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MADRID 15 jun. (EUROPA PRESS) -
A Associação Espanhola de Pediatria (AEP) lembrou, em seu 72º Congresso, que a ética médica exige mais do que apenas neutralidade e alertou que as crianças não podem se tornar “vítimas colaterais da indiferença global”.
As guerras estão transformando a infância de milhões de crianças em todo o mundo e, além das vítimas diretas da violência, os conflitos armados destroem sistemas de saúde, interrompem programas de vacinação, agravam a desnutrição, dificultam o acesso à água potável e deixam “profundas sequelas físicas e emocionais que podem acompanhar as crianças por toda a vida”.
Segundo dados da UNICEF, mais de 470 milhões de crianças vivem atualmente em zonas afetadas por conflitos armados, um número recorde que representa uma em cada cinco crianças no mundo.
Nesse sentido, a AEP considerou fundamental dar visibilidade ao impacto dos conflitos armados sobre a infância e promover uma resposta integral que inclua não apenas atendimento de emergência, mas também acesso à água, nutrição adequada, recuperação dos sistemas de saúde, apoio psicológico especializado e vigilância epidemiológica contínua.
A médica e membro do Comitê de Cooperação Internacional da AEP, Maite De Aranzabal, explicou que, quando as pessoas pensam em saúde infantil, costumam pensar em doenças, vacinas ou tratamentos e, no entanto, a saúde de uma criança também “depende do acesso à água, à alimentação, à educação e a um ambiente seguro”.
Os conflitos armados expõem milhões de menores a ferimentos traumáticos, queimaduras, amputações, deslocamentos forçados e violência. Por sua vez, o diretor de Cooperação Internacional e Ação Humanitária da Save the Children Espanha, Vicente Raimundo, detalhou que o desenvolvimento das crianças as torna especialmente vulneráveis a armas explosivas, que causam lesões mais graves, maior risco de traumatismos cranioencefálicos, hemorragias, queimaduras extensas e sequelas permanentes.
De acordo com os dados apresentados durante a sessão, entre 2020 e 2025, mais de 67.000 crianças morreram ou ficaram feridas por armas explosivas em conflitos armados. Somente em Gaza, mais de 50.000 menores haviam morrido ou ficado feridos até setembro de 2025, tornando-se um dos cenários “mais devastadores para a infância das últimas décadas”.
DETERIORIZAÇÃO PROGRESSIVA DAS CONDIÇÕES DE VIDA
Segundo o coordenador de emergências da Médicos Sem Fronteiras, Aitor Zabalgogeascoa, às consequências físicas soma-se a deterioração progressiva das condições de vida.
“A destruição de hospitais, centros de saúde, redes de água e saneamento dificulta o acesso à assistência médica e favorece o surgimento de doenças infecciosas como a poliomielite, a cólera, a hepatite A, a sarna ou as diarreias em massa associadas ao consumo de água contaminada”, alertou.
Além disso, o colapso dos sistemas de saúde deixa sem tratamento crianças com doenças crônicas como diabetes, asma, epilepsia ou câncer.
“A insegurança alimentar e a desnutrição se tornaram uma das principais ameaças à sobrevivência infantil em inúmeros contextos de conflito, especialmente durante os primeiros anos de vida”, continuou Zabalgogeascoa, já que, conforme ele apontou, a destruição das plantações, as dificuldades de acesso aos alimentos e as restrições à ajuda humanitária comprometem o crescimento e o desenvolvimento de milhões de crianças.
Além das consequências físicas, a guerra deixa profundas sequelas psicológicas e emocionais. O medo constante, a perda de familiares, o deslocamento forçado, a interrupção da escolaridade e a exposição contínua a situações traumáticas podem alterar o desenvolvimento emocional e neurológico das crianças.
Os especialistas alertaram que o estresse tóxico prolongado durante a infância aumenta o risco de transtornos de saúde mental, dificuldades de aprendizagem e problemas de desenvolvimento que podem persistir por anos. Em muitos contextos humanitários, além disso, os serviços especializados de saúde mental pediátrica são praticamente inexistentes.
“As crianças não perdem apenas seus lares ou suas escolas. Em muitas ocasiões, elas também perdem as condições necessárias para se desenvolver, aprender e construir um projeto de vida”, destacou Maite de Aranzabal.
Durante a sessão, os participantes insistiram que a proteção da infância em contextos de conflito deve fazer parte da agenda da saúde global e da responsabilidade dos profissionais de saúde.
“A ética médica exige de nós algo mais do que neutralidade. Defender o direito de toda criança, seja de onde for e viva onde viver, à saúde, à segurança e à dignidade não é uma postura política; é um imperativo profissional”, concluiu De Aranzabal.
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