DAINA LE LARDIC / PARLAMENTO EUROPEO
BRUXELAS 21 jan. (EUROPA PRESS) - A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, alertou nesta quarta-feira, durante a sessão plenária do Parlamento Europeu, que o mundo está passando por uma mudança “permanente” na ordem mundial, pela qual se impõe o poder da “força bruta” — seja econômica, militar ou geopolítica —, e apelou ao reforço da “independência” da União Europeia e à “revisão da sua estratégia global de segurança”. Desta forma, a chefe do Executivo comunitário defendeu que é uma “realidade” e uma “necessidade” que a Europa “acelere” o impulso para a independência económica, de segurança, tecnológica e democrática. “Temos que estar em boa forma se quisermos moldar o mundo que nos rodeia”, reforçou.
Assim, ela insistiu que, em um mundo “cada vez mais anárquico”, a Europa precisa de “suas próprias fontes de poder”, entre as quais ela enumerou uma economia forte, uma sólida capacidade de inovação, sociedades unidas com altos níveis de educação, talento e sistemas de saúde e, “acima de tudo, uma capacidade real de se defender”.
Nesse contexto, a conservadora destacou a importância da “independência” europeia e pediu que ela seja uma “oportunidade” para construir uma União mais forte, disposta a “abandonar a cautela tradicional” e “transformar a forma de pensar e agir”. “O mundo muda mais rápido do que nossa mentalidade”, alertou.
A chefe do Executivo comunitário também abordou a crise na Groenlândia, evitando o confronto direto com os Estados Unidos, país aliado com o qual disse que a Europa “não só está alinhada, mas também trabalha em conjunto” no âmbito da OTAN, para garantir a segurança no Ártico.
No entanto, ela quis deixar claro que a Groenlândia é um povo “livre e soberano”, com direito à integridade territorial, e que somente seus cidadãos poderão decidir sobre seu futuro. Ela também se referiu, sem mencioná-la expressamente, à ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de tributar com novas tarifas as exportações dos países que participaram de manobras militares na Groenlândia.
Von der Leyen considerou “inadequado” ativar tarifas adicionais e repetiu a advertência que fez na véspera em Davos (Suíça) sobre o perigo de que uma escalada entre aliados só possa “encorajar os adversários” comuns. “Estamos diante de uma encruzilhada, a Europa sempre prioriza o diálogo e as soluções, mas está absolutamente preparada para reagir, se necessário e sem demora, de forma unida e mostrando determinação”, afirmou, após lembrar que nesta quinta-feira os chefes de Estado e de Governo europeus se reunirão em Bruxelas em uma cúpula extraordinária convocada pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, para coordenar a resposta à crise da Groenlândia.
INVESTIMENTO E MAIS APOIO DA UE À GROENLÂNDIA Assim sendo, a ex-ministra da Defesa alemã garantiu que a União Europeia aumentará “massivamente” seus investimentos na ilha do Ártico para apoiar a economia e as infraestruturas locais, embora não tenha dado números além de lembrar que Bruxelas abriu uma representação na Groenlândia há dois anos e que a proposta para o quadro orçamentário pós-2027 já inclui um aumento dos fundos para este território autônomo dinamarquês.
Ela também apontou a necessidade de destinar parte dos gastos europeus com defesa à compra de equipamentos específicos para reforçar a segurança no Ártico, bem como reforçar os acordos de segurança com o Reino Unido, Canadá, Noruega e Islândia, entre outros.
De qualquer forma, Von der Leyen defendeu perante o plenário do Parlamento Europeu que a União deve “reavaliar a sua estratégia de segurança global” e tomar medidas para “se adaptar às novas realidades dos dias de hoje”.
“O mundo mudou tão rapidamente que a Europa deve se adaptar às mudanças”, argumentou, para depois pedir que, apesar da situação na Groenlândia, outras frentes não sejam negligenciadas, como, por exemplo, o apoio à Ucrânia.
A presidente da Comissão aproveitou seu discurso para defender também o controverso acordo comercial com o Mercosul, que assinou na semana passada com Costa no Paraguai, apesar da forte rejeição que o pacto gera na Europa e da oposição de meia dúzia de países, entre eles França, Polônia e Irlanda.
Von der Leyen definiu-o como um acordo “histórico” com enormes benefícios para os europeus e sua economia, ao mesmo tempo em que apontou que outro grande acordo, o que o bloco está negociando com a Índia, está prestes a ser concluído. “Na próxima semana, estaremos na Índia para fechar um acordo inédito”, confiou aos eurodeputados.
“Acredito que o acordo (com o Mercosul) será benéfico para toda a nossa economia e para cada um dos Estados-membros, e que permitirá proteger a Europa dos riscos que enfrenta, garantindo sua prosperidade e segurança”, insistiu Von der Leyen, que na quinta-feira enfrentará duas moções de censura no Parlamento Europeu, uma delas relacionada justamente a este acordo.
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