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MADRID, 27 ago. (EUROPA PRESS) -
Mais de 1.400 pessoas morreram entre os meses de abril e junho de 2026 no Haiti, vítimas da violência desencadeada pelas gangues que, conforme alertou a Organização das Nações Unidas nesta quarta-feira, está se “espalhando geograficamente” pelo país, em um momento em que as autoridades intensificam sua campanha contra elas em Porto Príncipe, a capital.
Mais especificamente, o Escritório Integrado das Nações Unidas no Haiti (BINUH, na sigla em francês) estimou, em um relatório, que pelo menos 1.408 pessoas foram assassinadas e 656 ficaram feridas no segundo trimestre do ano. Esses dados representam uma redução de cerca de 14% em relação aos três meses anteriores, embora a ONU tenha afirmado que essa queda “modesta” “oculta realidades muito diferentes de acordo com as regiões”.
Desse total de mortos e feridos, esclarece a BINUH, “mais da metade é atribuída às gangues”, enquanto “cerca de 40%” foram registrados em operações das forças de segurança haitianas e 5% estão relacionados a grupos de autodefesa e atos de “justiça popular”.
“Esses números demonstram que a população continua pagando um preço inaceitável pela violência”, lamentou o representante máximo da ONU no Haiti, Carlos Ruiz Massieu, em um comunicado que acompanha o relatório.
Vale lembrar que, nesta mesma semana, gangues criminosas perpetraram em Kenscoff, uma localidade situada nos arredores de Porto Príncipe, um ataque que resultou em 47 mortos, dos quais 22 foram “executados” dentro de uma igreja na qual haviam se refugiado.
UMA PRESSÃO QUE “DESLOCAR” A VIOLÊNCIA
O escritório integrado alertou, ainda, que, embora as operações de segurança “tenham reduzido a atividade das gangues em algumas partes da região metropolitana de Porto Príncipe, especialmente em Delmas e Tabarre”, essa “pressão” resultou, em alguns casos, em um “deslocamento” da violência, em vez de sua supressão.
É o caso da vasta planície de Cul-de-Sac e do município de Cidade Soleil, na capital, onde gangues rivais travaram confrontos “de extrema violência” pelo controle de territórios e rendas ilícitas, causando 463 mortes, além de centenas de pessoas “feridas ou estupradas” e “mais de 18 mil moradores” que fugiram de suas casas.
Parte dessa intensidade dos confrontos foi atribuída no referido relatório “às operações de segurança realizadas em outras partes da capital, que empurraram membros de gangues para a Planície de Cul-de-Sac”, uma vez que essa zona ocupa uma posição “estratégica” ao longo de dois grandes eixos que conectam o porto de contêineres da capital e o terminal petrolífero de Varreux ao norte do país.
Da mesma forma, fora de Porto Príncipe, as gangues “continuaram ganhando terreno”, segundo o referido documento das Nações Unidas, que cita como exemplo o caso de Artibonite, uma importante região agrícola do noroeste do país, onde grupos armados atacaram localidades, matando moradores em suas próprias casas e agricultores que trabalhavam em seus campos.
Outro indício disso pode ser observado nas diversas incursões, desta vez mais ao sul, realizadas pela gangue Village de Dieu nos arredores de Séguin, uma área até então praticamente livre desse tipo de violência. Essas incursões, segundo a BINUH, “podem refletir um desejo de encontrar novas fontes de renda, especialmente por meio do controle das estradas que levam ao porto de Marigot”.
RISCOS DA RESPOSTA ARMADA
Esse contexto evidencia, segundo o texto das Nações Unidas, que “enquanto as autoridades intensificam sua campanha, os civis também ficam presos nas operações destinadas a expulsar as gangues”.
A esse respeito, a BINUH destacou que “mais de 800 pessoas morreram ou ficaram feridas” em operações das forças de segurança durante o trimestre, as quais incluem o uso de drones explosivos por uma força especial do governo composta por policiais haitianos e membros de uma empresa militar privada estrangeira.
Desse total, pelo menos 95 das vítimas “não tinham qualquer vínculo com as gangues”, acrescenta o documento, que, por sua vez, ressalta que a ONU “não recebeu nenhuma informação que indique que as autoridades tenham aberto investigações sobre as mortes e ferimentos causados durante as operações de segurança, incluindo aquelas que envolvem a empresa militar privada”.
Esse tipo de violência analisado pela BINUH revela que o desafio no país “já não consiste apenas em recuperar bairros de Porto Príncipe”, na medida em que as gangues “se adaptam à pressão, buscam novos territórios e novas fontes de renda, enquanto os métodos utilizados contra elas colocam os civis em risco”.
A menção, por parte do Escritório das Nações Unidas, a uma “empresa militar privada” poderia estar relacionada à Vectus Global, criada pelo fundador da controversa Blackwater, Erik Prince, e que, em 2025, assinou um acordo de colaboração com as autoridades haitianas.
De fato, em março de 2026, a ONG Human Rights Watch (HRW), em uma denúncia sobre as mortes causadas por drones em operações do Executivo haitiano, identificou uma dessas “empresas privadas” que colabora com o governo haitiano como a Vectus Global, que possui licença para exportação de serviços de defesa no país, conforme confirmado pelo embaixador dos Estados Unidos no Haiti, Henry Wooster.
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