Publicado 27/10/2026 15:48

VÍDEO: Os israelenses se mobilizam em massa para votar nas eleições: “O futuro dos meus bisnetos está em jogo”

27 de outubro de 2026, ---, Jerusalém: Pessoas fazem fila em um local de votação em Jerusalém Ocidental durante as eleições legislativas de Israel. Foto: Saeed Qaq/JNA via ZUMA Press Wire/dpa
Saeed Qaq/JNA via ZUMA Press Wir / DPA

A participação atinge níveis recordes, impulsionada por quem aposta na mudança, enquanto Netanyahu convoca seus eleitores a “acordarem”

TEL AVIV, 27 out. (Da correspondente especial da EUROPA PRESS, Leyre Guijo) -

A ideia de que o futuro de Israel está em jogo parece ter calado fundo entre os israelenses, que estão indo em massa às urnas desde a abertura dos locais de votação às 7h, o que faz prever uma participação recorde nessas eleições, as primeiras após o atentado de 7 de outubro de 2023, que nada mais são do que um referendo sobre Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro que mais tempo ocupou o cargo desde a independência do país em 1948.

“Nestas eleições está em jogo o futuro dos meus bisnetos, dos meus netos e de todos nós”, resume Olga Reznik, que chegou da Argentina há 27 anos e agora mora em uma casa de repouso para pessoas de baixa renda em Kfar Sava, perto de Tel Aviv. “É muito importante saber que meus bisnetos poderão viver em um lugar democrático, livres”, afirma ela, denunciando que Israel é “uma semiditadura” e que Netanyahu já governa há anos demais. “Precisamos de uma mudança”, defende.

Assim como ela, muitos acreditam que o país não pode continuar como até agora, com o mesmo governo no poder. Isso explicaria por que cerca de 80 mil israelenses que residem fora do país voaram expressamente para poder votar, já que não têm a opção de fazê-lo pelo correio, e por que a taxa de participação está atingindo níveis históricos.

De acordo com os dados mais recentes da Comissão Eleitoral Central, até as 16h, 55,7% dos mais de 7,3 milhões de israelenses convocados às urnas haviam votado — o maior número desde que há registros, em 1973. Em Tel Aviv, cidade muito mais liberal e laica, a participação é de 50,5%, enquanto em Jerusalém, onde Netanyahu e os partidos religiosos têm mais apoio, ela se situa em 47,7% e em Haifa, em 46,3%.

Em 2022, quando a participação foi de 70,6%, a esta hora já se registrava 47,5%; e, como as seções eleitorais só fecham às 22h, tudo indica que será atingido um recorde, o que, a priori, beneficiaria a oposição.

PREOCUPAÇÃO DE NETANYAHU

É assim que o próprio Netanyahu também entende a situação, tendo pedido aos eleitores do Likud que “acordem” após constatar que há “filas enormes” nos setores árabes-israelenses, cujos partidos poderiam ser fundamentais para a formação do próximo governo caso a coalizão liderada pelo ex-chefe do Exército Gadi Eisenkot não consiga os 61 assentos necessários. “Se não formos votar agora, nos depararemos com um governo dos partidos árabes”, alertou ele nas redes sociais. O ministro de extrema direita Itamar Ben Gvir também convocou seus apoiadores a irem votar.

A preocupação teria levado o Likud a solicitar a prorrogação do horário de votação, segundo informa o “Jerusalem Post”, um pedido que também foi apoiado pelo partido de Ben Gvir e por outro dos parceiros da coalizão, o Shas. Seu líder, Arye Deri, reconheceu em um comunicado que “a alta participação nos redutos da esquerda e no setor árabe é muito preocupante”. “Infelizmente, em nosso lado, entre os haredim e nos redutos da direita, há uma espécie de complacência”, lamentou.

No entanto, o Yashar, partido de Eisenkot, rejeitou essa petição, alegando que “não ocorreu nenhum incidente incomum que justifique essa petição”, sobre a qual a Comissão Eleitoral teria de se pronunciar. Na opinião do partido de centro-direita, o que o Likud busca é “lançar as bases para questionamentos sobre a integridade das eleições, em linha com as mentiras que Netanyahu vem espalhando desde esta manhã”.

A afluência tem sido alta desde as primeiras horas da manhã e, em algumas seções eleitorais, foi preciso esperar por horas, como em uma das localizadas em Florian, um bairro bastante heterogêneo de Tel Aviv, onde não era possível encontrar nenhum cartaz de Netanyahu ou de seus parceiros de coalizão nas imediações.

“Parece que mais pessoas estão vindo votar, especialmente considerando que, da última vez, a porcentagem de participação em Tel Aviv foi bastante baixa”, confirma à Europa Press Uzi Ron, que faz parte de uma organização civil encarregada de zelar para que o dia eleitoral transcorra sem contratempos e que, embora seja permitido tentar convencer aqueles que chegam para votar ainda sem ter tomado uma decisão, não se exerça nenhum tipo de pressão. “Aqui não houve incidentes”, esclarece.

NETANYAHU TEM QUE SAIR

Maya foi uma das pessoas que foram votar naquele seção eleitoral e votou na oposição. Para essa israelense que chegou da Argentina há 20 anos, “não faz sentido” que Netanyahu esteja no cargo há tantos anos — de 2009 até agora, embora com uma breve interrupção em 2021 e, anteriormente, entre 1996 e 1999— e que também não tenha sido submetido a um “impeachment” pelo 7 de outubro.

Essa israelense considera que seu país tem um “governo fascista”, se preocupa com o fato de que “os religiosos estão ocupando o lugar dos leigos” e com a violência contra os palestinos na Cisjordânia, e aposta na mudança. “Só tirar Netanyahu do poder já é muito”, ressalta ela, embora admita que “a mudança vai ser bem gradual, mas pelo menos trocar as pessoas já será um primeiro passo”. “Fazer parte de um lugar onde sei que as pessoas vão lá e maltratam outras pessoas não condiz com meus ideais”, enfatiza.

Com essas eleições, ficará claro “se este é um país democrático ou não, se é um país comprado como outros no mundo ou se é um país em que o cidadão vota por conta própria”, observa, por sua vez, Débora Finguerot, que conta ter chegado a Israel vinda de sua terra natal, a Argentina, com quatro filhos, logo após o assassinato do primeiro-ministro Isaac Rabin. “Foi muito significativo para mim”, confessa.

Para Débora, que também mora na residência de Kfar Sava, uma das coisas que mais a preocupa é a educação. “Neste país, que querem transformar de um país pluralista e laico em um país religioso, a educação é a base para tudo o mais”, adverte ela, mostrando-se também muito crítica em relação à situação privilegiada em que vivem os ultraortodoxos. “Eles podem continuar vivendo neste país, mas como todos nós: pagando impostos, trabalhando e servindo no Exército. Isso é tudo o que pedimos nós que estamos votando pela democracia”.

Também para Marta Klipen essas são as eleições “mais importantes, porque há muito em jogo: a democracia, a troca de pessoas no governo, a guerra, a segurança... Já passamos por muita coisa aqui, muitas mortes, e queremos estabilidade”. Nascida na Argentina, ela chegou a Israel vinda da Venezuela e afirma que o que os israelenses querem é “tranquilidade e paz”. “Já são muitos anos com a mesma pessoa, é preciso uma mudança”, defende.

Nem todos pensam como ela. Asher Adif votou em “Bibi”, como os israelenses chamam popularmente seu primeiro-ministro, porque considera que ele é “um grande líder” e porque quer que ele “acabe com o problema” de o Irã poder adquirir uma bomba nuclear. “Só Trump e Bibi podem fazer essas coisas”, afirma ele, depois que o presidente dos Estados Unidos deu seu apoio ao primeiro-ministro israelense para esta disputa eleitoral. “Portanto, essas eleições servem para garantir que ele faça isso”, acrescenta.

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