Metsola afirma que a guerra híbrida “não se limita às fronteiras” nacionais e pede uma defesa “implacável” da democracia
BRUXELAS, 15 set. (EUROPA PRESS) -
O Parlamento Europeu apontou nesta terça-feira a Rússia como a “principal ameaça” à democracia na Europa e exigiu o reforço dos instrumentos da União Europeia (UE) para combater a interferência estrangeira e a desinformação, incluindo uma maior ação das plataformas digitais contra o uso de “bots” para interferir em processos eleitorais.
Com 420 votos a favor, 220 contra e 26 abstenções, o plenário do Parlamento Europeu, reunido em Estrasburgo (França), aprovou as conclusões da Comissão Especial sobre o Escudo Europeu da Democracia —criada em dezembro de 2024—, nas quais os eurodeputados alertaram que a interferência estrangeira e a desinformação ameaçam a “própria essência do projeto europeu” e consideram insuficiente a resposta atual dos Vinte e Sete.
O relatório aponta especialmente a Rússia por seus “frequentes” ataques híbridos contra infraestruturas críticas europeias, entre os quais ciberataques, sabotagens, incêndios criminosos, espionagem e interferências de sinais, embora também identifique atividades hostis provenientes da Bielorrússia, China, Irã e Coreia do Norte contra o bloco comunitário.
UM CENTRO EUROPEU CONTRA AS INTERFERÊNCIAS
Para articular uma resposta em escala comunitária, a resolução apoia a proposta da Comissão de novembro de 2025 para a criação de um Centro Europeu para a Resiliência Democrática com um “mandato claro”, “orçamento próprio” e capacidade operacional independente, com o objetivo de fortalecer a cooperação entre os órgãos europeus e as autoridades nacionais e combater as notícias falsas e as tentativas de manipulação por parte de Estados terceiros.
Os eurodeputados também exigem a ampliação das sanções da UE contra aqueles que facilitam as campanhas de desinformação e contribuem para contornar as restrições vigentes, ao mesmo tempo em que condenam as “listas negras” de funcionários públicos, eurodeputados e jornalistas elaboradas por Moscou por motivos políticos.
Como “esses ataques” ocorrem em grande parte “no âmbito digital”, os parlamentares exigiram que as plataformas assumam “sua responsabilidade” e redobrem seus esforços para combater a interferência eleitoral por meio de ‘bots’ e proteger o debate democrático, ressaltando que a liberdade de expressão e de informação são direitos que “protegem as pessoas, não as máquinas”.
ELEIÇÕES, MÍDIA E SOBERANIA EUROPEIA
Para reforçar a proteção dos processos eleitorais, o relatório propõe considerar as infraestruturas eleitorais como infraestruturas críticas, aplicar o princípio de “conheça seu doador” às doações políticas realizadas por meio de criptomoedas e adotar medidas contra falsificações maliciosas e anúncios fraudulentos.
O relatório também considera prioritário proteger meios de comunicação “livres e independentes” e reivindica financiamento de longo prazo para salvaguardar a liberdade de imprensa e o jornalismo de investigação, bem como reforçar a alfabetização midiática e em matéria de Inteligência Artificial.
Por outro lado, o Parlamento solicita a redução da dependência europeia de tecnologias controladas por países terceiros em setores críticos, especialmente de empresas norte-americanas e equipamentos de informática chineses, e propõe uma estratégia equilibrada de “compra de produtos europeus” para investimentos em infraestruturas críticas.
Por fim, os eurodeputados exigem melhorar a preparação da sociedade para situações de crise por meio de exercícios periódicos em grande escala e de um aplicativo de alerta comum para toda a UE, além de propor que o dia 24 de fevereiro, aniversário do início da invasão russa em grande escala da Ucrânia, seja declarado “Dia Europeu da Preparação”.
METSOLA: “NÃO NOS DEIXAREMOS INTIMIDAR NEM DIVIDIR”
Após a votação, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, comemorou que o Parlamento Europeu tenha enviado “o sinal mais firme” de que será “implacável na defesa” das democracias europeias diante das ameaças e ingerências estrangeiras.
Em entrevista coletiva em Estrasburgo, Metsola afirmou que a aprovação do relatório “não poderia ser mais oportuna”, coincidindo com o Dia Internacional da Democracia e após o ataque com um drone próximo à fronteira com a Polônia e as recentes incursões de outras aeronaves no espaço aéreo europeu.
Em sua opinião, esses episódios são exemplos de “até onde os atores hostis estão dispostos a ir” e evidenciam ameaças “cada vez mais sofisticadas” que têm como alvo “não apenas nossas infraestruturas, mas nossas sociedades, nossas instituições e nosso povo”.
Metsola afirmou que a defesa da democracia exige “uma resposta europeia coletiva”, pois “a guerra híbrida não se detém nas fronteiras nacionais”. “Em um momento em que muitos tentam semear a desconfiança e nos desestabilizar, a resposta desta Câmara hoje ressoa forte e clara: não nos deixaremos intimidar nem dividir”, concluiu ela, ressaltando que os europeus são “mais fortes” quando permanecem unidos.
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