiados afegãos, em uma demonstração de uma crise multifacetada que aumenta a pressão sobre Islamabad pelo que é considerado um fracasso das autoridades em lidar com a insegurança.

OS ÚLTIMOS COMBATES As conversações dos últimos meses entre o Afeganistão e o Paquistão para consolidar um cessar-fogo e resolver o litígio foram marcadas pelos referidos ataques do TTP, que levaram Islamabad a intensificar suas operações de segurança e a aprofundar suas exigências a Cabul para que resolva a situação.

Os talibãs alegaram repetidamente que não apoiam o grupo e afirmaram que se trata de um conflito interno que deve ser resolvido pelo Paquistão. De fato, o porta-voz do governo afegão, Zabihulá Muyahid, reiterou nesta sexta-feira que Cabul defende “o diálogo” e afirmou que “a guerra civil” no Paquistão “é um assunto interno” sem qualquer relação com Cabul.

A falta de entendimento sobre este ponto — com as conversações estagnadas desde novembro de 2025 — foi usada como argumento por Islamabad para as suas recentes operações no Afeganistão, incluindo uma em 21 de fevereiro que levou o Talibã a denunciar cerca de 20 civis mortos em ataques contra o que o Paquistão descreveu como bases do TTP e do Estado Islâmico.

Os talibãs apresentaram então uma “queixa formal” ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e exigiram “a cessação imediata dessas ações”, depois que as autoridades afegãs alegaram que poderiam recorrer ao seu direito de legítima defesa, passo que deram na quinta-feira com uma nova ofensiva na zona fronteiriça.

Os ataques levaram o Paquistão a lançar novamente uma extensa campanha de bombardeios — que, segundo seus dados, matou cerca de 275 supostos talibãs e “terroristas”, em referência aos membros do TTP —, em linha com a mudança de Islamabad da diplomacia para a força bruta para enfrentar o problema, algo que Islamabad já defendeu que continuará a fazer para combater o “terrorismo” nas suas fronteiras e além delas.

Os últimos bombardeios paquistaneses atingiram locais de importância simbólica, incluindo a cidade de Kandahar, considerada o berço do Talibã e onde se situa seu verdadeiro núcleo de poder, incluindo o líder supremo do grupo, o mulá Hebatullah Akhundzada, que reside na área, de onde dirige as atividades e as decisões das autoridades afegãs.

Além disso, fontes citadas pela rede de televisão afegã Amu TV indicaram que entre os alvos atacados está uma antiga residência em Kandahar do mulá Mohamed Omar, fundador do Talibã e emir do Afeganistão entre 1996 e 2001. O líder talibã, morto em 2013 devido a tuberculose — fato confirmado dois anos depois pelos fundamentalistas — continua sendo uma figura reverenciada na organização. O Paquistão enfatizou nas últimas horas que “o regime opressor talibã tem que fazer uma escolha clara: entre o TTP, o Exército de Libertação do Baluchistão (BLA), o Estado Islâmico, a Al Qaeda, terroristas e organizações terroristas, ou o Paquistão”, em clara referência a que manterá sua via militar se o diálogo solicitado pelos fundamentalistas não resultar em um acordo que esteja alinhado com seus interesses de segurança.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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