Jose Breton / AFP7 / Europa Press
MADRID, 9 jul. (EUROPA PRESS) -
O Senado do Paraguai aprovou uma declaração que repudia os insultos racistas proferidos pela senadora Celeste Amarilla contra o jogador de futebol francês Kylian Mbappé, após um debate no qual a senadora reiterou seus insultos contra o jogador, a quem chegou a chamar de “filho da puta”.
O plenário do Senado aprovou uma declaração que “repudia as expressões discriminatórias e racistas da senadora Celeste Amarilla contra o jogador da seleção francesa”, após a aprovação de emendas à proposta apresentada por vários senadores para reprovar a conduta de Amarilla após a derrota da seleção paraguaia na Copa do Mundo de Futebol.
O senador Dionisio Amarilla, um dos proponentes da moção, destacou a importância de haver uma posição institucional sobre as palavras da senadora, que defendeu que em nenhum momento insinuou estar solicitando apoio oficial e que assume plenamente a responsabilidade por suas declarações. “Assumo, como boa liberal e democrata, o que disse. As consequências serão para mim, para mais ninguém além de mim”, explicou.
A política afirmou que não aceita que o legado da França seja “reduzido” à figura de Mbappé. “A França é Rousseau, Descartes, Montesquieu, Victor Hugo, Simone de Beauvoir, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Recuso-me a reduzir toda essa enorme França e esse enorme legado cultural, artístico e democrático a Mbappé”, acrescentou, segundo reportagem do jornal paraguaio ‘ABC’.
No entanto, ela reiterou suas críticas ao jogador por sua atitude durante a partida, especialmente por ter se recusado a cumprimentar o goleiro da seleção paraguaia após o término da partida das oitavas de final entre as duas equipes, no qual a França venceu por 1 a 0 com gol de Mbappé, que converteu um pênalti no segundo tempo.
“Quando Orlando Gill, um garoto que certamente pisava pela primeira vez em uma Copa do Mundo, pela primeira vez na Europa, estava jogando diante do mundo e estendeu a mão com toda a humildade do paraguaio, e esse filho da puta recusou o aperto de mão e gritou na cara dele, isso não é francês, um francês nunca teria feito isso”, enfatizou.
Por outro lado, ele explicou que está “desconstruindo” uma “Celeste incorreta”. “Estou desconstruindo esse padrão que me ensinaram e que hoje, à luz da modernidade, quase detesto”, argumentou, ao mesmo tempo em que afirmou que isso vem “de uma época em que dizer ‘negro de merda’ era aceitável, ‘gordo de merda’ era aceitável”. “Era uma época pouco tolerante”, reconheceu.
“Estou tentando me adaptar a este mundo porque aquele meu mundo, no qual fui criada, nos tornou duros, nos tornou fortes, nos tornou resilientes”, precisou Amarilla, que, no entanto, insistiu em suas críticas ao jogador. “Aos franceses que estão me assistindo: se eu fosse o Mbappé, já estaria hoje no psicólogo”, acrescentou.
POSSÍVEIS MEDIDAS LEGISLATIVAS
Nesse contexto, o presidente da Câmara dos Senadores, Basilio Núñez, destacou que não concorda com as palavras de Amarilla e lembrou que já se manifestou nas redes sociais. “Não concordo com o que a senadora Celeste disse. Por isso me pronunciei nas redes sociais, como presidente do Congresso, rejeitando veementemente essas mensagens racistas”, afirmou.
Núñez destacou que o país é signatário da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, incorporada à ordem jurídica nacional, e ressaltou que as palavras de Amarilla não estão em conformidade com os compromissos de Assunção, segundo um comunicado divulgado pelo Senado após a sessão.
Por isso, ele revelou que o Senado poderia adotar medidas legislativas em relação às declarações de Amarilla. “Para mim, e digo isso a título pessoal, as publicações da colega senadora são inadequadas e não representam o que pensa a maioria dos paraguaios”, acrescentou ele na sessão, na qual também foi aprovada uma declaração de “homenagem” à seleção paraguaia de futebol.
A referida declaração, aprovada por unanimidade, “presta homenagem e reconhece a extraordinária campanha e o desempenho dos jogadores, da comissão técnica e da diretoria da Seleção Paraguaia de Futebol por sua destacada participação na Copa do Mundo da FIFA México-Estados Unidos-Canadá 2026, enaltecendo o nome da Nação Paraguaia”.
BLOQUEIO DA TRANSMISSÃO DA SESSÃO NO YOUTUBE
A sessão também foi marcada pela suspensão da transmissão pela YouTube devido a “uma reclamação de direitos autorais atribuída à FIFA, conforme aviso emitido pela própria plataforma”, segundo comunicado divulgado pela Câmara dos Senadores.
“Preliminarmente, a situação estaria relacionada à detecção automática de conteúdo audiovisual protegido por direitos autorais, no âmbito do debate parlamentar realizado durante a sessão de hoje, no qual foram feitas referências à Copa do Mundo de Futebol e exibidos trechos audiovisuais ligados a esse evento”, explicou.
“Esclarece-se que esse tipo de bloqueio constitui um procedimento automatizado que o YouTube aplica ao identificar conteúdo protegido de terceiros e, em princípio, não implica uma sanção ao canal institucional da Câmara dos Senadores”, afirmou, antes de ressaltar que está analisando a reclamação para “adotar as medidas cabíveis para restabelecer a disponibilidade da gravação”.
Por fim, ele insistiu que “a programação da Senado TV e as transmissões previstas na agenda legislativa continuarão ocorrendo normalmente por meio das plataformas institucionais, enquanto prosseguem os procedimentos técnicos relacionados a esse incidente”.
A POLÊMICA
Amarilla afirmou em uma mensagem nas redes sociais, após a derrota do Paraguai na partida contra a França, que o jogador “é um bruto que nem sequer aprendeu a escrever” e que “em vez do leite da mãe, chupou cocos”. “A coisa mais culta que ele já ouviu na vida são os chimpanzés”, disse ela.
Em resposta, Mbappé afirmou que a senadora é “uma mulher desprezível” e “indigna de seu cargo”. “Você não representa o Paraguai. Por causa da sua ignorância e do seu racismo descarado, o mundo já esqueceu a trajetória histórica e o empenho dos seus jogadores durante esta Copa do Mundo para dar lugar a uma mulher incompetente que transmite a pior imagem possível do seu país”, afirmou.
A senadora respondeu publicando uma carta nas redes sociais na qual justifica sua mensagem, afirmando que estava com “o sangue fervendo”. “Logo depois, me arrependi de ter te tratado mal com os mesmos insultos que recebo, porque também sou desprezada por ser morena e latina”, observou, embora tenha destacado que “entende” que Mbappé tenha ficado “chateado” com as palavras, que são “humilhantes”.
No entanto, ela ressaltou que “não vai tolerar” a “violência” de Mbappé em resposta à sua reação. “Você não me conhece, não tem ideia de quem eu sou e não tem o menor direito de dizer que sou uma mulher desprezível, indigna do cargo que ocupo”, retrucou ela, exigindo que o jogador se desculpasse por suas declarações posteriores e ameaçando até mesmo “iniciar uma ação judicial por violência de gênero”.
Por sua vez, o Ministério Público de Paris abriu uma investigação por insultos públicos e incitação ao ódio ou à violência em decorrência das declarações de Amarilla, conforme confirmaram fontes do Ministério Público à Europa Press, uma medida tomada na sequência de uma ação movida pela Federação Francesa de Futebol (FFF) após os insultos proferidos pela senadora após a partida.
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