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MADRID, 9 jun. (EUROPA PRESS) -
O secretário de Estado polonês responsável pelo combate à desinformação estrangeira, Marcin Bosacki, alertou que a melhor maneira de neutralizar a ameaça da Rússia de Vladimir Putin é demonstrando unidade e firmeza por parte dos países europeus e da OTAN, ao mesmo tempo em que alertou que, se o conflito na Ucrânia continuar a se complicar, o líder russo poderia optar por intensificar sua atividade híbrida para além dos países bálticos — principal alvo até agora —, estendendo-a ao resto da Europa, incluindo a Espanha.
Isso foi feito durante o evento “Dois mares, uma crise de segurança: o desafio europeu no Báltico e no Mediterrâneo”, organizado em Madri pela presidência polonesa do Conselho dos Estados do Mar Báltico, na qual foram analisadas as ameaças híbridas às quais a Rússia está recorrendo nesta parte do continente, como o corte de cabos submarinos, a desinformação ou o uso da imigração como ferramenta de pressão, e que poderiam se estender a outros pontos.
Até agora, destacou o responsável do Ministério das Relações Exteriores polonês, essas atividades híbridas permaneceram “abaixo do limiar para que a OTAN acione o artigo 5º, mas não estão muito longe”. Por isso, ele apostou na preparação e na coordenação entre parceiros e aliados.
“Quanto mais difícil for a situação na Ucrânia para Putin”, sublinhou Bosacki, “ele poderá compensar isso intensificando as atividades híbridas contra os países europeus, em particular os bálticos e talvez a Polônia”, advertiu.
Nesse sentido, ele defendeu a necessidade de levar a sério o que diz o presidente russo, lembrando que, já antes de invadir a Ucrânia em fevereiro de 2022, ele havia deixado claros quais eram seus objetivos e defendendo que o que ele busca é voltar às fronteiras da Guerra Fria, ao mesmo tempo em que destacou que Putin “está em uma situação pior, política e militarmente, do que estava há alguns anos”.
UNIDADE E FIRMEZA
Agora, sublinhou o secretário de Estado polonês, o importante é “demonstrar solidariedade e firmeza” porque “a única coisa que a Rússia e Putin temem é a força, nada mais”. Quanto mais solidariedade e firmeza ele perceber entre os países europeus e entre a Europa e os Estados Unidos diante das ameaças híbridas e no apoio à Ucrânia, “menos provável será que a Rússia vá além no futuro próximo”, argumentou.
Bosacki se orgulhou de que a Polônia estava certa em seu “russoceticismo” antes da invasão da Ucrânia, assim como os países bálticos, que vinham alertando sobre a ameaça que Putin representava, e por isso refutou aqueles que ainda hoje acreditam que o presidente russo e a elite que o apoia serão pragmáticos.
“Vimos do que Putin é capaz nos últimos anos na Ucrânia”, enfatizou, descartando que o líder russo possa mudar de opinião, uma vez que não deu nenhum sinal de que tenha mudado de conduta. “Por isso, temos que ajudar a Ucrânia o máximo possível, nos preparar” e também “ser assertivos” diante dos gestos agressivos de Moscou, precisou ele, tendo em conta que “os objetivos da Rússia são imperialistas e não mudarão”.
RISCO MAIOR SE HOUVER CESSAR-FOGO
Stefan Ingvarsson, especialista em Europa Oriental do Instituto Sueco de Assuntos Internacionais (UI), concordou com a análise de Bosacki. “Não acreditamos que um cessar-fogo diminua a ameaça; pelo contrário, ele a aumenta”, afirmou.
“É hora de sermos mais firmes, de nos unirmos em apoio à Ucrânia e entre nós, porque o que está acontecendo nos países bálticos está ligado à preparação de várias capacidades e à exploração de nossas fraquezas” por parte da Rússia, alertou.
“O que a Rússia está fazendo nos países bálticos provavelmente tentará fazer em outros países”, previu Anna Maria Dyer, responsável pelo Programa de Segurança Internacional do Instituto Europeu de Assuntos Internacionais. “Eles não vão parar”, alertou, enfatizando que “outros países, como a Espanha e os países mediterrâneos, estão em perigo”.
Na sua opinião, “eles estão testando conosco e, se tiverem sucesso, tentarão na Alemanha, na França, na Espanha e em outros países”. Dyer destacou que o impacto de muitas das ações híbridas da Rússia não afeta apenas o país báltico em questão, como ocorre com os ataques cibernéticos, mas constitui uma “ameaça compartilhada”.
Assim sendo, tanto Dyer quanto Ingvarsson concordaram que é necessária mais cooperação e coordenação entre todos os países europeus e, no caso específico da frota fantasma russa, aproveitar todas as brechas legais já existentes para poder enfrentar essa ameaça concreta que, como destacou a especialista polonesa, não afeta apenas os cabos submarinos, os sabotagens ou o risco para o meio ambiente, mas também se dedica a coletar informações.
Em última análise, sustentou Henrik Praks, pesquisador do Centro Internacional para a Defesa e a Segurança da Estônia, o que Putin busca com todas essas atividades híbridas é “criar perturbações, semear o medo” e, na medida do possível, alterar o cenário geopolítico, e isso não se limita apenas aos países geograficamente mais próximos, mas também afeta os países do sul.
A RÚSSIA NÃO VAI PARAR
Embora em algum momento haja um cessar-fogo na Ucrânia, ele concordou com seus colegas: “essa campanha híbrida maligna da Rússia não vai parar”. Mais ainda, acrescentou, “provavelmente se intensificará, pois poderão ser empregados recursos que agora estão sendo destinados à Ucrânia”. Portanto, “todos temos que estar preparados”.
Para Ingvarsson, é fundamental que os aliados compreendam a ameaça que os países bálticos enfrentam, embora ele entenda que, da Espanha, a Rússia possa ser vista como uma ameaça distante e defenda o diálogo para aproximar os pontos de vista. No fim das contas, acrescentou, é uma questão de “vontade política” e de demonstrar, sem qualquer tipo de dúvida, que haverá uma resposta contra Moscou caso ela ataque algum aliado.
Nesse sentido, Dyer sustentou que, para além do debate em torno da destinação de 5% do PIB à Defesa até 2030 — meta que a Espanha já declarou que não cumprirá —, “o importante” é deixar claro que o governo espanhol tem “a vontade de cumprir o artigo 5º” do Tratado da OTAN e acudir em apoio a qualquer aliado que seja atacado.
Por sua vez, o diretor do Real Instituto Elcano, Charles Powell, quis deixar claro a todos os palestrantes e ao público presente que os espanhóis estão, de fato, cientes da ameaça russa, como evidenciado pelo fato de a Rússia ser vista como a segunda maior ameaça para a Espanha, depois de Marrocos, ou de Putin ser um dos líderes mundiais mais mal avaliados nos estudos realizados por este “think-tank”.
Da mesma forma, Powell considerou que “não há dúvida alguma” de que a Espanha aplicaria o artigo 5, como demonstra sua presença atual nas diversas missões da OTAN para garantir a segurança no flanco leste. “Sua presença é maior do que a de outros países europeus do sul que possuem mais capacidades”, destacou ele, pedindo que “não se subestime o esforço que a Espanha está fazendo”.
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