Europa Press/Contacto/Vuk Valcic
MADRID, 20 ago. (EUROPA PRESS) -
A Universidade de Ghent suspendeu nesta quinta-feira um de seus pesquisadores no âmbito de uma investigação disciplinar contra ele, após acusar de plágio o sociólogo e professor britânico de Cambridge Jason Arday, que foi encontrado morto em sua residência na semana passada em Battersea, ao sul de Londres.
“Como parte desse processo, a universidade está avaliando se há motivos suficientes para encaminhar o caso ao órgão disciplinar competente para análise posterior. Enquanto aguarda os resultados dessa investigação preliminar, a Universidade de Gante suspendeu o funcionário como medida cautelar”, informou em comunicado.
A universidade havia manifestado sua consternação no dia anterior pela morte de Arday — cujo caso continua sob investigação pelas autoridades britânicas —, transmitindo suas condolências aos familiares, amigos e alunos.
“A Universidade de Gante defende o respeito à dignidade humana e se opõe à discriminação, ao ódio e ao racismo. Atribuímos grande importância à liberdade acadêmica e ao livre debate acadêmico, mesmo quando são expressas opiniões controversas. No entanto, essa liberdade não é ilimitada; ela acarreta responsabilidade e pode ser restringida para proteger os direitos dos outros”, afirmou.
Nesse sentido, ele fez um apelo à “reflexão” à luz dos fatos. “Esperamos que o ocorrido sirva de lição sobre como nos tratamos uns aos outros, tanto dentro quanto fora do âmbito acadêmico, especialmente quando as pessoas se veem envolvidas em controvérsias públicas”, acrescentou.
Embora a Universidade de Ghent não tenha identificado o pesquisador, o afetado confirmou a decisão em suas próprias redes sociais. “Acabei de ser suspenso pela Universidade de Ghent. É quase certo que serei demitido. A decisão foi tomada pela reitora Petra De Sutter, uma ex-líder do Partido Verde”, afirmou Nathan Cofnas nas redes sociais.
O CASO DE ARDAY
Arday, de 41 anos, renunciou ao cargo de professor de Sociologia da Educação em Cambridge após as acusações de plágio contra ele. Sua nomeação como o professor negro mais jovem da história de Cambridge, aos 37 anos em 2023, foi aclamada na época como um marco progressista.
Tanto ele quanto sua família denunciaram ter sido vítimas de uma intensa campanha de assédio da mídia depois que Cofnas divulgou em seu blog que boa parte de sua tese de doutorado continha trechos copiados de outros autores, conforme constatado por um software de detecção de plágio.
Cofnas, identificado como “realista racial” e norte-americano, publicou um ensaio em seu blog no qual afirmava que, se apenas a meritocracia prevalecesse, as pessoas negras “desapareceriam de quase todos os cargos de destaque fora do âmbito esportivo e do entretenimento”. Em julho de 2024, o Emmanuel College — que faz parte de Cambridge — o expulsou, alegando que seus escritos entravam em conflito com seus valores de diversidade.
Arday admitiu erros em seu trabalho e declarou ao jornal “The Times”, em uma entrevista, que assumia sua responsabilidade, embora negasse as acusações de plágio. “Desde que cheguei a Cambridge, tem havido uma campanha muito bem orquestrada e coordenada para me destituir do meu cargo”, disse o acadêmico.
O professor apontou “motivações raciais” e afirmou ter se tornado o “alvo das críticas” devido às políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) nas universidades, já que uma revisão realizada no início deste ano pela Universidade John Moores de Liverpool, onde concluiu seu doutorado, confirmou a decisão de conceder-lhe o título.
Cofnas também questionou Arday — diagnosticado com autismo quando criança e que chegou a carregar a tocha olímpica nos Jogos de Londres em 2012 — por informações de sua biografia pessoal relacionadas a uma arrecadação de fundos para instituições de caridade e suas conquistas em maratonas.
A Universidade de Cambridge anunciou no início de agosto que conduziria uma investigação interna após receber “novas informações” sobre suas notas acadêmicas e nomeações, bem como sobre “várias denúncias” de má conduta. Em seguida, Arday renunciou ao cargo.
A ONG Good Law Project denunciou que mais de 240 artigos foram publicados na mídia em um período de 22 dias — grande parte deles em tablóides — sobre as acusações. “As matérias sobre Jason geravam cliques e até mesmo veículos como o ‘The Times’ publicaram anúncios pagos para seus artigos”, criticou a ONG.
Centenas de pessoas se reuniram esta semana na Praça de Trafalgar, em Londres, convocadas pela ONG Stand Up to Racism (De pé contra o racismo, em português) para homenagear Jason Arday e denunciar a campanha de ódio racial contra ele.
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