Publicado 07/03/2026 06:31

Quarenta anos do referendo da OTAN: uma vigência complexa que reabre debates

Votação do referendo sobre a OTAN em 12 de março de 1986
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MADRID 7 mar. (EUROPA PRESS) - Nesta quinta-feira, completam-se 40 anos do referendo que aprovou a adesão da Espanha à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Um plebiscito que dividiu a população — 52,5% votaram a favor, 39,9% contra e 6,5% se abstiveram, com uma participação de quase 60% — e marcou a plena integração da Espanha no bloco ocidental.

Quatro décadas depois, revivem-se os debates sobre a Aliança Atlântica, com a Espanha como protagonista ao recusar que os Estados Unidos utilizem as bases de Rota e Morón para os ataques ao Irã que começaram em 28 de fevereiro. Também por ser o único país a votar contra o aumento para 5% do PIB dos gastos com defesa, como criticou o presidente norte-americano, Donald Trump. “É um país perdedor. Não jogam em equipe e não vou jogar com eles”, chegou a dizer. Voltando à história, o processo de adesão à Aliança começou após o discurso de posse do presidente do Governo Leopoldo Calvo Sotelo, em 25 de fevereiro de 1981, dois dias após a tentativa de golpe de Estado de 23 de fevereiro. Em 2 de dezembro do mesmo ano, a Espanha comunicou sua intenção de aderir à Aliança e, em 30 de maio de 1982, tornou-se o 16º membro da OTAN (hoje são 32).

O Partido Socialista, liderado por Felipe González, utilizou em sua campanha eleitoral de 28 de outubro de 1982 — que venceu com 202 cadeiras — o slogan “OTAN, de entrada no” (OTAN, de entrada não). No entanto, uma vez no poder, González mudou de opinião e colocou nas mãos dos cidadãos não só a continuidade do país na Aliança, mas também a sua própria continuidade como presidente do Governo e líder dos socialistas. Quem não se deixou convencer foi o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Fernando Morán, que se demitiu por discordar da mudança de rumo.

GONZÁLEZ NÃO TINHA OUTRA SOLUÇÃO A NÃO SER DEFENDER O “SIM” Fernando Vallespín, professor de Ciência Política e Administração na Universidade Autônoma de Madri, reconhece que a mudança de Felipe González para o “Sim” no referendo foi “mais do que lógica” em um contexto em que a Guerra Fria ainda imperava. “González não tinha outra escolha se quisesse fazer parte da Comunidade Econômica Europeia (CEE)”, afirma. De fato, um dos argumentos a favor da OTAN era que a recente adesão à CEE, atualmente União Europeia (UE), em 1º de janeiro de 1986, acarretava deveres de segurança coletiva. Anteriormente, essa narrativa garantia que pertencer à OTAN era uma “condição necessária” para entrar na CEE, como lembra Giulia Quaggio, historiadora especializada no estudo da Europa pós-1945 e coordenadora do livro “Imaginando a Guerra Fria a partir das margens: a sociedade espanhola e a OTAN”.

TRÊS CONDIÇÕES PARA PRESERVAR O INTERESSE NACIONAL O texto que os espanhóis votaram em 12 de março de 1986 foi “cuidadosamente escolhido” pelos socialistas, que “tinham muito medo”, afirma Quaggio. Ele continha três cláusulas que o governo considerava “convenientes para os interesses nacionais”, como pode ser lido no próprio texto. - A primeira: “A participação da Espanha na Aliança Atlântica não incluirá sua incorporação à estrutura militar integrada”. Foi revogada em 1º de janeiro de 1999, com Aznar como presidente do governo, após uma negociação de três anos. Essa mudança é compreensível, pois a “Cortina de Ferro” havia caído e os blocos surgidos da Segunda Guerra Mundial haviam se diluído com ela. Além disso, a posição da Espanha na Aliança já havia se fortalecido quando, em 1995, foi eleito o primeiro secretário-geral espanhol da OTAN, Javier Solana, que permaneceu no cargo até 1999. - O segundo termo: “Será mantida a proibição de instalar, armazenar ou introduzir armas nucleares em território espanhol”. Essa premissa reflete a desnuclearização militar a partir de 1979 com o “Tratado de Amizade e Cooperação Hispano-Norte-Americano”, embora só em 1987 a Espanha tenha aderido ao “Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares”.

- Quanto à terceira proposta votada, esta foi: “Procederá-se à redução progressiva da presença militar dos Estados Unidos em Espanha”. Das quatro bases norte-americanas incluídas nos “Pactos de Madrid” de 1953 — Saragoça, Morón, Rota e Torrejón —, a de Saragoça foi abandonada em 1992 e a de Torrejón teve presença norte-americana, cada vez mais limitada, até 2004. Rota e Morón são as únicas que permanecem sob controle hispano-americano e têm sido notícia recentemente pela recusa do presidente do Governo, Pedro Sánchez, em que sejam utilizadas para a guerra no Irã, e pela resposta de Donald Trump, que chegou a ameaçar a Espanha com um bloqueio comercial.

Nestas condições, a pergunta à qual mais de nove milhões de espanhóis, 52,5%, responderam “sim” e mais de seis milhões e oitocentos mil, 39,9%, responderam “não” foi: “Considera conveniente para a Espanha permanecer na Aliança Atlântica nos termos acordados pelo Governo da Nação?”.

UMA OTAN EM MUDANÇA A validade dos termos aceitos pela maioria consultiva naquele 12 de março de 1986 é complexa e reabre debates na sociedade espanhola. “O contexto de 40 anos atrás tem pouco a ver com o atual”, resume o analista político Eduardo Bayón, para quem os últimos anos da Guerra Fria descrevem o panorama internacional em 1986. Fernando Vallespín também descreve como “radicalmente diferentes” os contextos de 1982 e 1999, ou seja, a entrada na Aliança e a integração na estrutura militar.

Nessa linha, Bayón afirma que a Guerra do Iraque em 2003, que a Espanha apoiou após a Cúpula dos Açores, juntamente com a posterior “morte cerebral” da OTAN, como definiu o presidente francês Emmanuel Macron em 2019, reflete a deriva desse tratado de segurança coletiva. Para Fernando Vallespín, essa deriva é definida como um marco em que a Aliança teve que “esclarecer para que serve”.

Assim, o contexto da Aliança do Atlântico Norte estabelecido na virada do século permaneceu, segundo Vallespín, até o “Trump 2.0” — em referência ao segundo mandato do atual presidente norte-americano — que “quebrou o equilíbrio”. Nesse sentido, ele defende que estamos diante de uma “situação de indefinição do compromisso dos Estados Unidos, que historicamente têm sido a voz de comando da Aliança”. Para Bayón, os EUA se tornaram um “aliado não confiável por sua mera trajetória”.

Nesta linha, Fernando Vallespín assume que, na sequência dos últimos acontecimentos em que o governo de Pedro Sánchez proibiu a utilização das bases espanholas para a guerra no Irão, a posição da Espanha é “impecável do ponto de vista do Direito Internacional”.

Em relação à possibilidade e à ameaça do presidente norte-americano, Donald Trump, de que os Estados Unidos possam agir contra a Espanha, Vallespín assume que “a base de Rota é indispensável. Poderiam levá-la para Marrocos, mas seria um custo enorme”. Por isso, ele não vê isso como “viável a curto prazo”, assim como também não vê possível “um boicote comercial”. O REFERENDO COLOCOU A ESPANHA DIANTE DA COMUNIDADE INTERNACIONAL A decisão tomada pelos espanhóis em 12 de março de 1986 ultrapassou as fronteiras europeias e também intercontinentais. A importância foi tal que “o referendo colocou a Espanha diante de toda a comunidade internacional”, afirma Giulia Quaggio. Por um lado, os Estados Unidos “estavam muito preocupados em perder as bases militares, o que era mais importante para eles”, diz Quaggio. Em sua área de influência, a República Federal Alemã (RFA) também estava de olho no referendo que este ano completa 40 anos.

Do outro lado da “Cortina de Ferro”, a União Soviética pôde participar da propaganda que permeava os movimentos antibelicistas em toda a Europa e que levaram a manifestações históricas na Espanha, embora “não se possa saber até que ponto isso influenciou”, diz Quaggio.

Esta notícia foi traduzida por um tradutor automático

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