Publicado 21/04/2026 09:43

A UNICEF alerta para uma situação "muito crítica" em Gaza e afirma que a trégua não se traduziu em "uma melhora"

A chefe do escritório da UNICEF em Gaza pede ajuda "em grande escala" e alerta que 90% das crianças sofrem de problemas de saúde mental

Archivo - Arquivo - A chefe do escritório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) na Faixa de Gaza, Sonia Silva, durante um evento em Madri, em 21 de abril de 2026
EUROPA PRESS - Arquivo

MADRID, 21 abr. (EUROPA PRESS) -

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) alertou nesta terça-feira que a situação na Faixa de Gaza continua “muito crítica”, apesar do cessar-fogo em vigor desde outubro de 2025, que não se traduziu em uma “melhoria” das condições da população no enclave palestino, ao mesmo tempo em que reclamou a entrega de ajuda “em escala” para atender às necessidades e melhorar a qualidade de vida das crianças, com nove em cada dez sofrendo de problemas de saúde mental devido à ofensiva de Israel.

“Embora comemoremos que haja um cessar-fogo, a situação não melhorou e a vida continua sendo muito difícil para as mais de 800 mil crianças que vivem amontoadas em campos (de deslocados)”, disse Sonia Silva, chefe do escritório da UNICEF em Gaza, que lamentou nesta terça-feira, durante um evento na sede da organização em Madri, que essas condições de vida “tornam muito difícil para uma criança ter uma vida normal”.

Assim, ela destacou que os ataques do Exército de Israel, “embora tenham diminuído, continuam ocorrendo”, antes de condenar a recente morte de dois motoristas contratados pela UNICEF no enclave durante um bombardeio. Nesse sentido, ela estimou em cerca de 600 o número de trabalhadores humanitários mortos desde o início da ofensiva israelense em resposta aos ataques de 7 de outubro de 2023.

“É muito complexo entender de fora tudo o que continua sendo vivido e as consequências da guerra”, afirmou Silva, que insistiu na necessidade de que as partes “cumpram os acordos de cessar-fogo, passem para a fase dois (da proposta dos Estados Unidos para o futuro de Gaza) e, acima de tudo, haja um maior fluxo de ajuda humanitária”.

Nesse sentido, destacou a importância do setor privado nesses esforços para enviar a Gaza materiais e bens que não entram por meio de organizações humanitárias, incluindo alguns alimentos ou produtos de higiene, itens que considera essenciais para “dignificar a vida das pessoas”.

Silva enfatizou a necessidade de “buscar soluções mais duradouras” para a população de Gaza, algo que passa também por “melhorar as condições dos abrigos”, dado que milhares de pessoas deslocadas vivem em barracas em condições precárias, o que se refletiu em mortes durante o inverno por hipotermia e desabamentos de estruturas danificadas pelos ataques de Israel.

NECESSIDADE DE AUMENTAR AS EVACUAÇÕES MÉDICAS

“As necessidades são imensas”, reconheceu, após indicar que a ajuda que está chegando atualmente “não é suficiente”, especialmente em um contexto marcado por casos de desnutrição e doenças transmissíveis devido às más condições de vida, razão pela qual pediu aos países da União Europeia (UE) que aumentem seu apoio humanitário.

Dessa forma, ele fez referência aos casos de evacuações médicas de pacientes, com mais de 14.000 pessoas em listas de espera, incluindo 4.000 crianças, um aspecto em que destacou o trabalho da Espanha ao aceitar a entrada dessas pessoas no país para receber tratamento médico.

“A Espanha tem sido um dos países mais receptivos em questões de evacuações médicas, mas isso é insuficiente”, destacou Silva, que observou que os trabalhadores humanitários sofrem “muita frustração” com essa situação, que depende não apenas da retirada das restrições por parte de Israel, mas também da aceitação dessas pessoas pelos países de acolhimento.

Silva afirmou que há países que limitam essas entradas pelo número de crianças ou por “certos perfis”, ao mesmo tempo em que “são priorizados os casos mais extremos” e se aposta no fato de que as crianças possam ir acompanhadas por suas famílias, uma situação agravada pela precariedade da infraestrutura de saúde devido aos ataques israelenses e pela falta de materiais para renovar equipamentos, entre os quais se destacam os geradores para manter o funcionamento desses centros e os sistemas de água e saneamento.

“Tanto nos serviços essenciais de água quanto nos hospitais, os geradores elétricos estão em condições críticas”, disse ela, acrescentando que também não foi possível importar painéis solares ou outro tipo de equipamento, razão pela qual argumentou que “é muito importante” garantir que, na fase dois do plano para Gaza, esses materiais entrem no enclave palestino.

A EDUCAÇÃO, CHAVE PARA O FUTURO

Silva também se referiu à situação do sistema educacional na Faixa, uma vez que as crianças estão há mais de dois anos sem poder frequentar a escola em condições normais, situação que se agrava ainda mais após os impactos sofridos durante a pandemia de coronavírus entre 2020 e 2021.

“Para elas, ir à escola é esperança”, explicou. “Lá eles fazem amigos, podem ter perspectivas de futuro, como qualquer menino e menina, e como qualquer menino e menina merece”, disse ele, antes de ressaltar que “é muito importante não esquecer as crianças de Gaza, que foram vítimas deste conflito”.

Nesse sentido, ela destacou que “nove em cada dez crianças têm problemas de saúde mental”, especialmente devido ao impacto do conflito. “Isso pode ser percebido em seu comportamento, na capacidade de atenção e concentração que elas demonstram”, relatou.

Por isso, ele destacou a importância do trabalho de apoio psicológico para “começar a se recuperar de tudo o que viveram”, embora tenha afirmado que isso se torna complicado devido à incerteza existente diante da fragilidade do cessar-fogo e das dúvidas sobre se isso se traduzirá em uma paz duradoura.

“Nossos próprios colegas nos dizem: ‘Não consigo começar a me recuperar até saber o que vai acontecer’”, indicou Silva, que lembrou que há mais de 40 mil crianças órfãs “de um ou ambos os pais” devido aos ataques israelenses, que também deixaram “10% das crianças” com deficiência, por isso é necessário o fornecimento de cadeiras de rodas e próteses, bem como “um apoio geral”, já que “as consequências que enfrentam são para toda a vida”.

Diante dessa situação, especialmente no plano psicológico, ele explicou que a UNICEF tem entre suas estratégias de resposta os “espaços de aprendizagem, por meio da brincadeira”, enquanto equipes dedicadas a identificar o nível de necessidades trabalham nas escolas por meio de um “sistema de referência”. Assim, ele afirmou que essas atividades “geram esperança” para que as crianças “possam começar a ter uma vida como qualquer outra criança”.

Silva lembrou que apenas 50% das cerca de 600 mil crianças em idade escolar têm acesso à educação e destacou que a UNICEF trabalha para “aumentar” essa porcentagem, embora tenha reconhecido problemas de “espaço”, que “é muito limitado”. Além disso, há escassez de recursos para “incentivar os professores”, a que se somam as condições precárias, com crianças sentadas no chão para poderem assistir às aulas.

“É muito cansativo ficar quatro horas (sentado no chão), porque não há material suficiente”, disse ele. “Precisamos que esse tipo de material chegue, coisas tão básicas que podem fazer a diferença”, afirmou, algo que poderia “marcar a diferença”, especialmente nos esforços para melhorar a saúde mental das crianças em Gaza.

Por fim, ele destacou que a entrada de ajuda registrou uma “melhoria” após o cessar-fogo, embora tenha enfatizado que “não é suficiente” e que “é necessário em escala”. “Muitas vezes chegam suprimentos que não são tão importantes ou necessários”, disse ele, antes de reiterar que a prioridade “é pensar na questão do abrigo”, bem como obter “suprimentos humanitários de maior durabilidade”, já que isso transmite “uma sensação de dignidade e de que se está passando para outra etapa”.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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