Rafael Bastante - Europa Press - Arquivo
MADRID, 29 mar. (EUROPA PRESS) -
Nesta terça-feira, 31 de março, completam-se sete anos desde que milhares de pessoas lotaram o centro de Madri para exigir um Pacto de Estado contra o despovoamento, a chamada Revolta da Espanha Esvaziada, que perdeu parte do impulso político que conseguiu colocar o desafio demográfico no centro do debate nacional.
A queda do apoio eleitoral a partidos como “Soria ¡Ya!” ou “Teruel Existe” levanta agora a dúvida se esse problema deixou de mobilizar os eleitores ou se perdeu espaço em uma agenda marcada pela “polarização”.
Em 31 de março de 2019, entre 50.000 e 100.000 pessoas, segundo a Delegação do Governo e os organizadores, marcharam pelo centro de Madri para denunciar décadas de “abandono” territorial e reivindicar “igualdade de oportunidades” entre o meio rural e as cidades.
Convocada por “Soria ¡Ya!” e “Teruel Existe”, a manifestação reuniu mais de 80 plataformas cidadãs e transformou o despovoamento em uma questão de Estado. Aquela mobilização abriu uma janela política inédita para as candidaturas territoriais, capazes de levar ao Parlamento e a vários governos autônomos uma reivindicação até então periférica.
No entanto, o contexto atual é diferente. Nos últimos ciclos eleitorais regionais, várias dessas formações perderam representação ou apoio popular, paralelamente a um cenário político dominado pelo voto útil e pelo confronto entre blocos ideológicos, o que reduziu o espaço dos partidos centrados no reequilíbrio territorial.
O QUE ACHA O "SORIA YA"?
O candidato do "Soria ¡Ya!", Ángel Ceña, atribui esse retrocesso ao deslocamento do debate para questões estaduais. Conforme explica à Europa Press, a formação passou de quase 43% dos votos em sua primeira eleição regional para ficar em torno de 20%.
“Conseguimos transmitir em 2022 um sentimento de protesto contra o abandono histórico de Soria, mas agora esse sentimento foi contrariado pelo voto em questões nacionais”, assinala.
Na sua opinião, a presença constante de líderes nacionais durante a campanha eleitoral em províncias como Soria visava “polarizar a mensagem e não deixar espaço para o territorial”.
Nesse contexto, Ceña critica também a escassa execução das políticas públicas diante do desafio demográfico e sustenta que as 130 medidas aprovadas pelo Governo “não serviram para nada”, lembrando que o Tribunal de Contas detectou que apenas 37% dos fundos previstos chegaram a núcleos despovoados.
TOMÁS GUITARTE, DO CONGRESSO AO PARLAMENTO AUTONÔMICO
Nessa linha, o deputado de “Teruel Existe” em Aragão, Tomás Guitarte, concorda em apontar a polarização como um dos fatores decisivos para explicar a mudança de cenário. “Está-se conseguindo polarizar a situação política e não importa se você está em um território ou outro: o importante é se o voto é anti-Sánchez ou anti-Vox”, afirma.
Segundo adverte Guitarte, essa dinâmica relegou para segundo plano os problemas estruturais do meio rural e contribuiu para uma progressiva “invisibilização” do fenômeno. “Quando não se quer resolver um problema, o que se tenta é que ele não apareça”, sustenta.
No entanto, o politólogo Pablo Simón introduz outro elemento à análise: o auge eleitoral dessas plataformas também respondeu a um momento político “excepcional e dificilmente reproduzível”.
Em sua opinião, muitas dessas formações nasceram como partidos “de nicho”, articulados em torno de uma única reivindicação, o que “limita” sua consolidação caso não consigam traduzi-la em resultados visíveis. “No momento em que não são capazes de reverter uma situação tão estrutural quanto o despovoamento, os eleitores abandonam”, explica.
Parte desse voto de “protesto”, acrescenta o politólogo, deslocou-se para outras opções políticas em um contexto de maior confronto eleitoral. “Uma parte está indo para o Vox e outra retorna às formações tradicionais”, acrescenta.
No entanto, Simón ressalta que o movimento conseguiu atingir um objetivo político relevante: colocar o despovoamento na agenda pública. “Os grandes partidos absorveram esse discurso e isso também é um sucesso, embora não seja eleitoral”, afirma.
PERDA DO FOCO DA MÍDIA E VOX COMO VENCEDOR DO VOTO DE “PROTESTO”
O deslocamento do debate para conflitos nacionais e internacionais também reduziu a visibilidade da mídia sobre o desafio demográfico. É o que aponta Fernando Vallespín, professor de Ciência Política e Administração da Universidade Autônoma de Madri, que situa a mudança nas prioridades informativas como uma das chaves do cenário atual.
“As questões que têm estado no centro do debate têm sido a tensão entre governo e oposição, não o despovoamento”, admite Vallespín.
Nesse contexto, acrescenta, algumas formações como o Vox conseguiram canalizar parte do descontentamento do meio rural por meio de discursos centrados no abandono do campo ou da pecuária. “Para alguns eleitores, apoiar o Vox também é uma forma de dar visibilidade aos problemas locais”, observa.
MENOS PROBLEMA OU MENOS ATENÇÃO?
A perda de peso eleitoral das plataformas da “Espanha Vaciada” não implica, no entanto, uma melhoria substancial da situação demográfica, segundo concordam alguns especialistas.
De uma perspectiva econômica, o professor de Economia e pesquisador especializado no setor agrícola, comércio internacional, despovoamento e migrações, Vicente Pinilla, alerta que em Aragão, por exemplo, as localidades com menos de 5.000 habitantes continuam perdendo residentes, enquanto os núcleos urbanos de maior porte crescem. “Não se pode dizer que esteja ocorrendo um retorno ao campo”, observa.
O principal obstáculo continua sendo o emprego qualificado, seguido pelo acesso à moradia e pela mobilidade, embora a rede de serviços públicos apresente atualmente níveis “bastante razoáveis”. A dependência do veículo particular continua sendo, em todo caso, um fator limitante.
Nessa linha, o pesquisador Juan Antonio Lobato introduz uma nuance: embora a tendência não tenha se revertido, ele detecta uma desaceleração no ritmo de perda populacional.
A Espanha, explica ele, encontra-se em um “ponto de inflexão”, embora ele alerte que qualquer mudança estrutural requer décadas de políticas sustentadas. “O despovoamento não será resolvido de forma imediata, mas vivemos em uma sociedade que exige soluções imediatas”, lamenta Lobato.
Sete anos após a Revolta da Espanha Deserta, o desafio demográfico perdeu centralidade política, mas não a urgência territorial. A mobilização que levou o problema ao coração de Madri em 2019 ainda não encontrou uma resposta capaz de revertê-lo.
Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático