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Estudo recomenda incluir a saúde mental nas políticas de memória
MADRID, 31 out. (EUROPA PRESS) -
Os netos e bisnetos das vítimas fatais da Guerra Civil e do regime de Franco podem apresentar, ainda hoje, “sintomas de luto e estresse pós-traumático”. Esses sentimentos foram transmitidos de geração em geração e mantêm aberta uma ferida que obriga a “reconsiderar as políticas de memória” atuais, com mais trabalho psicológico e educacional, não apenas junto aos familiares, mas em toda a sociedade espanhola.
É o que se depreende da pesquisa publicada pelo doutor em História e pesquisador do Departamento de Humanidades da Universidade Carlos III de Madri, Francisco J. Leira-Castiñeira, e pela doutora em Psicologia e professora da Universidade Rey Juan Carlos, Raquel Martín, intitulada ‘Lágrimas do passado. Superação do processo de luto da Guerra Civil Espanhola por meio de rituais de transição”.
Para realizar essa pesquisa, os autores seguiram uma “metodologia mista”, com entrevistas orais para coletar relatos de vida dos familiares das vítimas de ambos os bandos da Guerra Civil e, assim, compreender quais narrativas foram transmitidas de geração em geração. Por outro lado, realizaram testes psicológicos e sociológicos para obter detalhes sobre o contexto e o momento em que a pessoa entrevistada tomou conhecimento da morte de seu ente querido.
Segundo especificam, aproximadamente 75% das pessoas entrevistadas são familiares de vítimas do lado republicano e 25% do lado franquista. Além disso, as pessoas selecionadas eram voluntárias pertencentes a diversas organizações, com o objetivo de “obter uma amostra sociologicamente ampla”.
Em uma conversa com a Europa Press, ambos os autores destacam que, embora os parentes de primeiro grau vivam o trauma com maior impacto, o luto foi transmitido aos netos e até mesmo aos bisnetos, que apresentam uma sintomatologia muito semelhante e, em muitos casos, ainda sentem seu luto como “desautorizado”, o que impede a pessoa de expressá-lo abertamente.
O mesmo ocorreu com o estresse pós-traumático, que se manifesta em lembranças recorrentes, na sensação de estar continuamente em alerta, no surgimento de imagens indesejadas ou em sonhos angustiantes. “Nos familiares de segunda e terceira geração, ficou evidente que a história de vida transmitida passa a fazer parte da identidade das pessoas”, resume Raquel Martin.
Entre os motivos apontados pelos autores para explicar por que o luto se prolongou ao longo de várias gerações está a impossibilidade de concluir o luto por meio de “ritos” sociais durante a Guerra Civil e a ditadura, ficando essa tarefa a cargo das gerações posteriores. A pesquisa revela que, ainda hoje, muitos deles insistem em “recuperar os restos mortais dos familiares e proporcionar-lhes uma despedida digna”.
Da mesma forma, o professor da Universidade Carlos III defende que a memória é “um processo circular” que se “atualiza constantemente” e se retroalimenta. Em sua opinião, o processo de recuperação da memória vivido na década de 2000 fez com que os parentes de segundo grau fossem capazes, muitos anos depois, de compreender o que havia acontecido e, por isso, aumentou seu estresse pós-traumático, mesmo que não tivessem vivido a Guerra Civil ou a ditadura.
30% REALIZARAM ‘RITUAIS’ SIMBÓLICOS SEM TER O CORPO
A análise de Leira e Martín distingue o impacto nos familiares que conseguiram recuperar os restos mortais de seus entes queridos e naqueles que não conseguiram. Nesse sentido, eles ressaltam que esses últimos são incapazes de encerrar emocionalmente a ferida, e o trauma se manifesta por meio de pensamentos intrusivos e de uma hiperativação, ao ficarem presos em um processo de “luto prolongado” ou “não reconhecido”.
De fato, 30% dos entrevistados que não conseguiram localizar o corpo realizaram um “rito” simbólico de sepultamento. “Isso alivia, de alguma forma, o estresse pós-traumático e os níveis de luto”, insiste o doutor em História.
Além disso, os autores também apontam o caso daqueles que acreditam saber onde seu parente se encontra, mas não conseguem recuperá-lo, e sustentam que, para esses, os sintomas se refletem em estresse, pensamentos intrusivos ou hipervigilância — algo que associam ao paradoxo de saber onde está seu ente querido, mas não poder fazer nada para recuperá-lo. “Isso indica que são acontecimentos que não foram superados nem integrados à realidade”, esclarece Martín.
Quanto àqueles que encontraram o corpo e puderam dar-lhe sepultura, Leira-Castiñeira afirma que o luto “não é totalmente aliviado” porque eles precisam de um “acompanhamento psicológico” posterior, o que, na maioria dos casos, não ocorreu.
Nesse sentido, ambos os autores apontam que a falta de reconhecimento institucional e a ausência de espaços adequados para expressar a perda aumentaram o mal-estar psicológico das pessoas afetadas.
INCLUIR A SAÚDE MENTAL NAS POLÍTICAS DE MEMÓRIA
Diante desse cenário, Leira e Martín destacam a importância de reconsiderar as atuais políticas de memória para incluir a saúde mental das pessoas afetadas e uma vertente educacional que dê sentido ao que aconteceu. Assim, Leira lembra que uma das frases recorrentes nos testes é: “E por que isso aconteceu com meu familiar?”.
“O luto é muito mais intenso entre os familiares de vítimas de contextos traumáticos, como também foi o caso da tempestade em Valência, da COVID ou do terrorismo”, ressalta o historiador. Sobre isso, ele insiste que não se deve apenas realizar um trabalho pedagógico com os familiares das vítimas, mas também em nível coletivo “para que o passado deixe de ser um campo de batalha e se torne algo sobre o qual se construa uma democracia”.
AS VÍTIMAS SENTEM QUE PODERIA SER FEITO MAIS
No total, segundo dados do Ministério da Política Territorial e da Memória Democrática, há na Espanha 6.011 valas comuns, das quais 2.427 ainda não foram exumadas, o que representa 40%. Foram totalmente exumadas 926, enquanto que, se somarmos as que foram parcialmente exumadas e/ou receberam tratamento digno, o número sobe para 1.683.
Esses números, de acordo com a pesquisa, traduzem-se na sensação de que se poderia fazer mais. “Muitas pessoas que recuperaram os corpos admitem que isso foi possível graças à Secretaria de Estado da Memória Democrática. Mas também 75% das pessoas entrevistadas afirmam que seria preciso fazer algo a mais”, defende Leira-Castiñeira.
Na opinião de Raquel Martín, ainda há “muito trabalho coletivo” a ser feito e a sociedade ainda precisa aprender a atribuir um significado à Guerra. “Em episódios traumáticos, o significado que a sociedade atribui a eles é muito importante e, neste caso, não há um significado claro; ao contrário, as pessoas continuam travando disputas entre facções e, infelizmente, continuam se identificando com um lado ou com o outro”, explica ela.
Por isso, a psicóloga ressalta que é necessária mais “atenção personalizada” aos descendentes das vítimas e que as instituições se dediquem a eles, “estando a serviço de cada um”, pois, atualmente, “o apoio não chega às pessoas”.
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