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MADRID, 15 mar. (EUROPA PRESS) -
O conflito na Síria completa quatorze anos no sábado, aniversário que ocorre em meio a um processo de transição iniciado após a queda do regime de Bashar al-Assad, em dezembro, devido a uma ofensiva de jihadistas e rebeldes, e apenas uma semana depois de graves incidentes de violência no litoral que resultaram na morte de centenas de civis, muitos deles membros da minoria alauíta, à qual pertence o ex-presidente.
O conflito eclodiu como resultado da repressão das forças de segurança aos protestos pró-democracia na esteira da chamada "Primavera Árabe", na qual os participantes exigiram reformas políticas e sociais em face do autoritarismo de al-Assad, que em 2000 sucedeu seu pai, Hafed al-Assad, que liderava o país desde 1971.
A mobilização da segurança para esmagar os protestos, que em outros países levou à queda de regimes como o da Tunísia e do Egito, foi seguida pela criação de milícias de oposição, algumas formadas por desertores e unidas por pessoas que pegaram em armas contra al-Assad.
A expansão das hostilidades, que inicialmente não tinha conotações sectárias, gradualmente assumiu uma dimensão religiosa impulsionada pelo presidente, que associou os rebeldes a jihadistas sunitas que se opunham à minoria alauíta, que controlava a liderança do governo e das forças de segurança.
Nesse contexto, o Exército Livre da Síria (FSA), uma coalizão de rebeldes formada principalmente por desertores do exército, estava perdendo peso diante da incapacidade de abrir uma frente diplomática para pôr fim à guerra, na qual as autoridades recorreram ao uso de armas químicas.
AUMENTO DA INFLUÊNCIA ISLÂMICA
Com o passar do tempo, os grupos islâmicos começaram a ganhar influência, especialmente a Frente al-Nusra, uma ramificação da al-Qaeda, e o Estado Islâmico, que em 2014 declarou um "califado" em partes do Iraque e da Síria após uma ofensiva de blitzkrieg a partir do território iraquiano, enfraquecendo ainda mais as milícias seculares e revolucionárias.
Essa situação, juntamente com o recuo das forças do governo, levou a uma intervenção russa em 2015 para sustentar as tropas de Damasco, apoiadas pelo Irã, em um reflexo de uma guerra que se tornou uma luta entre países da região e de fora dela para manter sua influência.
O Estado Islâmico acabou perdendo território na Síria em decorrência de confrontos com a Frente al-Nusra e grupos islâmicos aliados - aglutinados no Hayat Tahrir al Sham (HTS) e liderados por Abu Mohammed al Golani - e da ofensiva das Forças Democráticas Sírias (SDF) curdas, deixando o país dividido em esferas de influência.
As autoridades curdas declararam semi-autonomia em partes do norte e nordeste, com rebeldes e islamitas no controle da província de Idlib (noroeste) e partes de Aleppo e Hama, e as forças do governo em frágil controle de outras áreas.
O congelamento das frentes levou os países da região a considerar que al-Assad havia conseguido superar o conflito, levando a um processo de reintegração de Damasco aos órgãos internacionais, interpretado como uma vitória do regime e de seus aliados.
Entretanto, esse ciclo foi interrompido em novembro de 2024, quando o HTS e os grupos rebeldes lançaram uma ofensiva que desencadeou o rápido colapso "assadista", levando à queda de al-Assad e à ascensão ao poder de al-Golani, que passou a usar seu nome verdadeiro, Ahmed al-Shara, e a se apresentar como um líder pragmático, apesar de seu passado jihadista.
TRANSIÇÃO E DÚVIDAS
Dessa forma, as forças de al-Golani puseram fim a mais de 50 anos da dinastia al-Assad, um movimento amplamente aplaudido pela comunidade internacional, embora haja dúvidas sobre a direção que o país tomará agora, especialmente em relação às mulheres e às minorias.
Al Shara usou seus discursos para apresentar sua ascensão ao poder como um triunfo da revolução, embora os grupos que lideraram a ofensiva estejam longe de estar próximos das ideias que impulsionaram os revolucionários em 2011, embora a "realpolitik" esteja levando esses grupos a buscar um lugar na nova realidade.
Assim, as autoridades interinas emitiram declarações garantindo que os direitos civis serão respeitados e que a democratização será iniciada, conforme solicitado pela comunidade internacional, que foi rápida em estabelecer relações com o novo governo.
Esse caminho político se materializou no anúncio da dissolução das várias facções armadas para criar um exército unificado, nos apelos para que os membros do antigo regime se rendam em troca de uma anistia e na promulgação de uma Declaração Constitucional que, no entanto, levantou suspeitas ao colocar a jurisprudência islâmica como a "principal" fonte do sistema jurídico do país.
Além disso, o acordo entre as autoridades e o SDF - o braço armado da Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (AANES) - para se integrar ao novo Estado e garantir os direitos dos curdos parece eliminar o risco de conflito interno.
CONFLITO E CRISE HUMANITÁRIA
Por outro lado, a violência em larga escala no final da semana passada, após uma série de ataques da milícia assadista Coastal Shield Brigade - liderada por Muqdad Fatiha, ex-comandante da Guarda Republicana - contra as novas forças de segurança, levou Damasco a lançar uma operação de "larga escala" nas províncias de Latakia e Tartous, que resultou em assassinatos de civis.
O Observatório Sírio para os Direitos Humanos calculou o número de civis mortos em cerca de 1.400, enquanto al-Shara prometeu que "ninguém estará acima da lei", depois que os EUA culparam os "terroristas islâmicos radicais".
A situação é um reflexo da precariedade da situação nessa nova fase e do risco em potencial de uma maior deterioração ao longo das linhas sectárias, o que poderia mergulhar a Síria em um conflito semelhante ao desencadeado no Iraque após a invasão dos EUA em 2003, especialmente devido às enormes necessidades humanitárias da população devido ao colapso econômico e à falta de oportunidades de trabalho.
Nesse sentido, a World Vision alertou recentemente que os quatorze anos de guerra causaram "profundas feridas emocionais e psicológicas" nas crianças sírias. "Sem uma intervenção urgente, corremos o risco de perder uma geração inteira para os efeitos de longo prazo do trauma e do desespero", disse o diretor de resposta da ONG na Síria, Emmanuel Isch.
Na mesma linha, o diretor para a Síria do Conselho Norueguês para Refugiados (NRC), Federico Jachetti, disse que a turbulência e a falta de investimento estão limitando a capacidade de recuperação da população e apontou para "uma crise de liquidez e poder de compra" que já está atingindo níveis "mínimos".
"Vemos uma tendência precária no mercado, em que a família síria média ainda não consegue comprar alimentos e outros itens essenciais, mesmo quando os preços estão caindo", disse ele, antes de explicar que "a Síria precisa de investimentos que apoiem as pequenas empresas e gerem oportunidades de emprego em projetos como o reparo da infraestrutura civil".
O próprio Al Shara solicitou o retorno de milhões de refugiados para avançar nessa nova fase, embora a crise e a falta de oportunidades estejam fazendo com que muitos optem por não retornar por enquanto, especialmente devido à incerteza política e ao risco de que o conflito se reacenda em um futuro próximo.
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