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Um especialista em estratégia digital destaca o “tom próprio” de Sánchez e acredita que Feijóo busca “copiar” o que o Vox está fazendo
MADRID, 18 out. (EUROPA PRESS) -
O especialista em estratégia digital José Gabriel García acredita que os partidos políticos deixaram de lado as redes sociais como uma mera vitrine de mensagens institucionais para transformá-las em um dos principais palcos da campanha eleitoral de 29 de novembro, embora acumular visualizações, seguidores e interações não garanta necessariamente a conquista de votos.
Conforme reflete a evolução da comunicação política, a influência das redes sociais pode ser decisiva para mobilizar os “indecisos”, mas “dificilmente” permite medir quantos eleitores mudam de decisão diante de uma publicação.
Esse analista afirmou, em declarações à Europa Press, que as redes sociais “transformaram” tanto a política quanto a forma de conduzir as campanhas eleitorais, mas faz uma distinção entre sua capacidade de mobilizar os eleitores e sua influência direta no sentido do voto.
DO QUADRO DE AVISOS À POLÍTICA DO ‘CURTA’
A evolução das estratégias digitais dos partidos tem sido progressiva. García situa, antes de 2023, uma etapa em que as formações tradicionais mantinham uma comunicação fundamentalmente institucional, com as redes sociais concebidas quase como um “quadro de avisos corporativo”.
Nesse cenário, formações como Podemos e Vox já haviam demonstrado a capacidade desses canais de alcançar um público amplo e, segundo o especialista, isso marcou parte da evolução posterior.
A evolução continuou em 2024, com as eleições europeias, nas quais o especialista destaca a campanha do líder do Se Acabó la Fiesta (SALF), Alvise Pérez, que conquistou três eurodeputados com uma estratégia fortemente baseada em conteúdos divulgados por meio de celulares.
Em setembro de 2025, tanto Pedro Sánchez quanto Alberto Núñez Feijóo também decidiram abrir contas pessoais no “TikTok”, uma plataforma especialmente relevante na disputa pela atenção do público mais jovem.
Para García, o presidente do Governo conseguiu desenvolver um tom próprio que lhe permite se distanciar da comunicação excessivamente institucional do PSOE, embora algumas de suas iniciativas, como as playlists musicais divulgadas no ‘Spotify’, também tenham recebido críticas.
No caso de Feijóo, ele considera que o PP “continua buscando uma identidade digital reconhecível”. Em sua opinião, o partido tentou abandonar o tom mais rígido de sua comunicação tradicional, mas, em algumas ocasiões, optou por se aproximar de fórmulas já utilizadas pelo Vox. “Não acredito que seja a melhor estratégia copiar o que uma marca rival está fazendo”, afirma o especialista.
OS ‘CLIPS’ QUE PROLONGAM A BATALHA APÓS OS DEBATES
A transformação das campanhas também afeta os debates eleitorais. Longe de considerar que os formatos televisivos tradicionais vão “desaparecer”, García acredita que ambos os modelos estão destinados a “coexistir”, embora com uma diferença fundamental: o debate não termina mais quando as câmeras são desligadas.
Antes da expansão das redes sociais, a avaliação de um confronto entre candidatos se prolongava principalmente por meio de reportagens e análises no dia seguinte. Agora, os trechos ou “clipes” selecionados podem manter o confronto por vários dias. “O verdadeiro debate começa quando o debate termina”, resume ele.
Em sua opinião, as equipes de comunicação encontraram nos ‘clipes’ uma ferramenta para selecionar os momentos que consideram mais favoráveis aos seus candidatos, reforçar uma mensagem e transmiti-la a públicos que talvez não tenham acompanhado o confronto na íntegra.
Dessa forma, um debate televisionado se torna o ponto de partida de uma segunda batalha digital, na qual cada partido tenta impor sua própria interpretação do que ocorreu.
No entanto, ele alerta que sua divulgação não depende apenas da estratégia de comunicação, mas também das características do candidato.
Nesse sentido, Gabriel Rufián, cuja presença nas redes sociais combina uma forma reconhecível de se comunicar com uma estratégia que, em sua opinião, não precisa ser totalmente espontânea, é um bom exemplo. “Há uma boa estratégia e um candidato que diz coisas que seu público quer ouvir. Essa é a combinação perfeita”, destaca.
A POLARIZAÇÃO COMO ATALHO PARA GANHAR VISIBILIDADE
Um dos principais riscos dessa transformação é que a competição para captar a atenção acabe favorecendo as mensagens mais confrontadoras em detrimento das propostas políticas.
García alerta que os conteúdos que geram maior reação podem obter mais visibilidade, especialmente em um contexto de polarização social. “O algoritmo valoriza o que as pessoas gostam”, explica.
O problema surge quando o confronto gera mais interesse do que outros conteúdos e os partidos começam a adaptar suas mensagens a essa dinâmica para ganhar presença.
Dessa forma, a busca por visibilidade pode alimentar um ciclo em que os conteúdos mais polêmicos provocam mais reações, obtêm maior divulgação e incentivam as formações políticas a recorrer novamente a esse tipo de comunicação.
“INFLUENCIADORES” POLÍTICOS: RISCO DE EFEITO CONTRÁRIO?
A incorporação de “influenciadores” políticos constitui outra das ferramentas que os partidos podem utilizar para ampliar seu alcance, especialmente entre os eleitores mais jovens.
García considera que recorrer a essas figuras pode ser “útil” quando a colaboração surge de forma natural, mas alerta que uma estratégia excessivamente controlada pode produzir o efeito contrário ao desejado.
Em sua opinião, os usuários jovens cresceram em um ambiente digital e dispõem de mais ferramentas para identificar quando uma mensagem é resultado de uma recomendação espontânea e quando há uma intenção publicitária por trás dela.
Por isso, ele considera que os partidos devem agir com cautela ao recorrer a perfis conhecidos para divulgar mensagens políticas por meio de acordos pagos ou contratações expressas. “Se o público perceber que há algo de falso, o efeito será exatamente o contrário”, adverte.
O segredo está em fazer com que a comunicação pareça credível para o público-alvo. Uma colaboração percebida como artificial pode prejudicar tanto o criador de conteúdo quanto a formação política que pretende se beneficiar de sua influência.
MUITAS AÇÕES, MAS ONDE ESTÁ A ESTRATÉGIA?
Apesar da crescente presença dos partidos políticos nas plataformas digitais, García considera que ainda é cedo para identificar uma estratégia global claramente definida para o dia 29 de novembro.
No entanto, ele considera que, por enquanto, o PP continua buscando maneiras de se afastar dos códigos institucionais sem se limitar a reproduzir os de outras formações, enquanto o PSOE conseguiu desenvolver um estilo mais identificável em alguns de seus conteúdos.
De qualquer forma, o especialista insiste que a análise dessas estratégias deve ser mantida separada das previsões eleitorais. O desempenho de uma publicação, a capacidade de gerar conversas ou o crescimento de uma comunidade digital não permitem, por si só, antecipar o resultado das urnas.
De olho no dia 29 de novembro, os partidos enfrentam, assim, uma dupla corrida: captar a atenção dos usuários e converter essa visibilidade em participação eleitoral.
Em uma campanha em que um vídeo pode continuar circulando dias após sua publicação e um debate pode se prolongar muito além da televisão, a incógnita não será apenas quem consegue mais repercussão nas redes sociais, mas até que ponto essa conversa digital consegue se traduzir nas urnas.
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