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Quase nove em cada dez pessoas tiveram desconfortos no último ano, mas apenas 18% priorizam sua saúde digestiva
Especialista destaca que “todas as doenças estão relacionadas à microbiota”
MADRID, 21 out. (EUROPA PRESS) -
Apenas 36% dos espanhóis associam a saúde digestiva ao estresse ou ao estado de ânimo, e apenas 14% afirmam realizar atividades relacionadas à saúde mental para promover seu bem-estar digestivo, conforme revela uma pesquisa europeia da PrecisionBiotics, elaborada pela Ipsos.
A médica de Atenção Primária, especialista em microbiota e divulgadora de saúde Sara Marín Berbell destacou a relação bidirecional entre a microbiota intestinal e o cérebro. “É como se fosse um grupo do WhatsApp: eles estão em constante comunicação”, ressaltou ela durante a apresentação dos resultados obtidos na Espanha, que contou com a participação de 1.000 pessoas.
“Nossa microbiota é uma pequena vila e, nessa vila, temos bactérias específicas que produzem, por exemplo, neurotransmissores, (...) que são como os mensageiros do cérebro”, explicou ela, ressaltando que esses neurotransmissores transmitem sinais para o cérebro por meio do nervo vago e, na direção contrária, do cérebro para o intestino, o que gera efeitos distintos.
“Quando você está estressado, esses sinais podem chegar ao intestino e alterar nossa microbiota”, exemplificou ele, alertando que o estresse altera a motilidade intestinal. Paralelamente, quando se sofre de problemas digestivos, como inflamação, o nervo vago pode enviar o sinal de inflamação ao cérebro, desencadeando neuroinflamação e alterações psicológicas, o que pode resultar em um aumento da ansiedade, do estresse ou da confusão mental.
Da mesma forma, a relação entre o cérebro e a saúde digestiva traz repercussões positivas quando ambos são bem cuidados. Nesse sentido, Marín destacou que dar uma caminhada após a refeição ajuda na secreção de serotonina, o que favorece os movimentos intestinais e uma melhor digestão. Além disso, ele destacou que ter uma boa saúde digestiva ajuda a ficar mais calmo, em paz e com mais vitalidade.
“Eu sempre digo: quando for comer, faça três coisas. Respire: inspire contando até quatro, expire contando até quatro. A primeira garfada, mastigue 20 vezes e espere 30 segundos antes da próxima. E não fique no celular ou fazendo outra atividade, porque isso só estimula nosso nervo vago e ajuda a mantê-lo funcionando bem”, destacou ela.
No que diz respeito à alimentação, a especialista alertou sobre o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, que não beneficiam a microbiota, e a redução da ingestão de verduras. Nesse sentido, ela aconselhou incluir na dieta vegetais coloridos e fibras, além de evitar o álcool e as gorduras. Também enfatizou o papel da vitamina D para o bom funcionamento da microbiota.
DISTANÇA ENTRE CONHECIMENTO E IMPACTO
A pesquisa, cujos resultados nacionais foram apresentados nesta quarta-feira pela Farmasierra, revela que apenas dois em cada dez espanhóis acreditam ter bons conhecimentos sobre saúde digestiva, enquanto apenas 18% priorizam sua saúde digestiva no dia a dia.
Isso contrasta com o fato de que 77% consideram que a saúde digestiva é muito ou extremamente importante para seu bem-estar, bem como com a frequência dos sintomas digestivos, já que até 87% dos entrevistados afirmam ter apresentado pelo menos um deles no último ano.
Os sintomas digestivos mais comuns são os gases, que 39% dos entrevistados apresentaram nos últimos 12 meses, e as flatulências (37%), seguidos pelo inchaço abdominal (36%), pela constipação ocasional (33%) e pela diarreia ocasional (32%).
A pesquisa alerta que, para mais da metade das pessoas afetadas (53%), não se trata de episódios isolados, mas sim de sintomas recorrentes há mais de um ano. Além disso, 57% afirmam que esses sintomas têm um impacto moderado ou grave em sua vida cotidiana.
Sara Marín atribuiu a falta de cuidados com a saúde digestiva ao ritmo de vida, embora a população conheça sua importância. “As pessoas não têm consciência — e não terão até que alguns anos se passem — do que pode acontecer quando não cuidamos da nossa microbiota e da nossa alimentação no dia a dia”, afirmou.
“Todas as doenças estão relacionadas à microbiota”, enfatizou a especialista, que citou evidências sobre o Alzheimer e o Parkinson. “Desde um corte no dedo até uma doença autoimune, como a doença de Crohn”, precisou ela, acrescentando que também são conhecidos efeitos no autismo.
Por outro lado, os resultados revelam que os sintomas digestivos também afetam as crianças. 67% dos pais de crianças entre 3 e 12 anos que apresentaram sintomas digestivos percebem algum impacto em sua vida cotidiana, e 18% observam efeitos em sua capacidade de concentração.
PROBIÓTICOS, POUCO COMPREENDIDOS
Marín destacou os benefícios que os probióticos trazem para manter o equilíbrio da microbiota. No entanto, ele afirmou que os profissionais de saúde “ainda não estão conscientes” da necessidade de prescrevê-los.
Na população em geral, a pesquisa revela que eles são conhecidos, mas pouco compreendidos. 52% dos usuários de suplementos alimentares afirmam tomar probióticos; 56% dos espanhóis já ouviram falar deles, mas não sabem realmente para que servem; e apenas 7% consideram-se bem informados sobre o assunto.
Nesse ponto, destaca-se o papel do farmacêutico. Mais especificamente, 23% dos usuários de probióticos indicam que a recomendação desse profissional foi um fator decisivo para começarem a consumi-los.
O presidente da Farmasierra, Tomás Ollero, enfatizou a importância de manter a microbiota intestinal “em equilíbrio” e esclareceu que tanto as bactérias boas quanto as ruins são necessárias. “A microbiota é importante porque precisamos dela. Se ela nos for retirada, morremos”, afirmou.
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