Publicado 28/08/2026 06:45

As comunidades pseudocientíficas recorrem a laços emocionais que dificultam o debate racional, segundo um estudo

Archivo - Arquivo - Homem olhando para um celular.
FILADENDRON/ISTOCK - Arquivo

MADRID 28 ago. (EUROPA PRESS) -

As comunidades pseudocientíficas no YouTube utilizam laços emocionais, como elogios e agradecimentos, o que as torna mais resistentes a argumentos racionais, segundo revela um estudo espanhol no qual participam pesquisadores da Universitat Oberta de Catalunya (UOC) e da Universidade de Sevilha.

A pesquisa, aceita para publicação na revista científica “Journal of Medical Internet Research”, conclui que as comunidades pseudocientíficas apresentam uma maior concentração de agradecimentos, elogios e expressões positivas — interações compatíveis com dinâmicas de validação mútua e vínculo emocional.

O trabalho analisou 52.412 comentários publicados entre 2011 e 2025: 20.387 associados a vídeos sobre tratamentos científicos e 32.025 vinculados a conteúdos classificados como pseudocientíficos. Para estudar como cada conversa evolui, os autores combinaram processamento de linguagem natural, mineração de dados e análise de redes. Dessa forma, não se limitaram a estudar o que os usuários diziam, mas sim que tipo de comentário se seguia a outro e como as trocas eram encerradas.

“Os resultados sugerem que algumas comunidades pseudocientíficas não se sustentam apenas pelas afirmações que compartilham, mas também pela experiência emocional que oferecem: reconhecimento, proximidade e sensação de pertencimento. Por esse motivo, uma resposta baseada exclusivamente em fornecer a informação correta pode não ser suficiente”, explica Stefan Anca, pesquisador principal do estudo, que recebeu financiamento parcial da Cátedra Telefónica da Universidade de Sevilha.

ELOGIOS E ‘EMOJIS’

Nas conversas sobre conteúdos pseudocientíficos, predominavam quatro tipos de intervenção: expressões positivas, agradecimentos, elogios e mensagens compostas exclusivamente por ‘emojis’ ou reconhecimentos breves. Nesta última categoria, os emojis eram quase sempre de caráter afetuoso, como corações ou mãos em oração. Segundo os autores, esse padrão pode refletir um estilo de interação baseado na validação mútua e nos laços socioemocionais, além de servir para reconhecer o comentário anterior e encerrar a conversa.

Por outro lado, as conversas científicas apresentavam uma estrutura mais heterogênea, com maior presença de referências a tratamentos médicos, comparações críticas e expressões tanto positivas quanto negativas. Além disso, os comentários negativos não geravam necessariamente uma escalada: em muitos casos, davam lugar a respostas neutras ou positivas antes de encerrar a troca de mensagens.

“A conversa científica parece admitir melhor a dúvida, a comparação e a avaliação dos tratamentos. Para comunicar sobre saúde com eficácia, precisamos preservar essa capacidade crítica e, ao mesmo tempo, oferecer espaços nos quais as pessoas se sintam ouvidas e acompanhadas”, acrescenta Anca.

AS ESTRATÉGIAS DE SAÚDE PÚBLICA DEVEM LEVAR EM CONTA FATORES AFETIVOS

Os autores apontam que os resultados são compatíveis com dinâmicas de reforço interpessoal e, em determinados contextos, poderiam contribuir para a manutenção de câmaras de eco. Por isso, as estratégias de saúde pública devem levar em conta não apenas a exatidão das informações, mas também os fatores afetivos e comunitários que favorecem a participação em ambientes de desinformação.

Os pesquisadores ressaltam que o estudo não permite afirmar que esses padrões provoquem uma maior difusão dos vídeos, nem pretende representar toda a discussão científica ou pseudocientífica no “YouTube”. A análise limita-se às interações entre comentaristas e não mede o alcance, as recomendações do algoritmo, o número de compartilhamentos ou a retenção de público.

“A desinformação na área da saúde não é combatida apenas com mais dados. Se a pseudociência oferece senso de pertencimento, escuta e apoio emocional, as evidências devem ser, além disso, compreensíveis, acessíveis e compartilháveis. Não se trata de diminuir o rigor, mas de comunicá-lo melhor e construir comunidades de confiança em torno de profissionais de saúde, sociedades científicas e associações de pacientes”, explica Carlos Mateos, coordenador do Instituto #SaludsinBulos e diretor da agência COM Salud.

RECOMENDAÇÕES CONTRA AS COMUNIDADES DE DESINFORMAÇÃO

O Instituto #SaludsinBulos recomenda levar em conta vários critérios para combater a desinformação em saúde no YouTube. Assim, considera necessário identificar as dúvidas, os medos e as experiências que estão por trás de uma afirmação falsa antes de responder com dados.

Além disso, destaca que a informação deve explicar de forma clara o que se sabe, o que não se sabe e por quê, sem ridicularizar nem culpar quem tem dúvidas. O instituto indica que é necessário antecipar-se às notícias falsas e ressalta que o “prebunking” permite alertar sobre as técnicas de manipulação e esclarecer as dúvidas previsíveis antes que a desinformação se espalhe.

Por outro lado, defende que os profissionais de saúde, as sociedades científicas e as associações de pacientes participem de forma coordenada e contínua, e não apenas quando surge uma crise.

Além disso, defende o uso de formatos acessíveis e compartilháveis, evitar amplificar o conteúdo falso e indicar fontes verificáveis diante de qualquer decisão relacionada à saúde.

Essas recomendações fazem parte da abordagem “Confiança na Vacinação”, iniciativa impulsionada pela #SaludsinBulos com a participação de sociedades científicas e associações de pacientes para promover a educação sobre vacinas, combater boatos e melhorar a comunicação sobre o tema.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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