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Os gargalos industriais, a dependência dos EUA e a falta de coordenação colocam em risco a meta do bloco
BRUXELAS, 3 set. (EUROPA PRESS) -
O Tribunal de Contas Europeu (TCE) alertou nesta quinta-feira que, apesar do forte aumento dos gastos militares e das iniciativas impulsionadas nos últimos anos, continua sendo “um desafio” que a União Europeia alcance, até 2030, uma autonomia estratégica que lhe permita sustentar de forma independente operações militares de alta intensidade.
Em um relatório, os auditores apontaram, entre os principais obstáculos, o impasse em que se encontra a indústria de defesa europeia após anos de investimento insuficiente, a dependência de fornecedores de fora da UE, bem como as dificuldades em coordenar os investimentos dos Estados-membros, que ameaçam perpetuar a fragmentação e as lacunas nas capacidades militares.
Os gastos, de qualquer forma, dispararam. O TCE constatou que os gastos combinados dos Vinte e Sete aumentaram 78,6% entre 2020 e 2025, enquanto seus orçamentos anuais de defesa passaram de 262 bilhões de euros em 2022 para 343 bilhões em 2024 e devem atingir 454 bilhões neste ano.
O tribunal adverte, no entanto, que gastar muito mais não significa automaticamente ter mais capacidades militares: a inflação específica do setor, que costuma superar a inflação geral, os longos prazos de fabricação e a escassez de materiais, componentes essenciais e pessoal qualificado impedem que os recursos alocados se traduzam em capacidade operacional.
“Embora a UE tenha lançado várias iniciativas para que os Estados-membros cooperem e unam esforços de defesa, é fundamental aproveitar as novas oportunidades e prestar atenção aos riscos existentes”, destacou o membro do tribunal responsável pela análise, Marek Opiola, que insistiu que a meta de 2030 “continua sendo um desafio”.
A crítica mais profunda aponta para o planejamento. Ao contrário da OTAN, que trabalha com um processo descendente, a UE planeja suas capacidades com uma lógica fundamentalmente ascendente, na qual são os Estados que identificam o que precisam e onde gastam, sem um procedimento europeu eficaz “de cima para baixo”.
Os auditores alertaram que essa ausência, somada à coordenação “insuficiente” entre as diferentes fontes de financiamento nacionais e comunitárias, pode provocar “investimentos fragmentados, duplicações e lacunas em matéria de capacidades”, além dos gargalos no fornecimento de materiais, componentes essenciais e pessoal qualificado.
COMPRAR EUROPEU OU COMPRAR RÁPIDO
O relatório destaca uma das principais tensões do debate industrial em Bruxelas: as cláusulas do “princípio da preferência da UE”, incluídas na maioria dos instrumentos comunitários, visam reduzir a dependência de fornecedores de países terceiros, mas entram em conflito com as necessidades de curto prazo.
Os auditores lembraram que vários Estados-membros recorreram a fabricantes não europeus em 2022 e 2023 para suprir rapidamente suas carências, ao considerarem que a indústria europeia não tinha capacidade suficiente e trabalhava com prazos mais longos. O desafio, ressaltam, consiste em encontrar “o equilíbrio adequado” entre as prioridades operacionais imediatas e os investimentos estratégicos de longo prazo.
As limitações também ficam evidentes na mobilidade militar, uma área para a qual o TCE estima uma necessidade de investimento de 70 bilhões de euros para adaptar as infraestruturas de transporte europeias aos padrões militares. Diante desse valor, a UE destinou 1,7 bilhão para o período de 2021 a 2027 e propôs elevar a verba para 17,7 bilhões entre 2028 e 2034.
A fragmentação também se reflete nos números relativos à cooperação: em 2021, apenas cerca de 18% dos equipamentos foram adquiridos de forma conjunta, contra os 35% estabelecidos como meta, e apenas 7% dos gastos com pesquisa e tecnologia foram realizados em colaboração, com uma meta de 20%. Desde 2022, a Agência Europeia de Defesa deixou de divulgar informações sobre as aquisições conjuntas devido à falta de dados completos dos Estados-membros.
17.700 MILHÕES PARA MOBILIDADE MILITAR
O descompasso entre ambição e recursos fica especialmente claro na mobilidade militar. Adaptar as infraestruturas de transporte aos padrões militares exige cerca de 70 bilhões de euros, enquanto o Mecanismo “Conectar a Europa” destinou 1,7 bilhão no atual quadro financeiro e a Comissão propõe 17,7 bilhões para o período de 2028 a 2034.
A UE aspira a ter uma zona de mobilidade militar em todo o bloco comunitário até o final de 2027, primeiro passo rumo a um “Schengen militar”, embora, segundo o Tribunal de Contas Europeu (TCE), ainda falte muito investimento para concretizar esses planos.
O tribunal também destaca os riscos associados ao rápido aumento do financiamento, alertando que o crescente recurso à dívida e a empréstimos garantidos pelo orçamento comunitário para aquisições de defesa pode “comprometer” a sustentabilidade orçamentária, ao retardar a redução da dívida pública e pressionar a “margem de manobra” das contas europeias.
A isso se soma a “complexidade operacional”, uma vez que, no processo de tomada de decisões, coexistem os Estados-membros, a Comissão Europeia, o Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE), bem como outros órgãos e agências, o que eleva o risco de “sobreposição de responsabilidades”, com competências pouco claras e problemas de coordenação.
OPORTUNIDADE PARA A INDÚSTRIA EUROPEIA
Apesar desses riscos, o TCE considera que o forte aumento dos gastos representa um “momento crucial” para a indústria europeia de defesa, que pode ampliar sua capacidade de produção, aumentar o investimento em pesquisa e desenvolvimento e reduzir sua dependência de fornecedores estrangeiros, além de aproveitar tecnologias de dupla utilização, como a Inteligência Artificial ou as tecnologias quânticas.
Os auditores também destacam a margem para desenvolver novas formas de cooperação, como os “clusters de defesa” e as “coalizões de capacidades”, e para estreitar os laços com a Ucrânia, cuja indústria de defesa pode contribuir para a produção conjunta, a pesquisa e a inovação europeias, além de compartilhar as lições aprendidas durante a guerra contra a Rússia.
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