As agências da ONU reconhecem que a falta de recursos afeta a ajuda que prestam, essencial para 80% dos refugiados
MADRID, 16 maio (EUROPA PRESS) -
A vida nos campos de refugiados saharauis em Tinduf (Argélia), meio século após sua criação, é difícil e a dependência da ajuda internacional é enorme, daí que a principal preocupação das mais de 170.000 pessoas que vivem neles seja cair no esquecimento, num momento em que precisam competir pelos fundos cada vez mais escassos para a ajuda humanitária, diante de um número crescente de crises em todo o mundo.
Às tendas que instalaram na “hamada” argelina — como é conhecida essa zona desértica —, aqueles que chegaram há 50 anos diante da retirada da Espanha do Saara Ocidental e da ocupação marroquina, sucederam-se depois pequenas construções de adobe, mais permanentes, às quais agora estão dando lugar construções de tijolos, mais consistentes, num sinal claro de que os saharauis não esperam que a sua situação se resolva em breve.
A dos saharauis é uma das “situações de refugiados mais prolongadas em nível mundial”, reconhece em declarações à Europa Press Ikram Houimli, responsável pelas relações externas do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) na Argélia, enfatizando que eles vivem “no exílio há cinco décadas em um ambiente desértico marcado por temperaturas extremas, isolamento e escassez de recursos naturais".
Aqueles que residem nos cinco campos localizados ao sul da cidade argelina de Tinduf enfrentam “barreiras significativas, incluindo pobreza, desnutrição e oportunidades limitadas de emprego”, acrescenta, por sua vez, Aline Rumonge, representante do Programa Mundial de Alimentos (PMA) na Argélia.
Conforme explica à Europa Press, as limitações econômicas e a falta de meios de subsistência sustentáveis geram uma forte dependência da assistência humanitária para cobrir suas necessidades básicas, a ponto de, atualmente, “mais de 80% dos refugiados dependerem totalmente do apoio humanitário”.
RESILIÊNCIA E SOLIDARIEDADE
Se há algo que os saharauis demonstraram e continuam a demonstrar é a sua “notável resiliência e forte organização solidária”, destaca Houimli, algo que os próprios refugiados confirmam, tendo tecido uma rede de solidariedade entre si e organizado muito bem a distribuição de ajuda, em particular a alimentar, para que todos tenham algo para comer.
Os refugiados também estão muito conscientes de que a proliferação de crises humanitárias nos últimos anos, como por exemplo a de Gaza, ofusca sua situação e têm visto também como a ajuda vem diminuindo nos últimos anos, à medida que os doadores, entre eles os Estados Unidos, cortaram seus orçamentos de ajuda internacional.
A redução dos fundos “teve um impacto significativo na resposta humanitária” nos campos saharauis, admite a responsável do ACNUR, que destaca que a competição por atenção e recursos obrigou “os atores humanitários a tomar decisões extremamente difíceis de priorização”.
No caso do PMA, a redução nos fundos dos doadores, somada ao aumento dos preços causado, entre outros fatores, pela pandemia da COVID-19, obrigou a reduzir as rações mensais de alimentos e a ingestão calórica em 30%.
“Embora essa redução fosse necessária para manter o apoio ao maior número possível de beneficiários, ela afetou negativamente o estado nutricional e a saúde da população refugiada”, admite Rumonge, algo que os próprios refugiados confirmam, afirmando que as crianças adoecem com frequência.
PROBLEMAS DE DESNUTRIÇÃO
Nesse sentido, segundo dados dessa agência da ONU, 40% dos lares apresentam um consumo alimentar inadequado, um dado ainda pior no caso dos chefiados por mulheres. Além disso, apenas 11% das crianças entre 6 e 23 meses atingem a dieta mínima aceitável e apenas 38% das mulheres em idade reprodutiva têm uma dieta com o mínimo de variedade. Em geral, resume a responsável pelo PMA, “todas as formas de desnutrição permanecem em níveis críticos”.
O PMA distribui mensalmente ajuda alimentar no valor de 2,2 milhões de euros, o que se traduz em uma cesta que fornece 2.163 quilocalorias por pessoa e inclui 8 quilos de farinha de trigo, 2 quilos de arroz, 2 quilos de lentilhas, 2 quilos de cevada, 1 quilo de gofio, 750 gramas de açúcar e 920 gramas de óleo vegetal. Grávidas e mães lactantes recebem, além disso, um auxílio monetário para complementar sua alimentação.
No caso do ACNUR, Houimli destaca que a verba destinada a abrigo, energia e outros bens não alimentares, orçada em 4,4 milhões de dólares, quase não recebeu financiamento este ano, o que afeta diretamente a distribuição de materiais de abrigo, de produtos como cobertores ou utensílios de cozinha, bem como o apoio para cobrir necessidades energéticas básicas.
Mas também preocupa, acrescenta ela, o impacto que a redução no financiamento está causando em serviços comunitários fundamentais, em particular “os incentivos concedidos a professores, profissionais de saúde, assistentes sociais e outros funcionários da linha de frente que desempenham um papel crítico na garantia da continuidade dos serviços essenciais nos campos”.
O PRINCIPAL DESAFIO: QUE OS FUNDOS CHEGUEM
Nesse contexto, a responsável pelo PMA reconhece que o principal desafio atualmente é “garantir financiamento adequado, constante e de longo prazo”, levando em conta que “uma em cada três crianças apresenta atraso no crescimento e quase 70% das mulheres sofrem de anemia”.
As agências humanitárias também temem as consequências que a instabilidade no Oriente Médio possa acarretar, em particular o aumento dos preços dos alimentos causado pelo fechamento do Estreito de Ormuz e o consequente impacto no custo da cesta básica fornecida pelo PMA.
“Isso acrescenta mais uma camada de incerteza”, admite Rumonge, que esclarece que o impacto final ainda está sendo avaliado. No entanto, ela ressalta que “o persistente déficit de financiamento representa uma grave ameaça”, já que, até maio, o PMA havia recebido apenas 11% dos 32 milhões de dólares necessários este ano para atender aos refugiados saharauis.
“No pior dos cenários”, aponta a responsável do PMA, “a assistência alimentar poderia ser suspensa, obrigando crianças vulneráveis e suas mães nos campos, que já vivem em condições precárias, a irem para a cama com fome”.
CONTINUAR AJUDANDO OS MAIS VULNERÁVEIS
“As ondas de calor, as inundações, as tempestades de areia e a escassez de água também representam uma pressão adicional sobre a infraestrutura e os serviços já de si frágeis” nos campos, reconhece, por sua vez, Houimli, enfatizando que é “crítico” manter o apoio em setores-chave como alimentação, saúde, educação, água e abrigo, “especialmente para os refugiados mais vulneráveis”.
Tanto o PMA quanto o ACNUR se empenham para que isso não aconteça, buscando novas fontes de financiamento e priorizando suas atividades em prol dos mais vulneráveis. “Os esforços têm se concentrado em diversificar a base de doadores, ampliando as parcerias para além dos doadores tradicionais, envolvendo também o setor privado, fundações, instituições acadêmicas e parceiros regionais”, explica Houimli.
No caso da Espanha, o Ministério das Relações Exteriores informou à Europa Press que a Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID) canalizou ajuda humanitária para os refugiados saharauis no valor de 52.237.315 euros entre 2020 e 2025 e “a intenção é manter um nível de financiamento semelhante” em 2026 ao do ano anterior.
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