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MADRID 6 jun. (EUROPA PRESS) -
Os peruanos vão às urnas neste domingo para decidir, no segundo turno, quem será seu décimo presidente em dez anos, sem maiorias claras, mas com a candidata de tendências autoritárias Keiko Fujimori, em sua quarta tentativa, com uma ligeira vantagem sobre seu adversário de esquerda, Roberto Sánchez; tudo isso em meio ao desânimo que uma crise institucional e política quase perpétua causa no eleitorado.
A última pesquisa da Ipsos, divulgada na semana passada, atribui à candidata do Fuerza Popular 38% dos votos contra 35% de seu rival do Juntos por el Perú, depois que, no final de abril, os dois estavam empatados. No entanto, resta saber como o bom desempenho de Sánchez no debate televisionado de domingo pode ter influenciado, já que a lei eleitoral proíbe, a partir desta segunda-feira, a publicação de novas pesquisas.
Fujimori impôs-se claramente com 17% dos votos em um primeiro turno marcado por uma fragmentação grotesca do eleitorado, devido aos 35 candidatos à presidência que se apresentaram. Após uma contagem acirrada que se prolongou por um mês, Sánchez superou por uma pequena margem o conservador Rafael López-Aliaga.
Os dois candidatos têm uma visão totalmente antagônica do país. O dilema está na direita autoritária do fujimorismo, cujo controle do Congresso nos últimos anos criou um cenário de ingovernabilidade para muitos presidentes, ou manteve outros no poder, como a muito impopular Dina Boluarte; e uma esquerda indigenista, mais forte fora de Lima e de outros grandes centros urbanos.
Sánchez tem usado eleitoralmente essa questão da identidade indígena, chegando a aparecer com o característico chapéu chotano do ex-presidente Pedro Castillo, a quem foi visitar na prisão, onde cumpre pena por crimes de rebelião após tentar dissolver o Congresso em dezembro de 2022.
Ex-ministro de Castillo, Sánchez já prometeu conceder anistia ao ex-presidente, reformar instituições que considera “sequestradas e subvertidas” pelo fujimorismo e reforçar a presença do Estado em todo o país, com políticas de desenvolvimento, obras, educação e saúde.
Por sua vez, Fujimori alertou para o “caos” que significaria voltar às fórmulas de 2021, apesar de Castillo ter permanecido no cargo por apenas um ano e não ter conseguido cumprir nenhuma de suas promessas eleitorais devido à obstrução do Congresso, e agitou velhas bandeiras como o medo do comunismo e da fraude eleitoral.
Justamente, no debate de domingo, Fujimori agitou esse fantasma da fraude nas urnas e, poucos dias antes do pleito deste fim de semana, evitou afirmar que aceitaria os resultados caso não vencesse, algo que lembra sua postura de 2021, quando não os aceitou em seu confronto com Pedro Castillo.
A igualdade nas pesquisas sugere que, nas eleições deste domingo, também terá peso importante o voto do eleitorado que decide com base em quem lhe causa menos repulsa; seja a filha do ex-presidente Alberto Fujimori — com um legado marcado por violações dos direitos humanos —, ou o herdeiro político de um frágil Castillo que se mostrou incapaz de governar.
Esse cenário mostra que 23% dos eleitores se decidiriam por Fujimori para evitar o candidato do Juntos pelo Peru, enquanto 15% votariam em Sánchez devido ao antagonismo que ela suscita.
Por outro lado, no caso de Fujimori, que buscou assumir um papel mais institucional e moderado durante a campanha, destacam-se, como motivos para votá-la, suas promessas de crescimento econômico e de mão dura contra a criminalidade e a grave crise de segurança que assola o país, enquanto que em Sánchez, visto como uma figura disruptiva, valorizam principalmente a mudança e sua luta contra a corrupção.
O PESO DO CONGRESSO E A CRISE DE GOVERNANÇA
Com este processo eleitoral, os peruanos aspiram a conter uma crise institucional que já se tornou um paradigma de governança, como demonstra o fato de que, nos últimos dez anos, desde Ollanta Humala — atualmente preso por corrupção —, nenhum presidente conseguiu concluir seu mandato.
Uma das chaves dessa instabilidade reside no artigo 113 da Constituição, que permite ao Congresso destituir o presidente por incapacidade moral ou física, tornando-se, na última década, uma ferramenta de controle discricionário sobre o Executivo, sem as exigências e os prazos previstos nos processos de impeachment.
Essas eleições também marcaram o retorno de um Congresso bicameral, com 130 deputados e 60 senadores, no qual a Fuerza Popular volta a ser a formação política mais numerosa do espectro parlamentar, à frente do Juntos por el Perú, e pela primeira vez em muito tempo sem a presença de alguns partidos históricos.
O novo Senado, que não pode ser dissolvido pelo presidente, será fundamental nesta nova legislatura, pois terá a palavra final na aprovação de leis, que podem ser revisadas, modificadas ou rejeitadas sem a necessidade de passar novamente pela Câmara dos Deputados. Além disso, será responsável pela nomeação de altos funcionários, como o Provedor de Justiça ou os juízes do Tribunal Constitucional, entre outros.
Esse controle das câmaras, exercido durante a última década pelo Fuerza Popular e pela Renovación Popular de López Aliaga, seu principal parceiro nesta próxima legislatura, foi incapaz de atender às demandas da cidadania e, para alguns analistas, significou a captura do Estado pelo Congresso.
Isso gerou um clima de frustração e de expectativas não atendidas entre uma população cansada da classe política, o que se reflete, por sua vez, na fragmentação do voto e naquele número recorde de candidatos, alguns deles supostos e autodeclarados “outsiders”, no primeiro turno.
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