Publicado 26/10/2026 13:41

Tiago Guedes adapta a enigmática trilogia de Coetzee no ambicioso “Aqui”, o mais recente filme de Manolo Solo

A equipe de “Aquí”, de Tiago Guedes, na Foto do Dia da quarta jornada da 71ª Seminci.
SEMINCI

O cineasta português condensa a obra em 3 horas e 25 minutos para proporcionar uma “imersão real” e como um “ato de resistência”

VALLADOLID, 26 out. (EUROPA PRESS) -

O diretor português Tiago Guedes adapta a enigmática trilogia “Jesus”, do escritor J. M. Coetzee, em “Aqui”, uma proposta ambiciosa para narrar a jornada pela infância do singular menino David, que busca compreensão ao lado de uma família improvisada, sustentada pelas atuações de Patricia López Arnaiz e Manolo Solo, que oferece neste filme sua última atuação.

O diretor Tiago Guedes, o produtor Paulo Branco e os atores Patricia López Arnaiz e Sergi López apresentaram o longa-metragem nesta segunda-feira, 26 de outubro, na 71ª Semana Internacional de Cinema de Valladolid, onde concorre na Seção Oficial.

Em um lugar distópico para o qual todos chegam sem memória para começar uma nova vida, Simón (Manolo Solo) conhece David (Álex Peláez e Hugo Encuentra), um menino que está sozinho. O homem decide cuidar dele e procurar sua mãe, papel que acaba sendo assumido por Inés (López Arnaiz).

A partir dessa premissa, desenvolve-se uma história que aborda a migração, a adoção, o amor e a identidade por meio da infância desse menino misterioso e obstinado, que levanta questões existenciais, questiona as regras e mergulha na dança — o que inclui cenas coreografadas.

Guedes assumiu neste filme o desafio de dar vida às mais de 900 páginas da trilogia de Coetzee, uma obra com a qual se identificou desde que leu o primeiro livro, “A Infância de Jesus” — seguido por “Os Dias de Jesus na Escola” e “A Morte de Jesus”. A oportunidade surgiu por meio do produtor Paulo Branco, a quem, por sua vez, o próprio escritor sul-africano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, havia oferecido o projeto.

Coetzee queria uma adaptação fiel à trilogia, em espanhol — já que o autor rejeita a hegemonia global do inglês —, um desejo que manifestou a Branco em uma conversa. Então, o produtor levou o projeto a Guedes, que também se reuniu com o escritor para discutir a adaptação.

O processo subsequente foi um desafio, pois foi preciso condensar a trilogia. “Queríamos que ficasse em três horas, mas quando assistimos ao filme, percebemos que esse era o corte final, não havia mais nada a cortar. Gosto muito dessa duração porque permite uma imersão real. É um tempo em que você está nesse mundo, longe de segundas ou terceiras telas. Acho que hoje, mais do que nunca, fazer um longa-metragem é um ato de resistência”, defendeu o diretor sobre a duração, um dos aspectos mais desafiadores da proposta.

Da mesma forma, sobre sua própria visão da obra enigmática, ele destacou que, na adaptação, decidiu evitar mencionar Jesus no título, pois, embora na trilogia esse nome não seja o utilizado para o menino protagonista, ele leva o público a associá-lo a essa figura religiosa.

Nesse sentido, Guedes afirmou que o filme aborda a “importância de viver e estar no momento exato”, razão pela qual se intitula ‘Aqui’: “Não há lembranças e o futuro é incerto; o que importa é o momento exato que os personagens estão vivendo. Há um momento muito marcante, que é quando o personagem de David pergunta a Simón: ‘O que estamos fazendo aqui?’, e ele não sabe responder”.

Essa proposta e visão foram transmitidas a Coetzee, que concordou e endossou esse título final, ao qual o ator Sergi López, que tem um papel coadjuvante no filme, acrescentou a ideia de um “presente eterno”.

O PESO DAS INTERPRETAÇÕES

Os atores também destacaram a dificuldade de interpretar personagens “sem história real”, mas sim aqueles em que o “simbólico e poético” tem maior peso, como afirmou López, que considera essa oportunidade uma “sorte” devido ao seu “roteiro sólido” e ao “universo diferente”.

“Era um trabalho que precisávamos encarar com muito respeito. Não apenas pelo material que precisávamos cuidar, mas também por suas particularidades. Há uma atmosfera de irrealidade, uma estranheza que está nos livros e também estava no roteiro”, refletiu, por sua vez, López Arnaiz.

A atriz explicou que, por esse motivo, neste trabalho não havia espaço para improvisação, pois a visão externa que se poderia trazer deveria caber ao diretor, em quem confiaram para esta montagem que permite “descobrir muitas outras coisas desse mundo que já está no texto de Coetzee”.

Sobre Manolo Solo, ator falecido em julho deste ano a quem a apresentação foi dedicada, Guedes destacou sua “enorme generosidade” ao interpretar Simón e contou que, desde que o viu em ‘Cerrar los ojos’, de Víctor Erice, sentiu uma “sensibilidade” em sua interpretação que ressoou nele quando procurava um ator para encarnar Simón.

Por sua vez, Branco enfatizou o peso da atuação no filme, graças a Solo e López Arnaiz. “Sem eles, o filme não existiria. Dar vida a esses diálogos não é algo fácil, e os dois transmitem uma emoção tão incrível que nos fazem acreditar no que estamos vendo. Esse é o grande triunfo do filme”, afirmou o produtor.

“Aqui”, cuja fotografia de Daniela Cajías também se destaca, concorre à Espiga de Ouro da 71ª Semana de Valladolid, onde chega após passar por festivais como o de Cannes, onde teve sua estreia mundial.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

Contador

Contenido patrocinado