O ex-ministro afirma que a Espanha está "fora do contexto internacional ocidental" por causa da "falha" de Sánchez.
MADRID, 11 out. (EUROPA PRESS) -
O ex-ministro da Defesa Federico Trillo considera que o embargo ao comércio de equipamentos militares com Israel é "errado" e "uma postura antissemita", além de "estúpido" quando o cessar-fogo na Faixa de Gaza entra em vigor, uma medida que, em sua opinião, "envergonha" o presidente do governo, Pedro Sánchez.
Foi assim que Trillo se expressou em uma entrevista concedida à Europa Press por ocasião da publicação de seu livro "Memórias de anteontem", depois que o Congresso deu sinal verde na quarta-feira para a validação do decreto que consolida esse veto, adotado como parte das medidas de pressão de Sánchez para deter "o genocídio" em Gaza.
"É uma decisão errada, tanto do ponto de vista ético quanto operacional, e uma decisão estúpida porque o cessar-fogo já foi aprovado", resumiu o ex-ministro da Defesa. Ele revelou que a vê como "errada" porque afeta "o pecado da humanidade no século XX: o antissemitismo".
Ele também não acredita que Sánchez deva se arrogar a capacidade de decidir se os assassinatos na Faixa de Gaza constituem genocídio. "O Tribunal Penal Internacional (TPI) é quem deve determinar os crimes que foram cometidos em Gaza", lembrou o ex-ministro 'popular' aos eurodeputados. Ele reconhece que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, cometeu "alguns excessos não menores na execução de seu direito à legítima autodefesa" contra o Hamas.
Nessa linha, Trillo enfatiza que o plano de paz de Gaza "deixa Sánchez em desgraça absoluta", que ele vê como "fora do jogo" sobre a questão, após a entrada em vigor do cessar-fogo como parte do acordo alcançado entre Israel e o Hamas, que também prevê a libertação de reféns israelenses em troca de prisioneiros palestinos. "Vamos ver o que ele vai inventar em seguida", ironizou.
AUTONOMIA IMPOSSÍVEL
Em relação à variante operacional, o 'popular' critica o embargo porque Israel fornece componentes e sistemas de armas à Espanha por ser um dos melhores fabricantes e ter uma capacidade tecnológica muito superior à do nosso país. "Cortar esse fornecimento e fazê-lo sem levar em conta os interesses das empresas daqui e de lá" é, na opinião do ex-ministro, "arbitrário".
Quando lhe perguntaram se ele achava realista desconectar completamente as forças armadas da indústria israelense e se a Espanha seria capaz de obter autonomia nessa área, Trillo estava convencido de que não: "Essas são declarações como as da 13ª Rue del Percebe", lamentou.
"A Espanha não conseguirá obter autonomia em questões de defesa nessas condições por muitos e muitos anos", continua ele, e vai além: "propor isso agora é propor uma autarquia defensiva, ou seja, que ela nunca conseguirá". Portanto, em sua opinião, o governo "corta a possibilidade de qualquer autonomia soberana".
Sobre a cláusula incluída na lei para regular o embargo, que reserva a possibilidade de exceções com base no interesse geral, Trillo diz que "naturalmente" será uma brecha. Mas ele prevê que Sánchez declarará sigilo com relação a essas exceções. "É tudo um show para a galeria", resume ele.
SÁNCHEZ "ESTÁ FORA DE CONTATO" COM O CONTEXTO INTERNACIONAL
Em suas declarações à Europa Press, Trillo também abordou a sugestão do presidente dos EUA, Donald Trump, de que a Espanha deveria ser expulsa da OTAN por não cumprir os requisitos de investimento. Embora ele chame isso de "ocorrência", ele considera isso um sinal de que Sánchez deixou a Espanha "fora" do contexto internacional.
O ex-ministro, autor do parecer do Conselho de Estado que levou a Espanha a ingressar na OTAN, lembra que o tratado de fundação da Aliança Atlântica não prevê a expulsão de membros. Sair sim, mas seria a Espanha que teria que elucidar isso através da aprovação no Congresso ou, "se fosse coerente", um referendo, a forma como foi decidida a incorporação da Espanha. "Trump, nesse ponto, teria pouco a dizer", acrescenta Trillo.
Mas o ex-ministro sugere que os outros aliados levem em consideração as palavras de Trump e exijam que Sánchez "seja coerente" com o compromisso assinado na cúpula de Haia em junho passado, "não com suas palavras, que são puras mentiras".
Ele está se referindo ao compromisso assinado pelos parceiros de aumentar os gastos com defesa para 5% do PIB, uma porcentagem definida após pressão de Washington. Sánchez informou que teve a aprovação da OTAN para fazer isso com "flexibilidade", sem um horizonte de tempo, desde que esteja de acordo com os objetivos de capacidade estabelecidos pela Aliança Atlântica.
"Sánchez diz que não está vinculado a isso porque vinculou o Estado, mas como ele sabe que está saindo, pode brincar como um trilheiro sevilhano com os itens orçamentários", diz Trillo.
Para o ex-ministro, "as consequências" das declarações de Trump são que "politicamente, a Espanha está agora fora do contexto internacional ocidental". "Agora todos os países europeus sabem disso e lhe darão as costas", continua.
E dá o exemplo das tarifas de petróleo, que ele acredita que "a Itália terá que defender porque a Espanha não vai prestar atenção", ou o que vai acontecer com a Comunidade de Inteligência, onde "o apoio dos americanos foi tão decisivo para acabar com o ETA". "Ficamos de fora de tudo isso, e não é culpa de Trump, é culpa de Sánchez", conclui Trillo.
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