ANCARA 8 jul. (do correspondente especial da EUROPA PRES, Iván Zambrano) -
Os chefes de Estado e de Governo da OTAN minimizaram, nesta quarta-feira, as críticas que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dirigiu contra eles à véspera da cúpula da Aliança em Ancara, argumentando que os aliados já estão assumindo maior responsabilidade por sua própria segurança e reequilibrando a carga financeira da organização.
Os líderes responderam assim às críticas do morador da Casa Branca, que afirmou continuar “decepcionado” com a OTAN por não ter oferecido ajuda em sua ofensiva contra o Irã e por não gastar o suficiente com assuntos militares, e chegou a dizer que, se a cúpula não tivesse sido organizada por seu “amigo” Recep Tayyip Erdogan, talvez nem tivesse comparecido.
“Os Estados Unidos são o parceiro mais importante (da OTAN) e isso não muda só porque um presidente seja um pouco crítico em relação à organização. Trump é muito crítico em relação à organização, sem dúvida se manifestará sobre isso, nós o ouviremos, mas isso não põe em causa a existência da Aliança, de forma alguma”, opinou o primeiro-ministro da Bélgica, Bart de Wever.
O líder belga lamentou que Trump continue sendo “muito crítico” em relação à OTAN porque, em sua opinião, “os países europeus atenderam à sua exigência” de gastar mais com defesa e aumentaram os gastos em 20%, chegando a 60% no caso da Bélgica.
Numa linha muito semelhante, o primeiro-ministro da Holanda, Rob Jetten, minimizou as críticas ao defender que o esforço continental “não só favorece a segurança europeia, mas também a dos Estados Unidos”, ao fornecer capacidades que são “cruciais” para Washington.
Diante de uma eventual retirada das tropas americanas, Jetten mostrou-se “absolutamente convencido” de que os Estados Unidos têm interesse em uma Aliança forte, embora tenha alertado que os aliados já são “bastante capazes de defender este continente” por conta própria. “Estamos redesenhando a OTAN para uma ‘OTAN 3.0’ e fazendo um ótimo trabalho”, acrescentou.
A DIVISÃO DE CARGAS “JÁ É UMA REALIDADE”
Por sua vez, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, mostrou-se compreensivo com a necessidade de mudar a divisão de responsabilidades, pois as ameaças “estão mudando rapidamente”, mas esclareceu que se trata de uma transição que “já está ocorrendo e ganhando força”.
“O presidente (Trump) deseja que essa mudança de responsabilidade ocorra, mas vale lembrar que o presidente (Barack) Obama também a desejava e é apropriado que ela ocorra”, afirmou o canadense, minimizando a atitude do norte-americano, a quem viu “de bom humor” em Ancara.
“O marco importante é que o fardo está sendo compartilhado; a Europa está assumindo uma responsabilidade maior”, destacou o primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Store, que, ao chegar à cúpula, destacou que seu país elevou para 4,7% os gastos com defesa (3,17% em investimento “puramente” militar) e, com isso, está se “aproximando” das metas acordadas em Haia.
Questionado sobre a ameaça de Trump de retirar até 80.000 soldados americanos destacados na Europa, apesar de tudo, o líder norueguês minimizou a questão, observando que os Estados Unidos têm uma “agenda mais ampla” do que a da Europa e defendendo que os europeus deram um “passo à frente”.
“Se há retórica de um ou outro líder, temos que conviver com isso, mas, se você analisar os fatos, a Europa está dando um passo à frente, não apenas na forma como gastamos, mas porque gastamos com sensatez, sem sobreposições”, insistiu Gahr Store, que afirmou “não ver” os Estados Unidos retirando “todas as suas tropas” da Europa.
UMA ALIANÇA MAIS EUROPEIA
O chanceler alemão, Friedrich Merz, juntou-se a esse grupo, manifestando seu desejo de que a cúpula consagre “um novo espírito” para uma OTAN “mais forte e unida”, graças ao fato de a maioria dos parceiros ter “melhorado consideravelmente” seus orçamentos de defesa.
Merz defendeu a criação de uma Aliança “mais europeia, para que possa continuar sendo transatlântica” e citou como exemplo dessa nova autonomia o acordo bilateral anunciado com a Noruega e o Canadá para a construção conjunta e aquisição de submarinos.
Embora não tenha falado diretamente com a imprensa, o presidente do Governo, Pedro Sánchez, transmitiu aos seus homólogos que a Espanha é “um aliado com princípios” que está cumprindo seus compromissos tanto em termos de investimento quanto de capacidades.
É o que afirmaram fontes governamentais, que indicaram que o chefe do Executivo veio à cúpula da OTAN com a intenção de transmitir uma mensagem de reforço do “caráter europeu” e da unidade e coesão da Aliança para “enfrentar os desafios do futuro”.
“NÃO HÁ OTAN SEM OS EUA”
No lado mais atlantista do encontro, o presidente da Polônia, Karol Nawrocki, evitou qualquer comentário contra os Estados Unidos ao afirmar que “não há OTAN sem os Estados Unidos” e classificou Trump como “um grande amigo da Polônia”.
Longe de temer uma retirada de tropas, Nawrocki lembrou que há 10.000 militares americanos em seu território e garantiu que as negociações “estão indo muito bem” para estabelecer uma presença permanente de tropas americanas no país. “A via para esse destacamento está aberta”, comemorou.
Por fim, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer — sobre quem Trump afirmou que ele teria renunciado por não ajudá-lo no Oriente Médio —, optou por evitar a polêmica direta com o presidente dos Estados Unidos para colocar o foco na urgência geopolítica da cúpula.
“Com o conflito em curso na Ucrânia e os recentes acontecimentos no Estreito de Ormuz, há muitas questões realmente importantes que devemos debater e sobre as quais devemos chegar a um acordo nesta cúpula. É muito importante que, como líderes, demonstremos a unidade e a força da OTAN em um momento como este”, concluiu.
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