Publicado 04/02/2026 03:07

Um relatório revela que o Parlamento viola a Constituição ao agir como um "simples correio" das petições dos cidadãos.

Archivo - Arquivo - Fachada do Congresso dos Deputados, em 19 de setembro de 2023, em Madri (Espanha).
Marcos Villaoslada - Europa Press - Arquivo

A comissão do Congresso que recebe as petições reuniu-se apenas uma hora e meia em quatro anos e nem sequer dá seguimento aos escritos MADRID 4 fev. (EUROPA PRESS) -

Um relatório do observatório Political Watch sustenta que o Congresso e o Senado violam a Constituição ao atuarem como “simples caixa de correio” das petições que os cidadãos lhes enviam por escrito, uma vez que, segundo denuncia, ambas as instituições se dedicam a atuar como “meros intermediários” e não dão seguimento às solicitações. Na verdade, denuncia, não existem dados públicos sobre o destino das petições dos cidadãos e se elas se traduzem em alguma ação real.

Essa “ineficácia” do direito de petição na Espanha, diz ele, contrasta com países como Alemanha, Reino Unido ou Estônia, onde existe um sistema diferente, pelo qual, se as solicitações forem apoiadas por um número “razoável” de assinaturas — recebidas por via eletrônica —, elas devem ser debatidas no Parlamento. De fato, a Political Wacht propõe medidas para imitar essas fórmulas com o objetivo de garantir que as petições com mais apoio sejam objeto de análise nas Cortes. ESPANHA LIDERA AS PETIÇÕES NO PARLAMENTO EUROPEU

Esta situação leva, segundo a referida plataforma, os cidadãos espanhóis a recorrer ao Parlamento Europeu, onde a Espanha lidera o número de petições enviadas (23% do total em 2023), ou a plataformas privadas como a Change.org. É o que se depreende do relatório “O direito de petição no contexto digital”, apresentado pela Political Watch, ao qual a Europa Press teve acesso. Trata-se de uma investigação realizada no âmbito do acordo assinado entre a referida plataforma e a entidade pública Red.es, do Ministério da Transformação Digital e Função Pública, financiada com fundos NextGenerationEU. O estudo aponta o Parlamento por violar de facto os artigos 29 e 77 da Carta Magna. O primeiro dos artigos reconhece “o direito fundamental de todos os espanhóis de formular petições individuais ou coletivas, por escrito, perante instituições públicas”, e o segundo regula o direito de petição às Cortes Gerais.

Mais concretamente, estabelece que o Congresso e o Senado podem receber petições, individuais ou coletivas, sempre por escrito, e que ambas as Câmaras podem remeter ao Governo as petições recebidas, devendo este dar explicações se tal lhe for exigido. O CONGRESSO E O SENADO “PODERIAM FAZER MUITO MAIS”

Para começar, para a Political Watch, a prova da “pouca importância” que as Cortes Gerais concedem às demandas dos cidadãos é que a Comissão de Petições do Congresso mal se reuniu entre 45 minutos e 3 horas por ano desde 2011, contra as 150 horas por legislatura da Comissão de Orçamento.

A análise revela, além disso, que durante esta legislatura as solicitações que chegaram às Comissões de Petições do Congresso e do Senado “não geraram nenhum efeito vinculado às funções parlamentares”. Ou seja, “as Cortes Gerais servem exclusivamente como guichê de entrada e instituição intermediária”, apesar de, segundo a Political Watch, “poderem fazer muito mais”.

Concretamente, o relatório indica que o Congresso recebeu, até ao momento, 386 petições, das quais 380 foram encaminhadas para outras instituições, enquanto das 167 recebidas pelo Senado, 89 foram arquivadas e as restantes 78 foram remetidas para ministérios ou outros organismos da Administração.

Nesse sentido, a Political Watch sustenta que não se sabe onde realmente chegam as petições encaminhadas pelas Cortes e se elas se traduzem em decisões concretas porque, acrescenta, “as demandas dos cidadãos também não estão chegando ao Executivo”. De fato, ela precisa que os ministérios recebem “menos de uma petição por mês”.

Entre os principais temas de preocupação dos cidadãos estão o funcionamento da justiça ou medidas legislativas como a Lei da Anistia ou a reforma do Código Penal, assuntos relacionados com instituições penitenciárias — como denúncias sobre as condições das prisões —, questões sociais — como auxílios à dependência, cobrança do IMV ou violência vicária — e várias reclamações à Administração.

“O problema não é apenas de volume, mas de eficácia. As Cortes atuam como intermediárias administrativas que transmitem petições, mas sem garantias de acompanhamento ou avaliação do impacto real”, aponta o relatório, redigido por Miguel Ángel Gonzalo, diretor de Documentação da Secretaria Geral do Congresso dos Deputados e professor da Universidade Complutense de Madri, e Belén Agüero, diretora de pesquisa da Political Watch.

BONS EXEMPLOS NA UE E NAS ASTÚRIAS O contraste entre os dados nacionais e os de outros parlamentos europeus é “devastador” para a Political Watch, destacando que no Reino Unido, com 100.000 assinaturas, deve ser aberto um debate parlamentar; na Alemanha, com 30.000, há uma audiência pública no Bundestag; na Estônia, com apenas 1.000 assinaturas, é ativada uma consideração obrigatória; e na Escócia existe um sistema sem limites mínimos, no qual também é feito um acompanhamento em tempo real.

Em comparação com a atuação do Parlamento espanhol, o estudo revela que há quatro comunidades autônomas que se destacam por terem desenvolvido regulamentações específicas do direito de petição parlamentar, sendo o Parlamento das Astúrias o mais pioneiro, uma vez que qualquer pessoa pode exercer esse direito por escrito ou eletronicamente perante a Comissão de Petições e, além disso, as petições consideradas “fundadas” obrigam a adoção de medidas eficazes.

Os autores do relatório também valorizam a atuação do Parlamento da Catalunha, que conta com uma plataforma digital própria com identificação verificável e admite a possibilidade de comparecimentos presenciais.

O estudo considera um modelo “aceitável, mas pouco eficaz” o da Assembleia de Múrcia, que dispõe de uma Comissão de Petições à qual se pode solicitar informações adicionais para cada pedido e que apresenta um relatório anual ao Plenário para prestação de contas; e o do Parlamento das Canárias, onde são admitidas petições individuais e coletivas e onde também existe a possibilidade de encaminhamento ao Diputado do Común.

PROPÕEM ASSINATURAS PARA GARANTIR PELO MENOS DEBATES OU PERGUNTAS O relatório inclui ainda uma série de propostas para melhorar o direito de petição espanhol, entre as quais a criação de plataformas digitais públicas integradas nos sites do Congresso e do Senado; e o estabelecimento de limites objetivos que ativem automaticamente audiências em comissão (exemplo: 10.000 assinaturas), debate em plenário (exemplo: 50.000 assinaturas) e perguntas orais obrigatórias (exemplo: 5.000 assinaturas).

Além disso, propõem aumentar os recursos da Comissão de Petições, com mais sessões, mais pessoal técnico e capacidade de acompanhamento; vincular à agenda legislativa critérios para que as petições com apoio passem a ser tratadas como Iniciativas Não Legislativas (ILP) ou propostas não legislativas; e divulgar online todas as petições, respostas e acompanhamento.

Por último, sugerem que sejam redigidos relatórios anuais com indicadores de eficácia e que se permita aos cidadãos enriquecer suas petições antes de sua apresentação formal. “Não se trata de inventar nada novo, mas de fazer funcionar o que já existe na Constituição”, conclui o relatório.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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