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MADRID 29 set. (EUROPA PRESS) -
O Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Norte acusou os Estados Unidos de serem os principais responsáveis pela deterioração do regime internacional de não proliferação nuclear e de impulsionar uma modernização de suas capacidades nucleares que, na opinião de Pyongyang, poderia levar a uma nova corrida armamentista em escala mundial.
As autoridades norte-coreanas divulgaram um memorando, reproduzido pela agência oficial de notícias KCNA, no qual questionam o cumprimento, por parte de Washington, de seus compromissos como Estado detentor de armas nucleares e denunciam tanto o aumento de suas capacidades estratégicas quanto a ampliação de sua cooperação nuclear com países aliados.
O documento situa a origem dessa política nos primeiros anos da era atômica. Segundo o Ministério norte-coreano, os Estados Unidos realizaram, em 1945, o primeiro teste nuclear da história, no deserto do Novo México, e, posteriormente, teriam tentado preservar uma posição de domínio exclusivo por meio do desenvolvimento contínuo de seu arsenal.
Especificamente, o memorando estima em 1.032 o número de testes nucleares realizados pelos Estados Unidos entre 1945 e 1994 e lembra que o arsenal norte-americano chegou a ultrapassar as 32.500 armas nucleares de diversos tipos durante o momento de maior tensão da Guerra Fria.
Pyongyang também sustentou que Washington teria posteriormente modificado sua estratégia para manter sua supremacia nuclear de maneira menos visível. A mudança, de acordo com o texto do governo, teria estado relacionada tanto ao custo econômico decorrente dos gastos militares quanto à ascensão da União Soviética como segunda potência nuclear mundial.
Nesse contexto, a Coreia do Norte acusa agora os Estados Unidos de se prepararem para uma eventual retomada dos testes nucleares, ao mesmo tempo em que denuncia publicamente supostos programas semelhantes em outros países. O Ministério das Relações Exteriores norte-coreano interpretou essa atitude como uma tentativa de estimular uma competição estratégica que obrigaria seus rivais a aumentar também seus arsenais.
O documento associa essa política à doutrina do atual governo dos Estados Unidos, baseada, segundo Pyongyang, nos princípios de “America First” (“América em primeiro lugar”) e de “paz por meio da força”. Na opinião das autoridades norte-coreanas, o processo de modernização das forças nucleares americanas apresenta atualmente uma dimensão comparável, em termos de alcance, à da Guerra Fria.
CRÍTICAS AO COMPONENTE ESPACIAL
O Ministério das Relações Exteriores norte-coreano também destacou a área espacial, ressaltando especialmente o recente reconhecimento oficial, por parte do Exército dos Estados Unidos, da existência de “armas de controle espacial em órbita”.
Pyongyang considerou que essas capacidades fazem parte de uma estratégia destinada a reforçar a posição militar dos Estados Unidos no espaço, bem como a garantir condições mais favoráveis para suas operações estratégicas. O memorando adverte, nesse sentido, que os Estados Unidos estariam tentando consolidar sua superioridade nuclear em terra, mar, ar e espaço.
A essa acusação soma-se a denúncia de uma suposta mudança nos critérios norte-americanos sobre o emprego de armas atômicas, reduzindo — segundo a Coreia do Norte — o limiar para recorrer ao armamento nuclear e considerando novas fórmulas relacionadas ao uso de armas nucleares táticas.
“Essas armas nucleares não são meros elementos de dissuasão destinados a eliminar ameaças dos adversários”, afirma o memorando, que as apresenta como sistemas passíveis de serem empregados diretamente em um cenário de guerra.
ACUSAÇÕES SOBRE O TRATADO DE NÃO PROLIFERAÇÃO
Outra parte das críticas norte-coreanas centrou-se na chamada proliferação horizontal, ou seja, na expansão das capacidades e da cooperação nucleares entre diferentes Estados.
Em relação a isso, o Ministério das Relações Exteriores lembrou que o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), assinado em 1968, estabeleceu um marco destinado a limitar a expansão das armas atômicas, garantir o direito ao uso pacífico da energia nuclear e promover negociações para o desarmamento.
Assim, Pyongyang acusou Washington de ter permitido exceções a esse sistema por meio da cooperação nuclear com seus aliados. De acordo com o memorando, os Estados Unidos teriam transferido tecnologia relacionada a armas nucleares e mantido cooperação nuclear com membros da OTAN à margem das restrições estabelecidas pelo tratado.
O governo norte-coreano questionou, além disso, a implantação de capacidades nucleares americanas em outros países sob os conceitos de “guarda-chuva nuclear” e “dissuasão ampliada”.
Nesta seção, o documento faz referência específica à cooperação com a Coreia do Sul e o Japão, e denuncia a elaboração de “Diretrizes de Operações Nucleares” entre Washington e Seul, a institucionalização do chamado Grupo de Consulta Nuclear e o compromisso dos Estados Unidos de incorporar armas nucleares à “dissuasão ampliada” oferecida a Tóquio.
Com base nesses elementos, a Coreia do Norte interpretou o aprofundamento da cooperação militar entre os Estados Unidos, o Japão e a Coreia do Sul como uma transformação progressiva em direção a uma estrutura de caráter nuclear sob liderança norte-americana.
ISRAEL E A COOPERAÇÃO COM ALIADOS
O memorando também estende suas críticas a Israel e a outros países aliados de Washington que, segundo Pyongyang, demonstraram interesse em desenvolver ou adquirir capacidades nucleares.
As autoridades norte-coreanas atribuem essa situação à proteção e ao apoio que, segundo sua interpretação, os Estados Unidos teriam proporcionado a esses Estados.
Nesse sentido, o texto sustenta que a posse de armas nucleares por parte de Israel e as aspirações nucleares de determinados países favoráveis a Washington continuam gerando preocupação internacional.
A Coreia do Norte também criticou a cooperação submarina, acusando os Estados Unidos de tentar incorporar o Japão, a Coreia do Sul, a Nova Zelândia e o Canadá ao projeto conhecido como AUKUS — aliança estratégica militar trilateral entre a Austrália, o Reino Unido e os EUA — com o objetivo de transformá-la na maior aliança de submarinos nucleares do mundo.
Em particular, destacou a autorização dos Estados Unidos para que a Coreia do Sul desenvolva submarinos de propulsão nuclear como mais um exemplo da expansão desse modelo de cooperação. O Ministério alertou ainda que esse processo poderia aumentar a instabilidade política e militar na região da Ásia-Pacífico.
PYONYANG REIVINDICA UM PAPEL MAIS ATIVO
Diante desse cenário, a Coreia do Norte afirmou que a continuidade das políticas que atribui a Washington poderia desencadear uma expansão descontrolada das capacidades nucleares.
“A caixa de Pandora se abrirá completamente e trará uma terrível catástrofe nuclear sobre a humanidade”, adverte o memorando.
O documento conclui que o aumento dos arsenais e a proliferação norte-americana levaram a ordem nuclear internacional a uma situação de grave deterioração e reivindica um papel mais ativo das autoridades norte-coreanas na preservação da paz internacional e na proteção de sua segurança estratégica.
Como “Estado nuclear responsável”, afirma Pyongyang, suas decisões serão condicionadas pela constatação de que os mecanismos internacionais existentes não têm sido capazes de limitar o desenvolvimento do arsenal norte-americano nem suas iniciativas de cooperação nuclear.
Pyongyang indicou, por fim, que tomará essa posição como referência para suas futuras ações destinadas a proteger seus interesses de segurança nacional e o ambiente estratégico da região.
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